«Papa Francisco, qual seria o fundamento de uma espiritualidade do sacerdote?»



Falemos da espiritualidade do clero diocesano.
Sacerdote contemplativo, mas não como quem está na Cartuxa, não é desta contemplatividade que falo. O sacerdote deve ter uma contemplatividade, uma capacidade de contemplação quer a Deus quer aos homens. É um homem que olha, que enche os seus olhos e o seu coração com esta contemplação: com o Evangelho diante de Deus, e com os problemas humanos diante dos homens. Neste sentido deve ser um contemplativo. Não se deve confundir: o monge é outra coisa.

Mas onde está o centro da espiritualidade do sacerdote diocesano? Diria que está na diocesanidade. É ter a capacidade de se abrir à diocesanidade.

A espiritualidade de um religioso, por exemplo, é a capacidade de se abrir a Deus e aos outros na comunidade: tanto a mais pequena, como a maior da congregação. E vós religiosos que trabalhais na paróquia, deveis fazer as duas coisas, por isso o dicastério para os Bispos e o dicastério para a vida consagrada estão a trabalhar numa nova versão da Mutuae relationes, porque o religioso tem as duas pertenças.

Mas voltemos à diocesanidade: que significa? Significa ter um relacionamento com o Bispo e outro com os demais sacerdotes. A relação com o Bispo é importante, é necessária. Um sacerdote diocesano não pode estar separado do Bispo. «Mas, o Bispo não gosta de mim, o Bispo isto e o Bispo aquilo...»: talvez o bispo possa ser um homem de mau carácter: mas é o teu Bispo. E tu deves encontrar, também naquela atitude não positiva, um caminho para manter a relação com ele. Contudo esta é uma excepção. Eu sou sacerdote diocesano porque tenho um relacionamento com o Bispo, um relacionamento necessário. É muito significativo quando no rito da ordenação se faz o voto de obediência ao Bispo. «Eu prometo obediência a ti e aos teus sucessores».

Diocesanidade significa uma relação com o Bispo que se deve concretizar e fazer crescer continuamente. Na maioria dos casos não é um problema catastrófico, mas uma realidade normal. Em segundo lugar a diocesanidade implica uma relação com os outros sacerdotes, com todo o presbitério. Não há espiritualidade do sacerdote diocesano sem estes dois relacionamentos: com o Bispo e com o presbitério. E são necessários. «Sim, com o Bispo dou-me bem, mas não vou às reuniões do clero porque se dizem coisas estúpidas». Mas com esta atitude falta-te alguma coisa: não possuis aquela verdadeira espiritualidade do sacerdote diocesano. Tudo consiste nisto: é simples, mas ao mesmo tempo não é fácil.
Não é fácil pôr-se de acordo com o Bispo, nem sempre é fácil, porque as ideias de um e de outro são diferentes, mas pode-se discutir... e discuta-se! E isso pode acontecer falando forte! Seja feito! Quantas vezes um filho discute com o seu pai e no fim permanecem sempre pai e filho. Contudo, quando nestas duas relações, quer com o Bispo quer com o presbitério, há diplomacia, não há o Espírito do Senhor, porque falta o espírito de liberdade. É preciso ter a coragem de dizer «Eu não penso assim, penso diversamente», e também a humildade de aceitar uma correcção. É muito importante.

E qual é o maior inimigo destas duas relações? Os mexericos. Muitas vezes penso — porque também eu tenho esta tentação de falar, temo-la dentro, o diabo sabe que aquela semente lhe dá frutos e semeia bem — eu penso que talvez seja consequência de uma vida celibatária vivida como esterilidade, não como fecundidade. Esta é uma aragem que não faz bem, é precisamente o que impede aquela relação evangélica e espiritual fecunda com o Bispo e com o presbitério. Os mexericos são o inimigo mais forte da diocesanidade, ou seja, da espiritualidade. Mas, tu és um homem, por conseguinte se tens algo contra o Bispo vai ter com ele e esclarece. Mas depois haverá consequências negativas. Carregarás a cruz, mas sê homem! Se és um homem maduro e vês algo no teu irmão sacerdote que não te agrada ou que consideras errado, diz-lho directamente, ou então se vires que ele não tolera ser corrigido, vai dizê-lo ao Bispo ou ao amigo mais íntimo daquele sacerdote, para que possa ajudá-lo a corrigir-se. Mas não o digas aos outros: porque isto significa sujar-se um ao outro. E o diabo fica feliz com aquele «banquete», porque assim ataca precisamente o centro da espiritualidade do clero diocesano. Na minha opinião os mexericos são muito danosos. E não são uma novidade pós-conciliar... Já São Paulo teve que as enfrentar, recordai-vos da frase: «Eu sou de Paulo, eu sou de Apolo...». Os mexericos são uma realidade presente já no início da Igreja, porque o demónio não quer que a Igreja seja uma mãe fecunda, unida, jubilosa.

Mas qual é o sinal de que estas duas relações, entre sacerdote e Bispo e entre sacerdote e os outros sacerdotes, correm bem? É a alegria. Assim como a amargura é o sinal de que não há uma verdadeira espiritualidade diocesana, porque falta uma boa relação com o Bispo ou com o presbitério, a alegria é sinal de que as coisas correm bem. Podemos discutir, podemos zangar-nos, mas há a alegria que está acima de tudo, e é importante que ela permaneça sempre nestas duas relações que são essenciais para a espiritualidade do sacerdote diocesano.


Gostaria de voltar sobre outro sinal, o sinal da amargura. Um dia um sacerdote disse-me, em Roma: «Mas, eu vejo que muitas vezes nós somos uma Igreja de zangados, sempre zangados um contra o outro; temos sempre motivos para nos zangarmos». Isto leva à tristeza e à amargura: não há a alegria. Quando encontramos numa Diocese um sacerdote que vive assim, zangado e com esta tensão, pensamos: mas este homem de manhã toma vinagre ao pequeno-almoço. Depois, ao almoço, as verduras temperadas com vinagre e ao jantar um sumo de limão. A sua vida não pode continuar assim, porque é a imagem de uma Igreja de zangados. Ao contrário a alegria é o sinal de que tudo corre bem. Uma pessoa pode zangar-se: é até sadio zangar-se uma vez. Mas não pertence ao senhor o estar zangado e leva à tristeza e à desunião. E no final, o senhor disse «a fidelidade a Deus e ao homem». É o mesmo que dissemos há pouco. É a dupla fidelidade e a dupla transcendência: ser fiéis a Deus significa procurá-lo, abrir-se a Ele na oração, recordando que Ele é fiel, Ele não pode renegar-se a si mesmo, é sempre fiel. E depois abrir-se ao homem; é aquela empatia, aquele respeito, aquele senti-lo, e dizer a palavra justa com paciência.

Diálogo do Papa Francisco com os sacerdotes de Caseta, Itália, na capela Palatina do Palácio Real de Caserta, a 26 de julho de 2014

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