Um glossário das "palavras" fundamentais para os
cinco papas conciliares antes do Papa Francisco, ou seja, João XXIII, Paulo VI,
João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI: um alfabeto dos termos-chave que
caracterizam cada pontificado, explicadas passo a passo num percurso
histórico a partir de 1959.
Análise do jornalista italiano Luigi Accattoli,
publicada no Corriere della Sera, 17-12-2014.
Atualização
[aggiornamento] - É o logótipo da estação conciliar, e João XXIII usou-a já
no primeiríssimo anúncio do Concílio, no dia 25 de janeiro de 1959. Ele diria
em diversas ocasiões "atualização" e "renovação", sem falar
de "reforma", palavra tabu para o papado, por causa de Lutero. O
cardeal Biffi criticaria o termo "atualização" [aggiornamento],
porque expressaria adequação ao "atual" [giornata], isto é, à
história e às suas modas.
Paz - É
palavra-chave no Papa Roncalli. Está no título da encíclica Pacem in terris
(1963), que foi como que o seu testamento. E estava no lema do seu brasão:
"Oboedientia et pax" ("Obediência e paz"). Na encíclica,
ele afirmou que é loucura ("alienum a ratione": alheio à razão) o
recurso à guerra na era nuclear. Conceito retomado por Francisco, lembrando, em
setembro passado, em Redipuglia, o centenário do início do primeiro conflito
mundial: "A guerra é uma loucura".
Pobres - "Opção
pelos pobres" é o lema da catolicidade latino-americana, formulado pela
Conferência de Medellín (1968) e que, depois de 45 anos, levou à eleição do cardeal
Bergoglio. Um lema epocal, que encontra um prenúncio em uma mensagem de rádio
do Papa Roncalli a um mês da abertura do Vaticano II: "Diante dos países
subdesenvolvidos, a Igreja se apresenta como é e quer ser, como a Igreja de
todos e particularmente a Igreja dos pobres".
Diálogo - A
palavra "diálogo" ressoa 60 vezes na encíclica de Paulo VI Ecclesiam
suam (1964): um excesso que é sinal de paixão, em um homem tão comedido. Esta é
a citação obrigatória: "A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que
vive. A Igreja faz-se palavra, faz-se mensagem, faz-se colóquio".
Desenvolvimento -
O "desenvolvimento dos povos" é outra bandeira de Paulo VI, ecoando a
expressão "povos em vias de desenvolvimento", que foi típica da época
da descolonização. Está no título da encíclica Populorum progressio ("O
desenvolvimento dos povos", 1967). Nela está o lema: "O
desenvolvimento é o novo nome da paz". E foi dessa forma que o progresso
vituperado pelos papas do século XIX entrou na língua da Igreja de Roma.
Alegria - O abatido
Paulo VI falou muito da alegria e dedicou à "alegria cristã" um dos
últimos textos mestres do seu pontificado: a exortação Gaudente in Domino
(1975), em que a palavra "alegria" aparece 135 vezes.
Colegas cardeais -
Os cardeais eram chamados "príncipes da Igreja", mas o Papa
Luciani, recém-eleito, chamou-lhes "colegas", e também essa página
foi virada: "Assim que começou o perigo para mim [de ser eleito], os dois
colegas que estavam perto de mim me sussurraram palavras de coragem".
Pobre Cristo - Foi
assim que o Papa Luciani se definiu, no dia 30 de agosto de 1978: "Espero
que os meus coirmãos cardeais ajudarão este pobre Cristo, vigário de Cristo, a
carregar a cruz". Os papas, ao longo dos séculos, tinham se definido de
muitos modos, nunca chegando a esse ótimo título.
Deus é mãe - Era
o dia 10 de setembro de 1978, quando o Papa Luciani, no Angelus, invocando a
paz para o Oriente Médio, disse que Deus "sempre tem os olhos abertos
sobre nós, mesmo quando parece noite: é papai, mais ainda, é mãe". Do seu
pontificado efémero, restou essa duradoura palavra.
Mea culpa - João
Paulo II é o papa do mea culpa: são uma centena os textos em que ele reconhece
responsabilidades históricas dos "filhos da Igreja" e cerca de 30
aqueles em que ele usa a expressão "eu peço perdão", ou uma
equivalente.Galileu, o antijudaísmo, as fogueiras da Inquisição são os casos
mais famosos.
Nudez - A
"nudez dos progenitores", ou seja, de Adão e Eva, que "estavam
nus e não sentiam vergonha", é um assunto de que o Papa Wojtyla fala nas
catequeses da quarta-feira por quatro anos, ilustrando uma "teologia do
corpo", que permanece como o seu ensinamento mais novo. Falando dos nus da
Capela Sistina, ele disse uma vez: "Só diante dos olhos de Deus, o corpo
humano pode permanecer nu e conservar intacta a sua beleza".
Irmãos - Os papas
chamavam de "irmãos" os bispos, e de "diletos filhos e
filhas", os católicos, mas João Paulo II dilatou a fraternidade: chamou
de" irmãos mais velhos" os judeus, e de "irmãos" (por cerca
de dez vezes), os muçulmanos. Irmãos não em Cristo, mas em Abraão, já que o
Islão também se remete a Abraão, assim como os cristãos e – por primeiro – os
judeus.
Reforma - Bento
XVI não teve medo de usar a palavra "reforma", a qual, para evitá-la,
João XXIII havia recorrido ao sinónimo soft de "atualização"
[aggiornamento]. Ele definiu a obra do Vaticano II como "reforma na
continuidade".
Continuidade - O
papa alemão não teve medo da reforma, mas a sua palavra preferida, quanto ao
governo da Igreja, foi "continuidade": no magistral discurso à Cúria
do dia 22 de dezembro de 2005 – com o qual ele propôs a fórmula "reforma
na continuidade" –, ele usou cinco vezes a palavra "reforma" e
12 vezes a palavra "continuidade". Portanto, ele pendia para esta.
Teologia do amor -
"Deus é todo e apenas amor", disse o Papa Ratzinger no dia 7 de junho
de 2009. Ele dedicara a esse assunto a encíclica Deus é amor (Deus caritas est,
2006). Como teólogo, havia escrito que o amor é o único "princípio
transcendental" do cristianismo. A teologia do amor é a sua melhor
herança, que Francisco prolonga na teologia da misericórdia.

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