Sínodos diocesanos e algumas “periferias existenciais”






Na base e finalidade de qualquer pastoral, estão as pessoas – agentes e destinatários: homem e mulher com sua sexualidade, feitos “à imagem e semelhança de Deus”. Este Criador e Redentor, no Seu projeto, assim quis o género humano para este ser feliz na racionalidade, bondade, beleza, amor, em ordem à formação, desenvolvimento e glorificação do Seu Povo no Seu Reino.

O pecado, porém, também de cristãos e estruturas eclesiais, em que se foi amontoando o pó, transformado em lama de séculos, foi desviando por ínvios caminhos os desígnios divinos e desfigurando o rosto belo da Boa Nova do Senhor Jesus. Aliás, já o próprio Jesus advertia quando falava do farisaísmo: “Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os deslocar” (MTV 23,4). Felizmente, a renovação da Igreja, tantas vezes falada, timidamente procurada, sempre in fieri (a acontecer), está, agora, imparavelmente, na ordem do dia. Respiram-se ares novos após a entrada do Papa Francisco para o leme da Igreja Católica e sua atenção às “periferias existenciais”.

É a hora de lembrar e pôr em prática a Constituição Dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium. Depois de, no cap. II, a Constituição tratar do Povo de Deus, o cap. III é especialmente dedicado ao Colégio Episcopal, terminando o n.º 23 assim: As Conferências episcopais podem hoje desenvolver uma ação variada e fecunda para que o espírito colegial encontre aplicações concretas. Diz no n.º 25: A infalibilidade prometida à Igreja reside também no corpo episcopal, quando ele exerce o magistério supremo com o Sucessor de Pedro.

Urge, pois, que, nas Igrejas particulares, as bases do Povo de Deus, que o Papa tanto gosta de auscultar, tenham a palavra sobretudo nos providenciais Sínodos Diocesanos, uns a decorrerem ou anunciados e outros que se seguirão. Com a escuta do Espírito Santo e o discernimento evangélico, estimulem, com as suas propostas, a Conferência Episcopal Portuguesa. Com pessoas realizadas segundo a infinita bondade e misericórdia do Deus Amor colocadas nas estruturas pastorais, as periferias também serão atingidas. Mencionam-se algumas situações necessitadas de especial atenção e que as ditas bases bem conhecem.

O celibato no sacerdote será um carisma, uma joia quando e enquanto for opcional, assumido em liberdade. O mesmo se pode dizer da virgindade. De outra maneira, será fonte de conflitos interiores, de descalabros morais, de uniões ilícitas, de descrédito para a Igreja. O exemplo do Mestre, Que chamou para Apóstolos apenas homens casados, à exceção de João, é bem significativo. Querer ser mais cristão do que Jesus Cristo será forte ousadia, pior do que querer ser mais papista do que o Papa!

É notória a generalizada concordância e aceitação entre os leigos quando o sacerdote se desliga do exercício das Ordens para assumir o Matrimónio, especialmente quando há filhos. Ou não seja o amor no casal a imagem do amor na Santíssima Trindade!
Pelas ronceiras e tardias decisões da hierarquia eclesiástica nem sempre os fiéis, leigos ou sacerdotes, estão dispostos a esperar, o que, muitas vezes, faz com que os mesmos reajam com o afastamento da Igreja.
É evidente que o celibato obrigatório deve ser abolido e repensado o aproveitamento para o exercício dos Padres dispensados que ainda estiverem capazes e disponíveis.

Com efeito, Matrimónio e Sacerdócio Ministerial (masculino, e porque não feminino?) são duas vocações possíveis de coexistir nas mesmas pessoas e verificáveis em todas as Igrejas Cristãs, menos na Católica de rito latino, mera disciplina por nefasta influência do Império Romano.

No Matrimónio, Igreja doméstica (LG,11), a preocupação da regulação da natalidade de acordo com as complicadas instruções da Humanae Vitae fez sofrer muitos casais, houve muitas desavenças, tem dado origem a afastamentos da Igreja.

É tempo de corrigir tais normas, cuja correção, porém, não deve ser feita e legislada apenas por gente célibe.
Divorciados recasados, padres casados e dispensados do exercício das Ordens, padres viúvos, mulheres, sua ordenação ministerial - Diz-se que o tempo traz consequências imprevistas no amor e, por isso, tende-se para a aceitação e acolhimento dos divorciados recasados na Eucaristia (plenitude da Igreja). Os padres dispensados, porque tal pediram ao Papa a fim de se sentirem realizados, a maioria através do casamento e permanência como membros da amada Igreja, com muita dificuldade obtiveram essa graça. O Código de Direito Canónico de 1917 trata-os de reduzidos ao estado laical; no renovado Código de 1983, porque foi reconhecido que aquela redução, no contexto, inferiorizava e ofendia os leigos, tal designação foi substituída por perda do estado clerical. É evidente que estas expressões, como se vê pelo contexto no rescrito e na doutrina da Igreja, não significam anulação do sacramento da Ordem em quem o tinha recebido: continuam padres validamente. Também comprova esta validade o facto de alguns destes padres, quando enviuvaram, terem voltado ao exercício do ministério sacerdotal.

Este facto de padres viúvos voltarem ao exercício das Ordens e da referida ofensa aos leigos por serem considerados inferiores fazem-nos pensar na incoerência da Hierarquia da nossa Igreja, que, desta maneira, se pode dizer que ofendem as mulheres, porque, se só os viúvos, não os outros padres casados, podem voltar ao dito ministério, algo/alguém motiva esta discriminação: as mulheres, as leigas, que se enquadram nos leigos do povo de Deus. Assim, vem mais uma vez à evidência a velha e repetidíssima acusação da misoginia da Hierarquia na nossa Igreja. Não só por isto, mas por tantas outras razões aduzidas pela quase totalidade dos teólogos, nomeadamente no que se refere ao Ecumenismo, e pela práxis de outras Igrejas Cristãs, a mulher, que, no contexto sócio-jurídico de então, tão revolucionariamente foi acolhida pelo Senhor Jesus, sim, as mulheres poderão vir a receber o sacramento da Ordem.

Estão referidas situações em que nitidamente gente marginalizada sofre e cuja causa faz sofrer o Papa Francisco e outros pastores, mas há mais marginalizados. Há que referenciá-los, acolhê-los, ajudá-los e fazer deles mensageiros felizes da Boa Nova.


Pobres – Como, aos olhos de Jesus, os últimos são os primeiros, a quem o Papa Francisco também reserva, em título, O lugar privilegiado dos pobres no povo de Deus na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (197-201), sejam, pois, os pobres tidos na devida conta nas decisões dos Sínodos. Doutra maneira, qualquer comunidade da Igreja […] correrá também o risco da sua dissolução (ibidem, 207). Será de pensar nas Eucaristias da primitiva Igreja e ter os necessitados como primeiros destinatários das coletas, destinando-lhes significativa percentagem. Este sair da Igreja de certeza fará entrar mais pobres para a Igreja e suas igrejas e evitar a sua permanência com os seus clamores junto das portas.

por LUÍS CUNHA, sócio n.º 19 da Associação Fraternitas Movimento

Comentários