«No final da vida serei examinado pelo Amor»



A pergunta que o doutor da lei faz a Jesus no evangelho sobre qual é o maior mandamento da lei é muito oportuna, pois os judeus tinham centenas de preceitos: exatamente 365 “negativos” (começam com um “não...”) e 248 “positivos” (começam com um “deves...”).
Toda sociedade tende a multiplicar com o tempo as suas leis e normas, e às vezes sem necessidade. E Jesus nos dá a chave para ser cristãos: dois mandamentos que se reduzem no amor; amar a Deus e amar o próximo.

Comentário à liturgia do XXX domingo do Tempo Comum, pelo P.e Antonio Rivero, do Brasil
Textos: Ex 22, 20-26; 1 Tess 1, 5-10; Mateus 22, 34-40

Pontos da ideia principal:
Em primeiro lugar, o amor de Deus não consiste em sentir a vertigem do divino: um gosto espiritual na comunhão, duas emoções que estremecem, três Ave-Marias noturnas, quatro lágrimas, cinco procissões... e nove primeiras sextas-feiras de mês. 
Não. 
Amar a Deus é centrar a minha vida em Deus: o que pensa Deus, o que diz Deus, o que Deus quer... E eu, a mesma coisa. O que Deus está me pedindo, não o que está pedindo para o vizinho! Agora, sem dar voltas ao assunto! Já, sem fingir de surdo! E aqui está, obras, que isso é o amor. Amar a Deus é abandonar os ídolos e nos converter ao Deus vivo e verdadeiro, para servi-lo (segunda leitura).

Em segundo lugar, amar os demais é centrar a minha vida nos demais: uma aceitação (são como são), um respeito (são o que são), uma transigência (são como podem), uma tolerância (não dão mais de si), um compromisso foragido pelo seu pão, pela sua justiça, sua escola, seus seguros, a sua liberdade. 
Obras, e o que não são obras é pecado, egoísmo, fábula. 
Trata-se, pois, de dar e dar-se, de negar-se e abnegar-se, de sair do eu e passar ao você. Chegar ao ponto de poder dizer com honradez: “amo muito você”. Não é dizer “gosto de você”, cuja tradução honrada é “te desejo”, “te necessito”, “ você é boa gente”, “você faz conta de mim”, etc... que pertencem a linguagem zoológica e instintiva. Amar os demais é cuidar das viúvas e dos órfãos, dar dinheiro ao pobre, cobrir o nu (primeira leitura).

Finalmente, tudo o que não seja interpretar assim o mandamento do duplo amor é um erro, um egoísmo e um pecado. Isto é, assinar com a assinatura de pagão durante toda a vida. Se amarmos nestas duas vertentes, poderemos dizer com santo Agostinho: “Ama e faze o que quiseres. Se calas, cala por amor; se perdoas, perdoa por amor; tem a raiz do amor no fundo do teu coração: desta maneira somente pode sair o que é bom” (Comentário a Primeira Epístola de São João, 7). E para aprender a amar temos que olhar a Cristo, expressão viva deste preceito do amor. Com a sua própria vida nos ensinou o mandamento único da caridade que tem, como uma moeda, as duas caras que explicamos: o amor a Deus e o amor ao próximo. Cristo amou antes de tudo o seu Pai, na aceitação e cumprimento perfeito da sua vontade, entregando a sua vida para reparar a glória de Deus pisoteada pelos homens e assim saldar a nossa dívida contraída, que era bem alta. E amou os homens, fazendo-se carne para nos salvar e perdoando deste modo os nossos pecados: “Não existe outra causa da Encarnação que somente uma: Ele nos viu derrubados na terra e viu que íamos sofrer, oprimidos pela tirania da morte, e se compadeceu de nós” (São João Crisóstomo).

Para refletir
Posso dizer que amo a Deus sobre todas as coisas? Como demonstro: só com palavras ou também com obras, “pois obras são amores e não boas razões”? Posso dizer que amo o próximo, mínimo como eu me amo? Posso dizer que amo o próximo como Cristo o ama? Demonstro isto com a minha paciência, bondade, misericórdia, doação, preocupação sincera por ele, uma ajuda concreta? 


Para rezar
Senhor, que me deixe amar por Vós, para que depois possa amar-Vos como mereceis e amar o próximo, como Vós o amais. Perdoai-me tanto egoísmo na minha vida, o contrário do amor. Que nunca esqueça que “ao final da vida serei examinado pelo Amor”.

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