Philippe Loubat
A explosão do número de pessoas vulneráveis e dependentes nos próximos anos vai modificar as nossas relações sociais?
Sim, necessariamente. Tudo o que entre nós alimentava um sentimento de segurança a partir dos Trinta Gloriosos – isto é, o Estado e a família – se esboroa cada vez mais perigosamente. Certamente, a família continua sendo um valor importante porque ela é uma defesa contra a exclusão. Mas também ela é cada vez mais frágil. Quanto ao Estado providência, ele repousava sobre a solidariedade entre os trabalhadores no contexto de uma sociedade de assalariamento universal. Todos eram chamados a trabalhar toda a vida, cada qual contribuindo para uma partilha dos riscos no interior da comunidade nacional. Ora, a proteção social – saúde e velhice – acusa déficits inquietantes e a ameaça do desemprego atinge, na França, a metade da população. A partir do momento em que esta sociedade salarial entra em decomposição, é preciso considerar formas de solidariedade não recíprocas – isto é, assimétricas – que permitem dar às pessoas vulneráveis bem mais do que a sua contribuição.
Sociólogo e economista, Alain Caillé fundou, em 1981, o Movimento Anti-utilitarista em Ciências Sociais (Mauss, na sigla em francês), em homenagem ao antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950), companheiro próximo de Jaurès. Assim como ele, Alain Caillé contesta o pensamento econômico dominante há mais de um século, segundo o qual os indivíduos são movidos pelo seu interesse. A este “utilitarismo” ele opõe um outro motor de ação humana, “o espírito do dom”: a regra básica, imutável, do viver juntos, não é nem um toma lá, dá cá, nem a compra e a venda, mas a tríplice obrigação de dar, receber e retribuir. Segundo os anti-utilitaristas, nós vivemos em interdependência e a relação com o outro é tão importante quanto a relação consigo mesmo. Mas não nos iludamos: esta assertiva não tem nada de idealista. Porque o dom não se resume à generosidade e à gratuidade; ele contém também uma parte de cálculo consciente ou inconsciente. Ele carrega dentro de si as nossas expectativas de um “retorno”, de um reconhecimento.
Alain Caillé concedeu esta entrevista a Dominique Fonlupt
e está publicada na Revista francesa La Vie, 9-07-2009, p. 9-11.
Porque seria tão problemática esta solidariedade sem reciprocidade?
Porque ela comporta uma mudança completa de nossos valores. Com a multiplicação das vulnerabilidades, cada vez mais pessoas não poderão ser recíprocas. Elas dependerão da solicitude dos outros, do care, como o definem os anglo-saxões. A partir dos anos 1980, autores americanos, como Carol Gilligan e Joan Tronto, destacaram a importância social do care, uma palavra intraduzível que contém a noção de cuidar do outro, de reparar, com empatia. Esses pesquisadores mostraram que esse trabalho de care não é nem reconhecido, nem valorizado financeiramente. Por outro lado, ele é massivamente dado às mulheres. Sem dúvida porque a nossa sociedade valoriza a autonomia e o sucesso público. O care encarna justamente valores opostos. Todos nós sabemos que podemos de um dia para o outro tornar-nos dependentes, mas nós repelimos esta ideia. O que explica que aquelas que, atualmente, ajudam a manter a nossa sociedade de pé ao se ocuparem, no dia-a-dia, das pessoas idosas, das pessoas com necessidades especiais, são relegadas a uma espécie de invisibilidade social. Falta ao care um reconhecimento coletivo que poderia justificar o dom que ele representa. A solicitude é ainda muito frequentemente associada à abnegação, ao sacrifício, sem retorno possível.
Mas, o que é esse dom que exige um retorno?
A palavra se presta à confusão. É uma noção antropológica e não moral. Marcel Mauss, o primeiro teórico do anti-utilitarismo, queria encontrar “a rocha da moral eterna” e universal. Para ele, todas as morais se fundam sobre o espírito do dom: sair de si, ir ao encontro dos outros para entrar no ciclo do “dar-receber-retribuir”. Mas esse ciclo é animado por uma lógica da reciprocidade no longo prazo. Nós só damos àqueles que podem retribuir, compreendido de maneira simbólica, sob pena de esmagá-los e de romper um equilíbrio social. Seguindo os passos de Mauss descobrimos que o motor do homem é o desejo de ser reconhecido, e o que ele quer ver reconhecido é a sua capacidade de dar. Mas, no fundo, o que se dá? Vida, energia vital. Mas dar mostra também aos outros como nós somos potentes, magníficos. E acrescenta nossa própria energia vital. Toda a incerteza do dom reside nisso: de quem acrescenta energia? Do doador? Do receptor? Dos dois? Esta luta para existir aos olhos dos outros ao dar se manifesta diferentemente segundo as épocas. Para os gregos, era belo morrer pela cidade. Na Idade Média, consagrar a vida à glória de Deus ou de seu príncipe. Hoje, para alguns, a glória está em carregar um Rolex no pulso. O que significa que se dá a si mesmo. Para outros, ela passa pelo engajamento humanitário. Ambíguo porque ao substituir a ajuda no campo político corre o risco de exacerbar os conflitos que gostaria de resolver e que contribui às vezes mais para a reputação do Ocidente doador do que aos povos socorridos. Desde mais de um século para cá essa necessidade de existir se manifesta pela acumulação das riquezas. Mas esse desejo de “sempre mais”, tão amplamente difundido hoje não constitui um horizonte ultrapassável. Podemos almejar que a solicitude para com os mais frágeis seja um dia reconhecida em toda a sua utilidade social e considerada essencial. Isso seria de fato um dom valorizado.
Não seríamos então forçados a acumular menos para partilhar mais?
Vemos emergir correntes de adeptos da simplicidade voluntária. São escolhas individuais louváveis, até mesmo comportamentos exemplares. Entretanto, não são suficientes para inverter a tendência do hiperconsumo, caso não se ligarem a um “grande relato”, isto é, a um discurso partilhado e “universalizável” que dá um sentido coerente à nossa vida, como faziam outrora as religiões e as ideologias. Mas as nossas sociedades pós-modernas se caracterizam pelo desaparecimento dos grandes relatos. Elas recusam qualquer discurso globalizante e coerente em prol de fragmentos de discursos, parciais, que nos impedem de tomar consciência do que nós temos em comum. Ora, enfrentar os problemas postos pela generalização da vulnerabilidade necessita de mudanças éticas e econômicas consideráveis. O desafio fundamental é a luta contra o que o filósofo Cornelius Castoriadis chamada de ilimitação, a desmedida. Quer dizer, a ilimitação da miséria, de um lado, e a ilimitação da riqueza, de outro.
Como?
Concretamente, eu proponho o princípio de uma renda mínima para todos garantindo uma vida decente, independentemente de suas capacidades. Por outro lado, o único meio de lutar contra a desmedida que concentra as rendas nas mãos de uma minoria e dificulta o exercício coletivo da solidariedade é afirmar que ninguém deve ultrapassar um determinado nível de riqueza.
A solicitude humana tem limites?
Sim. Hoje, ela é tributária da resposta a esta questão: até onde deve ir a nossa solicitude para que o nosso mundo permaneça humano e suportável? E o que a nossa sociedade será se nós pararmos de exercer esta solicitude? O que me interessa é a nossa capacidade de fazer emergir valores universais que sejam compartilháveis. Nós sofremos cruelmente essa falta. Em matéria de solidariedade, nós perdemos toda visão comum entre os países ocidentais e os outros, especialmente.
Entretanto, os exemplos do desenvolvimento sustentável e da ecologia nos dão razões de esperança. Até a eleição de Obama, esta questão não estava na ordem do dia, na “agenda” norte-americana. Agora está. O sobressalto virá talvez da reação à dimensão apocalíptica de futuro. A humanidade será capaz de reconhecer um discurso global face a um apocalipse social iminente? O sobressalto contra a desmedida virá sem dúvida com a tomada de consciência do perigo.
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