Extrato da intervenção escrita do teólogo alemão Jürgen Moltmann para as jornadas de diálogo
“Dez palavras.Porquê a nossa época tem necessidade de Deus” (22-24 de outubro)
promovidas pela Universidade Católica do Sagrado Coração e pela revista “Vita e
Pensiero” [Vida e Pensamento].
Existem estruturas da misericórdia? Até agora temos considerado
a misericórdia, segundo o seu conteúdo literal, somente na piedade pessoal e
espontânea com os necessitados. Mas, a misericórdia funciona somente no âmbito
pessoal? O bispo brasileiro dom Hélder Câmara disse certa vez: “Quando eu
experimentava piedade pelos pobres, me louvavam e me chamavam santo. Quando
solicitava publicamente por que os pobres são tais, me insultavam e me chamavam
comunista”.
Se há leis inumanas e estruturas sociais, também há leis
humanamente justas e estruturas socialmente equânimes. Portanto, há também
estruturas misericordiosas ou não. As primeiras comunidades cristãs não
enfrentavam a pobreza só individualmente como o “samaritano misericordioso”;
praticavam a conhecida comunhão dos bens proto-cristã que ainda hoje vige nas
ordens cristãs dos monges e das irmãs: “Não havia de fato entre eles nenhum
necessitado” (Atos 4, 34). A comunidade originária de Jerusalém havia até
ordenado “sete assistentes aos pobres” (atos 6, 3) que cuidavam das viúvas e
órfãos privados de direitos e indefesos. Quanto parece, algumas comunidades
cuidavam não só dos próprios pobres, mas – como constatavam admirados os
contemporâneos – também de viúvas e órfãos de toda a cidade. Em ambos os
institutos reconheciam as raízes cristãs da solidariedade. A solidariedade que
se pode reconhecer como fidelidade comunitária: não deixamos que ninguém caia,
mas nos preocupamos de todos aqueles que pertencem a nós. Mas, vemos também uma
solidariedade aberta para todos os míseros da cidade ou da sociedade.
Diante das igrejas medievais sentavam sempre muitos
mendicantes, de modo que os fiéis piedosos pudessem exercer para com eles as
boas obras de misericórdia e recolher para si um tesouro nos céus. Certamente,
nas sociedades medievais havia também fraternidades para cumprir as sete obras
da misericórdia. Embora os homens hoje não creiam mais nos céus, se sentem
“bem” quando são “benévolos” e fazem ofertas à Caritas.
Desde a Reforma não há mais mendicantes diante das igrejas
evangélicas. Os cristãos protestantes não são então mais misericordiosos porque
creem na justificação somente pela fé e não mediante boas obras? Não. A Reforma
tem sido nas cidades uma reforma não só da Igreja, mas também da sociedade. A
partir da Reforma os diáconos assumiram a função da assistência aos pobres e
aos enfermos, preparando deste modo para a sociedade a via em direção ao Estado
social. A legislação social de Bismark era orientada segundo o modelo
Erbenfeld, criado pela comunidade holandesa-reformada. O barão von der Heydt
foi o mediador destes primeiros inícios de Estado social na Alemanha. Max Weber
anunciou certamente a tese pela qual o calvinismo teria inspirado o
capitalismo, mas isso é historicamente falso. Poder-se-ia dizer igualmente que
o calvinismo tenha inspirado, através do diaconato, o socialismo e através do
ordenamento eclesial presbiteriano-sinodal a democracia.
A piedade pessoal leva logicamente a estruturas de
misericórdia. Ambas as Igrejas, no decurso do século XIX, sustentaram nos
territórios alemães o movimento cooperativo e fundaram também muitas
cooperativas no campo e na cidade para combater pobreza e desemprego. Unindo-se
automaticamente em cooperativas, se tornam fortes. A alternativa à pobreza não
é a riqueza, a alternativa a pobreza e riqueza é a comunidade.
Quando ouvimos a palavra misericórdia, pensamos em geral no
homem misericordioso, e não no homem mísero. Como se sentem os pobres que foram
remetidos aos bons dons do homem misericordioso? Como se sentem os desocupados
e sem teto que dependem das mesas e de um lugar quente nas igrejas? Se a
misericórdia vem do alto para baixo, eles se sentem duplamente humilhados. Dar
é um bem, aceitar é mais difícil. Por isso, pertence à piedade sempre também o
reconhecimento da dignidade do homem e o respeito diante do amor de si do
necessitado. A melhor ajuda é “ajudar a ajudar-se”.
A “opção primária pelos pobres” latino-americana (Medellín
1968) é boa para aqueles que não são pobres e não é, portanto, uma “opção dos
pobres”. De fato, os pobres não tem optado pela pobreza, são dela prisioneiros
e procuram uma via para sair da pobreza em direção a uma vida boa e em comum.
Os pobres são tais somente em confronto aos ricos, não o são em si e sob outros
aspectos; eles têm dotes e energias próprias que querem ser despertadas e mobilizadas.
Os pobres não querem – como todos nós – ser cobrados pelo que não têm, mas ser
reconhecidos naquilo que são. Por isso, têm necessidade não só de misericórdia,
mas também de solidariedade humana, e a experimentam numa comunidade humana
solidária.
- O que é e como funciona uma comunidade humana solidária? A
misericórdia vem do coração e é – como mostra a parábola do bom samaritano –
pessoal, espontânea e momentânea. A solidariedade é, ao invés, sentido cívico e
fidelidade comunitária e é social, institucional e duradoura. Numa comunidade
solidária há a participação pública de todos e o compartilhamento do bem comum
para cada um. Fidúcia e confiabilidade, direitos e deveres qualificam a vida.
O modelo cristão não está no samaritano misericordioso, mas
na comunhão dos bens proto-cristã. O moderno estado social europeu é uma
consequência da solidariedade organizada entre fortes e débeis, sãos e
enfermos, jovens e anciãos. O Estado social transforma os pobres, os enfermos,
os anciãos de objetos de piedade em sujeitos de direitos e exigências: o seguro
social, o seguro previdenciário, as pensões de ancianidade. Tudo isso é algo
mais do que “misericórdia estrutural” (Wolfgang Thierse); é fundado sobre os
universais direitos humanos e civis e é antes solidariedade estrutural. O
moderno Estado de direito não se ocupa somente daqueles que estão “encapados
nos malfeitores”, se esforça também em eliminar rapinas e homicídios e em
socializar os malfeitores. E, se o moderno Estado social se torna também
ecológico, pode dar forma a misericórdia e solidariedade com animais e plantas
e com a terra inteira. Quanto mais forem utilizadas energias renováveis e a
indústria se converter de waste-making industry em recycling industry, tanto
melhor será o inteiro ecossistema da terra, pátria de nós todos.
- Misericórdia e piedade se tornam coisas supérfluas? Não. A
misericórdia é a alma da justiça social. Sem uma cultura da misericórdia
perde-se a motivação de base de uma legislação social. A ética da piedade com
os pobres, os enfermos e os anciãos deve ser hoje defesa contra a frieza social
do neoliberalismo; de fato, somente uma ética universal da piedade pode
justificar as leis sociais e não só deplorar individualmente a omissão de
socorro, mas também puni-la.
Também nos Estados sociais a misericórdia pessoal é
necessária. A Caritas na Igreja católica e o Diakonisches Werk na protestante
são irrenunciáveis na Alemanha. Embora a rede social da assistência estatal
intercepte as necessidades mais agudas, há muitos desempregados e sem teto,
enfermos e anciãos de quem ninguém se preocupa. Como mostra a experiência, as
leis sociais sempre têm falhas porque a vida é irregular. Nas agências sociais
predomina frequentemente a suspeita da fraude ao invés do respeito pela
dignidade humana dos necessitados.
A misericórdia abre a comunidade solidária nacional aos
perseguidos e aos prófugos, enquanto seja possível e razoável. Por isso, o Papa
Francisco foi a Lampedusa. A misericórdia é, por assim dizer, o vértice
missionário de um Estado social aberto.
Enfim, a misericórdia se torna fonte do socorro
internacional. Isso é óbvio em casos de catástrofes naturais, terremotos e
tsunami, como há anos em Haiti. Em casos de catástrofes políticas como na Síria
e no Iraque, por ocasião de guerras civis e Estados que se desagregam, ao
invés, para a Comunidade dos Estados a questão é complexa. A ONU deve intervir
em caso de genocídio. Povos inteiros, grupos étnicos e particulares etnias
podem de fato incidir “nos malfeitores”, como mostram as catástrofes humanitárias
em Ruanda e Burundi.
A comunidade solidária e o Estado social funcionam somente
enquanto o mundo moral é conotado pela solidariedade e misericórdia, e não pela
ideologia capitalista da avidez, da avareza e da egolatria.
No fundo, a piedade pessoal não é só necessária, mas também
boa e bela. A piedade pessoal é a tradução da misericórdia divina em nossa
convivência humana. Nossa pequena piedade consagra esta vida e é uma
ressonância da grande misericórdia divina. A piedade pessoal é incondicionada e
imediata nas atenções para o alto. A piedade pessoal é generosa e não calcula.
A piedade pessoal é óbvia e se esquece de si. A piedade pessoa existe também no
desdenho para a humanidade de certas condições e a impiedade dos homens. A
piedade pessoal é uma vida feliz no vasto espaço da misericórdia de Deus.

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