Jesus na sinagoga | D.R.
«Positiva e sadia»; «percetível, simples, adaptada e concreta, que não seja algo "daquele tempo", mas "deste tempo"»; que recorra a uma «linguagem profética, interpeladora, que ponha a Igreja a mexer, que inquiete a assembleia.»
Estas são as principais qualidades de uma homilia, considera o padre Nélio Pita, que esta sexta-feira interveio na 5.ª Jornada de Teologia Prática, que decorreu na Universidade Católica, em Lisboa.
«A Igreja é associada ao corpo de Cristo; se este corpo não se mexer, corre o risco de ficar obeso, incapaz de passar pela porta estreita», frisou o responsável pela paróquia de S. Tomás de Aquino, em Lisboa, em declarações à comunicação social.
O religioso da Congregação da Missão (Vicentinos) está convicto de que nas homilias «é preciso dizer o bem de uma forma bela»: «Há em nós uma sede muito grande para a beleza, e o discurso pronunciado de forma bela, isto é, que recorre à literatura ou tem em conta o mundo das artes, da música, do cinema, vai direto ao coração das pessoas».
«Se for uma mensagem muito racional, muito intelectual, fica apenas pela cabeça; ora, a mensagem de Jesus tem de chegar ao coração. Nesse sentido, o belo é o melhor caminho para chegar ao coração», realçou.
A preparação é essencial: «Sem estudo da Palavra, sem a rezar, sem a interiorizar, sem ser moldado por ela, é impossível que ela seja transmitida. Um pregador que não se prepara não é um homem sério, não é honesto, não é espiritual».
«Trata-se de um trabalho difícil, até porque preparar uma homilia traz uma boa dose de angústia, mas é a essência da nossa missão como sacerdotes: pegar na Palavra e transmiti-la aos irmãos que nos foram confiados», vincou Nélio Pita.
Oração e ciência devem estar unidas: «É fundamental ter o domínio da hermenêutica e da exegese bíblica, mas não se pode ficar por aí: é preciso rezar, assimilar, deixar-se transformar pela Palavra de Deus, e depois propor aos outros essa experiência que fazemos».
«Cada vez mais, como por exemplo em funerais e celebrações de 7.º ou 30.º dia, ou noutros momentos evocativos importantes, encontramos uma assembleia de pessoas que nunca, ou raramente entram, na igreja».
Nessas ocasiões, «o padre deve aproveitar para dizer a Boa Nova como ela é - uma Boa Nova, e não uma triste notícia, não como algo que nos aprisiona e amesquinha, mas algo que nos liberta e nos faz ser maiores».
«Queremos que a Igreja seja também o lugar do debate, da reflexão, mesmo quando essas proposições possam pôr em causa alguns esquemas, transmitidos pelas gerações passadas, que tenhamos interiorizado. Por isso é fundamental que a teologia tenha uma aplicação à realidade, à vida das pessoas. A homilia tem de ter esta vertente; se não, é um discurso que não interessa, ou que interessa pouco», sublinhou.
A conferência do padre Nélio Pita na Jornada de Teologia Prática inseriu-se no painel intitulado "As linguagens e os seus 'lugares': a homilia, o blogue, o quotidiano".
A homilia é considerada um dos elementos mais antigos da Liturgia da Palavra, uma das principais partes da missa, remontando ao judaísmo e, depois, às primeiras comunidades cristãs.
O termo, que deriva do grego "homilein", «ter uma prática familiar», aplica-se à intervenção que contribui para a assembleia entender as leituras bíblicas e concretizá-las na vida.
Rui Jorge Martins | SNPC | Publicado em 18.11.2014

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