Artigo baseado na palestra do cardeal Walter Kasper,
presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos
Cristãos, realizada no Boston College, Estados Unidos, no dia 10 de maio de
2014.
O preceito da misericórdia se aplica não só aos cristãos em
particular, mas à Igreja como um todo. Muitos perguntam: se Deus é sempre
misericordioso, por que a Igreja não faz o mesmo? Ou, por que a Igreja não
parece ser tão misericordiosa como Deus? A questão expressa o mal-estar de muitos
cristãos.
Eles estão certos: a Igreja definiu-se no Concílio Vaticano
II como um sacramento - sinal universal e instrumento de salvação de Deus
através de Jesus Cristo. Se a Igreja é sacramento do amor de Deus em Cristo,
ela também é sacramento da misericórdia de Deus. Portanto, o mandato para a
Igreja de ser misericordiosa está baseado na identidade da Igreja como corpo de
Cristo. A Igreja não é um tipo de agência social ou de caridade; como corpo de
Cristo, ela é o sacramento da presença efetiva e contínua de Cristo no mundo. É
o sacramento da misericórdia como o "Cristo total", isto é, Cristo
como cabeça e membros. Assim, a Igreja encontra o próprio Cristo em seus
membros e nas pessoas que estão precisando de ajuda.
Mas existe ainda um segundo aspeto. A Igreja não é apenas
agente da misericórdia de Deus; é também objeto da misericórdia de Deus. Como
corpo de Cristo, ela é redimida por Jesus Cristo. Mas a Igreja inclui pecadores
em seu seio e, portanto, de tempos em tempos, deve ser purificada, a fim de ser
capaz de apresentar-se santa e imaculada (Ef 5,27). Consequentemente, a Igreja
deve perguntar-se de forma crítica e repetida se ela realmente faz jus àquilo
que é e àquilo que deveria ser. Além disso, assim como Jesus Cristo fez, também
nós devemos lidar com os defeitos e falhas da Igreja, não de uma maneira
hipócrita, mas misericordiosa. Devemos, no entanto, estar claros de uma coisa:
uma Igreja sem caridade e misericórdia não seria mais a Igreja de Jesus Cristo.
A mensagem de misericórdia, portanto, tem profundas
consequências para o ensinamento, a vida e a missão da Igreja. A pior censura
que pode ser levantada contra a Igreja - que, de fato, muitas vezes se aplica a
ela - é que ela não pratica o que proclama a outros. De fato, muitas pessoas tem
uma experiência da Igreja como rígida e carente de misericórdia. É por isso que
o Papa João XXIII disse, na abertura do Concílio Vaticano II, que a Igreja
deve, acima de tudo, usar o remédio da misericórdia.
Isso pode acontecer de uma forma tripla: a Igreja deve
proclamar a misericórdia de Deus; deve concretamente proporcionar às pessoas a
misericórdia de Deus na forma do sacramento da reconciliação; e deve permitir
que a misericórdia de Deus seja demonstrada e efetuada em toda a sua vida, em
suas estruturas concretas e até mesmo em suas leis.
A misericórdia e os pobres
Não vou tratar aqui de cada uma dessas três dimensões. Há
muitas coisas que devem ser ditas sobre o sacramento da misericórdia, que temos
muitas vezes subvalorizado nas últimas décadas. Mas vou me limitar a um aspeto
que é muito importante para o Papa Francisco. A Igreja como testemunho da
misericórdia é fundamental para o seu programa de Igreja pobre para os pobres.
Esse programa não é tão novo quanto parece. É o próprio
programa de Jesus Cristo. Ele veio para pregar as boas novas aos pobres (Lc
4,18). Ele não só pregou; ele, embora fosse rico, se tornou pobre para nos
enriquecer (2 Cor 8, 9). O Concílio Vaticano II assumiu essa mensagem em um
capítulo da "Constituição dogmática sobre a Igreja", mensagem que foi
muitas vezes negligenciada depois do Concílio, mas que se tornou importante
para a teologia do hemisfério sul. O Papa Francisco colocou-a agora em cima da
mesa para a Igreja do mundo todo. Nós, muitas vezes, nos esquecemos de que dois
terços dos nossos irmãos e irmãs cristãos e católicos vivem no hemisfério sul,
e nos esquecemos de suas necessidades, seus problemas e suas reivindicações.
Materialmente, eles são pobres, mas espiritualmente eles são Igrejas vitais e
vibrantes que devemos ouvir. Eles representam o futuro da Igreja.
Ser uma Igreja pobre para os pobres, para o Papa Francisco,
primariamente, não é um programa social, mas uma questão cristológica. Nossos
irmãos e irmãs pobres fazem parte do corpo de Cristo. Como o papa enfatiza,
quando tocamos nas feridas dos pobres e doentes, tocamos nas chagas de Cristo
pobre. O próprio Cristo nos disse: todas as vezes que vocês fizeram isso a um
dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram (Mt 25). Essa foi a
experiência de São Francisco de Assis, que no início de seu caminho de
conversão abraçou e beijou um leproso e teve a sensação de que estava abraçando
e beijando o próprio Cristo. A mesma experiência foi relatada por Madre Teresa
quando ela colocou os braços ao redor de um homem maltrapilho e moribundo em
sua missão em Calcutá.
A partir desses santos podemos aprender sobre a
sensibilidade e a ternura de Deus, uma sensibilidade e ternura que devemos
imitar com os nossos irmãos. Assim, o Papa Francisco está enraizado no melhor da
história cristã. Seu dom para a Igreja é fazer com que uma velha tradição
torne-se uma mensagem urgente para nós hoje. A misericórdia é o tema central de
seu pontificado e um grande desafio, especialmente para as nossas ricas Igrejas
no hemisfério norte.
A misericórdia e o direito canônico
A pergunta que muitos fazem é: o que isso significa para a
própria Igreja e para o seu comportamento, não só para aqueles que são pobres
no sentido material, mas para as pessoas dentro da Igreja que se sentem
negligenciadas, postas de lado, marginalizadas e excomungadas - se não em um
rigoroso sentido canônico, mas sim em um sentido prático - porque elas não
estão autorizadas a participar da mesa do Senhor? Muitas vezes, alguém
pergunta: e as pessoas que estão divorciadas e que voltaram a casar?
Primeiro quero ressaltar: a palavra misericórdia é muitas
vezes incompreendida e mal utilizada. Isso acontece quando alguém confunde
misericórdia com indulgência débil e com uma pseudo-misericórdia fraca e
indiferente. O perigo existe, então de fazer da graça preciosa de Deus, que foi
"comprada" e "adquirida" com seu próprio sangue na cruz,
uma coisa barata e de transformar a graça em uma mercadoria de barganha. Isso é
o que Dietrich Bonhoeffer quis dizer quando afirmou, sem meias palavras: "A
graça barata significa a justificação do pecado e não do pecador .... A graça
barata é a pregação do perdão sem exigir arrependimento, batismo sem disciplina
eclesiástica, comunhão sem confissão, absolvição sem confissão pessoal".
Portanto, temos de perguntar novamente sobre o significado
da disciplina eclesiástica. A palavra principal do Novo Testamento para
designar a Igreja, ecclesia, continha elementos legais desde o início. A ideia
de uma Igreja original do amor que, supostamente, ter-se-ia tornado, a seguir,
uma Igreja da lei não tem fundamentação. Segundo o Evangelho de Mateus, Jesus
deu a Pedro o poder das chaves e deu a ele, bem como a todos os apóstolos, a
autoridade de ligar e desligar, o que significa a autoridade para expulsar as
pessoas da comunidade e de readmiti-las. Desde então, Mateus estabeleceu uma
regra clara para o exercício dessa autoridade (Mt 16,19; 18,18).
Assim, a quebra da disciplina eclesiástica não pode, de
maneira alguma, apelar para Jesus e o Novo Testamento. Mas porque a disciplina
eclesiástica está de acordo com o significado do Evangelho, ela também deve ser
interpretada e aplicada de acordo com o sentido e o espírito do Evangelho. Por
esta razão, Paulo deixa claro que a punição da expulsão é destinada a forçar o
pecador a refletir sobre sua conduta e para se arrepender. Se o pecador lamenta
suas ações e se arrepende, a comunidade deve deixar a gentileza novamente
prevalecer (2 Cor 2, 5-11). A punição é o último recurso e, como tal,
temporalmente limitada. É o meio drástico e final utilizado pela misericórdia.
Tal compreensão da disciplina eclesiástica como o remédio
amargo, mas necessário, da misericórdia está em conformidade com uma tradição
que entendia Jesus Cristo, à luz de suas curas milagrosas, como médico, curador
e salvador; uma tradição em que o padre, em particular, o confessor, é
entendido não apenas como um juiz, mas principalmente como um médico da alma.
Esse entendimento terapêutico da lei e da disciplina da Igreja nos leva à
questão fundamental de como interpretar e explicar a lei canônica. Esse é um
campo amplo que não podemos tratar aqui de uma forma abrangente, mas apenas do
ponto de vista da relação da lei eclesiástica com a misericórdia.
Lei e Espírito
Assim, o direito canônico não é contra o Evangelho, mas o
Evangelho é contra uma compreensão legalista do direito canônico. O direito
canônico deve ser interpretado e aplicado à luz da misericórdia, porque a
misericórdia abre nossos olhos para a situação concreta do outro. A
misericórdia mostra que o indivíduo não é apenas um caso que pode estar
subordinado a uma regra geral. Pelo contrário, é essencial para a antropologia
cristã que diante de Deus não somos um "plural"; cada pessoa e cada
situação é singular. Portanto, temos de encontrar soluções que sejam, ao mesmo
tempo, justas e equitativas. Se não fizermos isso, então - como os romanos
diziam - a "summa ius" (a justiça maior) pode tornar-se "summa
iniuria" (a maior injustiça).
O que tais reflexões significam para a questão dos católicos
divorciados e recasados está agora em discussão às vésperas do próximo sínodo
dos bispos. Eu não tenho uma resposta definitiva sobre essa questão. É da
responsabilidade do sínodo, juntamente com o papa, para tomar essas decisões.
No meu último consistório com o papa, no entanto, eu propus, com o seu acordo,
algumas reflexões modestas sobre essa urgente questão.
Nenhum teólogo, nem mesmo o papa, pode mudar a doutrina da
indissolubilidade do matrimônio sacramental. Pelo contrário, todos nós temos
motivos para ajudar e apoiar as pessoas a serem fiéis no casamento para o seu
próprio bem e para o bem de seus filhos. Assim, a doutrina não pode ser
alterada e não será alterada. Mas a doutrina deve ser aplicada com prudência,
de forma justa e equitativa às situações concretas e, muitas vezes, complexas.
Porque cada situação é diferente.
Não há um caso típico de divórcio e novo casamento; por
conseguinte, não pode haver uma solução padrão para cada situação. O
discernimento é necessário, e discernimento, prudência e sabedoria são as
principais virtudes de um bispo como pastor. O melhor nem sempre pode ser
feito, mas devemos sempre fazer o melhor possível.
Então a questão é: se uma pessoa após o divórcio entra em um
segundo casamento civil, mas, em seguida, se arrepende de sua falha em cumprir
o que prometeu diante de Deus, de seu parceiro e da Igreja no primeiro
casamento, e faz o melhor possível para atender as suas novas obrigações, faz o
que pode para a educação cristã de seus filhos e tem um desejo sério de receber
os sacramentos, os quais ela precisa para se fortalecer em sua situação
difícil, podemos, depois de um tempo de nova orientação e estabilização, negar
a absolvição e o perdão? No Credo professamos: "Creio no perdão dos
pecados". Quando Deus dá uma nova chance, um novo futuro para todos os que
se arrependem e fazem o possível em suas situações, por que não a Igreja, que é
o sacramento da misericórdia de Deus?
O que está em jogo é uma hermenêutica da aplicação adequada
ou, como São Tomás de Aquino ensinou seguindo Aristóteles, uma aplicação do
intelecto prático (distinto do intelecto teórico ou especulativo) para uma
situação concreta - em outras palavras, a virtude da prudência: a sabedoria
prática de aplicar um princípio universal em uma situação individual e
particular. Essa foi a abordagem pretendida por alguns padres, na Igreja cristã
primitiva, especialmente Basílio de Cesaréia, realizada utilizando o princípio
ortodoxo da oikonomia e, na tradição latina, da epiquéia. No início dos tempos
modernos, Santo Afonso de Ligório propôs essa abordagem no seu sistema de
probabilismo. (Assim, ele tornou-se o patrono dos teólogos morais.) Então, se o
sínodo for nessa direção, encontrar-se-ia na melhor tradição da Igreja. Com
certeza, essas reflexões não abrem uma abordagem geral para todas as situações;
talvez, podem ser apenas para uma pequena minoria; mas podem se tornar um
caminho para aqueles que estão sinceramente interessados e dispostos a seguir
o caminho da conversão.
Essa seria uma forma que vai além dos extremos do rigorismo,
que não pode ser o caminho para o cristão comum, e do laxismo, o que não
corresponderia ao pedido de Jesus de santidade. Encontrar um caminho para além
dos extremos tem sido sempre o caminho da Igreja, um caminho de discernimento,
de prudência e sabedoria - o caminho da misericórdia concreta.
A misericórdia que vem de baixo
A perspetiva habitual na teologia começa de cima. Conhecemos
uma doutrina ou uma regra, e começamos a partir daí, a fim de aplicá-la à
realidade concreta, que normalmente é complexa e multifacetada. A misericórdia
nos leva a uma perspetiva diferente, a começar não de cima, mas de baixo, a
proceder pela análise de uma situação concreta a qual estamos aplicando a lei
ou regra. Isso não é ética situacional, porque a regra tem valor em si mesma e
não é constituída pela situação. Esse é o método ensinado por Santo Inácio de
Loyola em seus exercícios espirituais; essa é a forma que o Papa Francisco,
como um bom jesuíta, pratica. Ele começa a partir da situação e, em seguida,
realiza um discernimento dos espíritos.
A mesma abordagem é mostrada a nós por Jesus. Quando lhe foi
perguntado: "Quem é o meu próximo?" Ele não deu uma resposta
abstrata. Ele contou uma história concreta, a história do bom e misericordioso
samaritano (Lc 10, 30-37): "Um homem ia descendo de Jerusalém para Jericó,
e caiu nas mãos de assaltantes". Um sacerdote estava indo por esse caminho
e vendo-o, passou pelo outro lado. Do mesmo modo, um levita viu o homem e
passou pelo outro lado. Mas quando um samaritano se aproximou e viu o homem,
teve compaixão. Ele se abaixou na terra e na poeira, tratou os ferimentos e
envolveu-os com curativos. Jesus, então, perguntou ao mestre judeu: "Qual
dos três foi o próximo do homem, que caiu nas mãos dos assaltantes?". A
resposta estava correta: "Aquele que teve misericórdia dele". E Jesus
diz: "Vá, e faça a mesma coisa".
Isso é exatamente como o próprio Deus faz connosco. Deus se
abaixa, a fim de elevar-nos; para nos confortar e para curar nossas feridas; e
para nos dar uma nova chance, para doar-nos nova vida e uma nova esperança. E
quem seria tão hipócrita a ponto de pensar que não precisaria de tal
misericórdia? Misericórdia é o nome do nosso Deus. Misericórdia é o chamado
para ser um ser humano, que sente com outros seres humanos que sofrem e estão
em necessidade. Misericórdia é o chamado para ser um cristão verdadeiro, aquele
que segue o exemplo de Cristo e encontra Cristo em seus irmãos e irmãs que
sofrem. A misericórdia é a essência do Evangelho e a chave para a vida cristã.
A misericórdia é a melhor e mais bela notícia que pode-nos ser dita e que
devemos levar para o mundo. Como Deus que através de sua misericórdia sempre
nos dá uma nova chance, um novo futuro, a nossa misericórdia oferece um futuro
para o outro, e para um mundo que precisa tanto.

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