Que ninguém se assuste: os cardeais Kasper e Müller não estão a questionar a sacramentalidade do matrimónio.
Estamos a poucos dias do sínodo extraordinário dos bispos,
no qual abordarão os problemas da família no mundo atual. Ainda que seja
difícil de acreditar, o planeta é maior que o Ocidente, onde, aliás, os meios
de comunicação social geraram expectativas infundadas.
O objetivo do sínodo, como bem explicou o cardeal Parolin,
não é mudar a doutrina da Igreja (pois esta depende do Evangelho), mas abordar
os problemas da família e do casamento, para definir uma estratégia pastoral
que vá do local ao global.
O desafio é fantástico. Pessoalmente, alegra-me saber que,
no mundo dos relativismos e frivolidades, existe uma instituição que leva a
sério uma realidade que nos acompanhará durante a vida inteira: a família.
As falsas expectativas obedecem à falta de conhecimento sobre
a maneira como se desenvolve um debate no âmbito católico, de maneira especial
quando entram em jogo grandes temas, como o da família.
Nada mais falso do que a ideia da suposta soberana
intransigência dentro da Igreja, ainda que a tentação sempre exista, razão pela
qual é necessário combatê-la sem piedade. Também existem os que confundem a
autoridade com a imobilidade. Para entender como se desenvolve um debate dentro
das coordenadas católicas, é preciso atender, em princípio, a 5 elementos.
1. Unidade no essencial, liberdade no duvidoso e caridade em
tudo
O essencial é pouco e sólido, pois depende da doutrina
emanada do Evangelho e da tradição. Assim, porque o solo é firme, os debates
costumam ser intensos. No entanto, quando se respeita o essencial, impera a
caridade, que não deve ser confundida com sorrisinhos e cumprimentos educados.
Em um debate sério, como o que agora presenciamos antes do
sínodo, a caridade se afirma com abertura e diálogo, ou seja, buscando a
verdade, ainda que faltem os sorrisos. Por outro lado, quando o essencial não é
respeitado, a liberdade se torna retórica e a caridade se ausenta. Então, a
catolicidade se perde. Até agora, não vimos ninguém nesta situação e tenho
certeza de que não o encontraremos.
O debate entre os cardeais Kasper e Müller é intenso, mas
segue a lógica de Santo Agostinho, exposta no título deste tópico. Ninguém
questiona a sacramentalidade do matrimônio, que é o essencial, razão pela qual
argumental com grande liberdade sobre a atenção pastoral aos divorciados
novamente casados. Outros cardeais se uniram à discussão, o que é lógico e,
além disso, muito saudável. Que ninguém se assuste: no final, a caridade
vencerá a partida.
2. O debate mantém uma ordem específica de acordo com a fé e
a razão
Observa-se um problema, apresenta-se uma hipótese, buscam-se
os argumentos a favor e contra, aproveitando diversos saberes teológicos,
científicos, sociológicos, históricos etc., para tomar decisões firmes e
informadas.
O normal, nestes casos, é a participação de diversos agentes
eclesiásticos em diferentes momentos – sejam eles leigos, religiosos,
presbíteros, bispos, teólogos –, por meio de consultas, como assessores etc. Há
uma profunda convicção de que a realidade é o mapa da nossa existência; a razão,
o meio que nos ajuda a compreender; e a fé, bússola que orienta o caminho.
Ao que parece, no caso acima comentado, com a autorização do
Papa, Kasper e Müller têm opiniões fortes e estão convencidos do que dizem. O
próprio Papa se encarregou de apresentar a hipótese a debate sobre a
conveniência de, em certos casos, depois de períodos penitenciais, aceitar a
comunhão sacramental dos divorciados novamente casados.
O que vemos é que o método vai se cumprindo e há material
abundante para ser discutido neste campo, como em muitos outros. As decisões
pastorais, podemos ter certeza, não serão tomadas com superficialidade.
3. Promove-se o diálogo entre justiça e misericórdia
Unicamente com justiça, caímos no rigorismo; somente com
misericórdia, esta se confunde com a lassidão, oposto da misericórdia. Quando o
debate se realiza dentro das coordenadas fé-razão e justiça-misericórdia,
entramos no campo da caridade, o que, por outro lado, confirma o velho
princípio da cultura católica: et-et, somar na caridade.
O leitor poderá esboçar um plano cartesiano em cujo centro
se encontre precisamente a caridade. Será de grande ajuda para entender onde se
encontram as diversas posições, com seus matizes, e também como nenhuma delas
abandona o Evangelho e a tradição.
4. As diversas escolas teológicas ocupam um lugar muito
importante no debate
Hoje, é necessário levar isso em consideração; desde o
cardeal Newman, busca-se centrar a reflexão na dignidade da pessoa frente aos
excessos coletivistas, individualistas e utilitários da nossa época. Este
personalismo filosófico e teológico esteve muito presente no magistério dos
últimos papas, inclusive Francisco.
O princípio é simples. Cristo nos mostra a plenitude da
nossa humanidade porque nos abre o caminho rumo a Deus. O diálogo entre fé e
razão, entre nossa frágil humanidade e Jesus, entre a justiça e a misericórdia,
orienta-se à dignificação de cada pessoa e de todas as pessoas, com o fim de
tornar-se realidade na particularidade de cada cultura.
Francamente, no momento atual do debate, e tendo revisado as
diversas posições, observo nos participantes, sem exceção, a mesma intenção e
vocação pela pessoa.
5. O debate se submete o tempo todo a uma prova de
autenticidade
A fé na razão deve coincidir com as razões da fé. Só então
estaremos diante de uma genuína discussão dentro das coordenadas católicas.
O processo, em seu conjunto, conduz a tomar decisões firmes
no campo pastoral, ainda que sejam impopulares ou politicamente incorretas. Sua
implantação e desenvolvimento poderão levar gerações, mas acontecerão. No
momento culminante da tomada de decisões – não podemos nos esquecer –, o Papa
estará sozinho diante de Deus.
A denúncia profética de Paulo VI contra a mentalidade
antinatalista da nossa época, e da injustiça sistêmica contra os pobres do
mundo, bem como sua defesa não menos profética do Concílio, do ecumenismo e da
liberdade religiosa, são bons exemplos do que expusemos aqui.
Sua valentia, tão atacada dentro e fora da Igreja por
motivos às vezes diversos, permitiu aos católicos avançar em meio a
dificuldades. Hoje, a promoção da vida e do diálogo ecumênico e
inter-religioso, a defesa da liberdade religiosa, a afirmação da doutrina
social da Igreja e do próprio Concílio são realidades cotidianas para muitos católicos.
Mas alguns se esquecem das grandes polêmicas que houve
naquela época. Diversas pessoas inclusive abandonaram o catolicismo criticando
seu extremismo e afirmando ser, eles, os autênticos católicos.
A sinodal idade na condução da Igreja, tão amada por Paulo
VI, assim como por Francisco, confirma a responsabilidade pessoal de cada bispo
e do próprio Papa na tomada de decisões. Pouca surpresa, como explicou muito
bem Ratzinger: a Igreja caminha pelo delicado equilíbrio entre a colegialidade
e a responsabilidade pessoal – leigos incluídos, claro. Mais uma vez, o velho
princípio: et-et, somar na caridade.
Só pode existir liberdade porque há ordem e clareza nos
debates eclesiásticos. Pensar que a Igreja poderia alcançar um estado de
quietude argumentativa é um engano. Isso nunca aconteceu, nem sequer na época
dos Apóstolos, o que constitui uma das grandes riquezas do catolicismo.
De fato, este é um dos seus mais importantes motores ao
longo da história e a razão pela qual é tão apaixonante estudá-la. Tenho
certeza de que o Sínodo sobre a família, em seus dois capítulos, não será a
exceção. Suas decisões marcarão o rumo da Igreja na presente e nas futuras
gerações.
Só uma recomendação: apertem os cintos, porque isso tudo
será muito emocionante!
por JORGE TRASLOSHEROS | www.aleteia.org
Comentários
Enviar um comentário