O Papa Francisco prefere a pastoral de perguntas, mais do que a
moral de respostas. Perguntas para discernir, mais que respostas
pré-fabricadas. Pastoral de cura e escuta, em vez de moral de condenações e
receitas. Como os bons médicos, pergunta para diagnosticar, em vez de receitar
sem diagnosticar. Sabe que não há enfermidades, mas enfermos e que não se pode
diagnosticar somente diante da tela do computador sem olhar para o rosto das
pessoas.
Reflexão do teólogo jesuíta Juan Masiá, publicada no sítio Religión Digital, 11-12-2014
Francisco pratica o que recomenda. Ao enviar a todo o “povo
fiel” as perguntas sobre os temas a serem deliberados na Igreja, está colocando
em prática o método de discernimento evangélico que recomenda insistentemente
em sua exortação A Alegria do Evangelho (Evangelii Gaudium).
Já na convocatória do anterior Sínodo Extraordinário (2014)
manifestou seu propósito de desencadear um “processo sinodal de deliberação”
que envolvesse todas as comunidades durante estes dois anos. Por isso, enviou
as perguntas do documento preparatório para serem respondidas por todo o “povo
fiel”, em vez de dirigi-las, como até agora, somente aos bispos.
(Lamentavelmente, houve dioceses cujos bispos nem sequer enviaram o documento
às paróquias.)
Desta vez, Francisco decidiu que a Relatio Synodi (Relação
final do Sínodo de 2014), assim como foi concluída pelos bispos, se converta em
documento preparatório (Lineamenta), como material de trabalho para a XIV
Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (2015). Vai acompanhada de uma
longa e densa relação de perguntas para que todo o povo crente (e não apenas
seus bispos) dialogue e discirna comunitariamente ao longo do ano e envie seu
parecer como contribuição para a deliberação sinodal.
Este processo de deliberação encarna o método de discernimento
recomendado na exortação Evangelii Gaudium (EG), insígnia emblemática da
primavera de reforma eclesial. Francisco convida nessa exortação para que
tenhamos uma dupla paixão: “paixão por Jesus” e “paixão pelo povo”, pela
espiritualidade de “reconhecer a Deus” e “reconhecer o outro” (EG, cap. 5).
Francisco recorda aos agentes de pastoral que Jesus se irritava
com os mestres exigentes que ensinam a Palavra de Deus sem se deixarem iluminar
por ela e colocam sobre os ombros do povo cargas pesadas que eles mesmos não
suportariam carregar. Diz Francisco que: “O pregador deve também pôr-se à
escuta do povo, para descobrir aquilo que os fiéis precisam ouvir. Um pregador
é um contemplativo da Palavra e também um contemplativo do povo. [...] Trata-se
de relacionar a mensagem do texto bíblico com uma situação humana, com algo que
as pessoas vivem, com uma experiência que precisa da luz da Palavra. Esta
preocupação não é ditada por uma atitude oportunista ou diplomática, mas é
profundamente religiosa e pastoral” (EG 154).
Francisco quer dizer que o pregador prepare sua homilia
prestando atenção “à voz de Deus e à voz do povo”. Vox populi, vox Dei. Afirma
isso sem medo de que a casta curial o acuse de “populismo”. Porque Francisco
está convencido de que no discernimento evangélico se tenta reconhecer – à luz
do Espírito – um apelo que Deus faz ouvir em uma determinada situação histórica
(cf. EG 154).
Francisco insiste em que, ao fazer a homilia, é preciso
“retomar este diálogo que já foi estabelecido entre o Senhor e o seu povo.
Aquele que prega deve conhecer o coração da sua comunidade para identificar
onde está vivo e ardente o desejo de Deus e também onde é que este diálogo de
amor foi sufocado ou não pôde dar fruto” (EG 137).
Daí a importância da dupla escuta e do duplo encontro que
Francisco propõe: ouvir o Espírito e ouvir a experiência do povo; que a
pregação seja “encontro com a Palavra e encontro com o povo”. “A homilia é o
ponto de comparação para avaliar a proximidade e a capacidade de encontro de um
Pastor com o seu povo. De fato, sabemos que os fiéis lhe dão muita importância;
e, muitas vezes, tanto eles como os próprios ministros ordenados sofrem: uns a
ouvir e outros a pregar. É triste que assim seja. A homilia pode ser,
realmente, uma experiência intensa e feliz do Espírito, um encontro consolador
com a Palavra, uma fonte constante de renovação e crescimento” (EG 135).
Perguntar ao Espírito e ao povo, ouvir a vox populi e a vox
Dei. Francisco nos anima a fazer isto durante todo o ano, em preparação ao
próximo Sínodo. Seguiremos, desta vez, o conselho dado por Francisco em todas
as comunidades?
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