A Simples Bondade Humana – reflexão para a festa da Sagrada Família


Nos muito diversos esforços para compreender a família e, por vezes, para a avaliar ou ensinar um seu deve ser, somos compelidos piedosamente para as portas do curral onde dorme o Menino. Toda uma panóplia de tradições, amorosas e extravagantes, saudosistas e modernizadas, arduamente tentando suspender os sofrimentos quotidianos e paliar as feridas abertas pelos egoísmos. Em todo esse empenho há muito de genuína misericórdia, de persistência no seguimento de Cristo. Longe do mero empenho nas normas, é verdadeiro exercício da "liberdade da simples bondade humana".

Cristina Sá Carvalho, psicóloga, em http://pagina1.sapo.pt

Mas é com igual entusiasmo que também mitigamos a complexidade da irrepetível Sagrada Família, na sua constituição especial, e tendemos a procurar nela um espelho melhorado das nossas possibilidades, ignorando quase sempre aquilo que os Evangelhos nos querem mostrar da infância de Jesus. O texto sublinha uma teologia dos pobres e da pobreza pela qual Lucas explica que é entre os deserdados que pode maturar o cumprimento da promessa consumada em Cristo. E não é por pauperismo que a Igreja coloca no topo das suas opções a causa dos pobres, nem esta se move apenas pelo resgate que merece essa injustiça, mas prega porque o conforto nos torna complacentes e distraídos, há que encontrar espaço para o despojamento e a partilha. Já o inusitado de Jesus entre os doutores revela a Família como modelo de piedade e observância, assente na qualidade religiosa da sua experiência e é nisso que devemos imitá-la, cada família tão imprevisível e disfuncional como só a intimidade o permite, mas sempre capaz desse encontro filial com o Pai. E se os silêncios da Maria Mãe começam cedo, é porque esta não consegue compreender tudo e a sua fé, como a nossa, é uma fé «a caminho», atravessando a escuridão, necessitada de maturação, em tudo isso um exemplo consolador.

Tenhamos no coração e nas obras de solidariedade as muitas famílias que, neste momento, resistem à perseguição religiosa mais cruel, e as que estão feridas pelas catástrofes, a guerra e o terrorismo, assim como as que subsistem penosamente, à margem dos sistemas políticos e económicos, ou são esmagadas por doutrinas em que a pessoa não conta. E ainda as que são vítimas das pesadas maleitas da vida moderna, formas hediondas de loucura e desespero, próprias de "um mundo sem Deus, vergado pelo tédio e o vazio interior". Mas é também um tempo de Esperança renovada, agora que a Igreja se empenha em colocar a família nas agendas pessoais, eclesiais e políticas, reivindicando a verdade essencial do seu papel na comunhão humana e na transmissão da fé.

Tal como há cinquenta anos, com o Concílio, o Espírito fará o seu caminho e a inteligência dos homens e das mulheres dará o seu contributo, conseguindo que as soluções encontradas sejam a promessa de um bem prolongado para pessoas e comunidades. Revisito todas estas "aspas" nos ensinamentos de Bento XVI e encontro-as atualizadas na destra locução de Francisco: “O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem".


Votos de um Santo Natal na Alegria do Evangelho, com a arte de transformar o nosso curral “na casa de Jesus, com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura”.

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