A
criação da nova Congregação para os Leigos parecer ser um
primeiro passo para a reforma da Cúria Romana. Muitos estão interpretando este passo como
um reconhecimento de que os leigos têm um papel tão importante na Igreja quanto
os bispos, o clero e os religiosos – cada um dos quais possui uma congregação
dedicada para as suas próprias preocupações.
A reportagem
é de Thomas Reese, publicada
pelo National Catholic Reporter, 04-12-2014. A
tradução é de Isaque Gomes Correa.
A reforma da Cúria foi um item importante da pauta
adotada pelo Conselho dos Cardeais, do Papa Francisco.
Atualmente,
há um Conselho para os Leigos, porém, na hierarquia
vaticana, os conselhos são colocados abaixo das congregações. Por exemplo, as
nove congregações vaticanas devem ser chefiadas por cardeais, mas os 12
conselhos podem sê-lo por um arcebispo. Não só um conselho dos leigos seria elevado
de grau; ele seria também fundido em uma entidade maior que assumiria as
funções do Conselho para a Família, do Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde e
o do Conselho para a Pastoral dos Migrantes e
Itinerantes.
Resta
saber ainda se esta nova entidade vai ser uma congregação ou uma secretaria,
como a nova secretaria que lida com as finanças do Vaticano. Em todo caso, um
cardeal irá liderá-la, e nome do cardeal hondurenho Oscar Rodriguez Maradiaga já foi lançado. Leigos e leigas
poderiam chefiar alguns departamentos dentro desta congregação.
Uma
outra entidade pode resultar da fusão do Conselho para a Justiça e Paz e
o Conselho Cor Unum. Um plano colocaria o portfolio do
Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde e o portfolio do Conselho para a Pastoral dos Migrantes e
Itinerantes dentro de uma nova congregação, em vez de pôr na Congregação para os Leigos. Se estes conselhos forem para a
congregação leiga, a ênfase estaria na pastoral da saúde e juntos ao trabalho
com os migrantes. Se eles forem para a nova Congregação para a Justiça e
Caridade, então a ênfase seria dada à caridade e à justiça.
Uma
solução possível é colocar o trabalho pastoral destes departamentos dentro da Congregação para os Leigos, enquanto que o trabalho
da caridade e justiça passariam para a nova Congregação para a Caridade e
Justiça. Estas mudanças não são coisas fáceis de se fazer,
evidentemente, dado que as pessoas nos velhos departamentos têm múltiplas
responsabilidades.
Ainda
uma nova congregação ou secretaria pode juntar todos os escritórios de
comunicação: a Sala de Imprensa, oL’Osservatore Romano, a Livraria Editora Vaticana,
a Rádio Vaticano, o Centro Televisivo Vaticano, o Serviço de Informação
Vaticano, o site News.va e o Conselho para as Comunicações Sociais.
Estas
propostas respondem aos cardeais e bispos de fora de Roma que enxergam a Cúria como uma burocracia gigantesca que desperdiça
dinheiro. Estes querem uma operação eficiente com menos autoridades, gastando
menos dinheiro. Aqui, tais religiosos soam como os republicanos falando sobre
Washington.
Na
verdade, a burocracia vaticana é muito pequena, considerando que a Igreja é uma
organização de 1.2 bilhão de membros. Frequentemente, ressalto que as
universidades americanas têm mais trabalhadores na área da imprensa para as
suas equipes esportivas do que o Vaticano inteiro para cobrir as suas
atividades.
Qual
será o impacto destas fusões?
Em
primeiro lugar, fundir um número de conselhos pontifícios em entidades de menor
número irá reduzir a quantidade de escritórios que poderiam ser chefiados por
um cardeal. Embora os conselhos não têm que ser presididos por cardeais,
normalmente são estes quem assume esta tarefa. Se um dos objetivos da reforma é
reduzir o número de cardeais naCúria, então esta é uma
mudança positiva.
Em
segundo lugar, as fusões significarão que menos autoridades vaticanas terão
acesso ao papa. Tal como não pode haver centenas de autoridades governantes
dirigindo-se diretamente ao presidente, o papa não pode
pessoalmente lidar com dezenas de chefes de departamentos. Estas fusões
significam que alguns chefes de departamentos do Vaticano que, no passado, se
reportavam ao papa irão, agora, se reportar a outro alguém.
Na
prática, desde o papado de João Paulo II, os papas foram
seletivos com quem eles querem encontrar. O Papa Paulo VI se
encontrava quase mensalmente com os chefes dos importantes escritórios
vaticanos. Ele também iria rever, cuidadosamente, cada documento antes de serem
publicados por algum de departamento. Por causa de suas viagens e outras
atividades, João Paulo não tinha nem interesse nem tempo
para fazer isso. Alguns chefes de departamentos passavam um ano ou mais sem
vê-lo, e deixavam a revisão dos documentos ao cardeal Joseph Ratzinger,
que se certificava de que o Vaticano falasse uma só língua.
Com
apenas 12 escritórios curiais, o papa poderia também reunir os respectivos
chefes como um gabinete de coordenação ou um conselho. Embora os gabinetes
funcionem melhor nos sistemas parlamentares, os presidentes estadunidenses
nunca acharam úteis estes encontros, exceto para tirarem fotos oficiais.
Um
terceiro argumento para se fundir escritórios parecidos é que ele incentiva uma
maior coordenação e eficiência. Este era um dos argumentos que apoiaram a
criação do Departamento de Segurança Interna dos EUA e muitos dos mais recentes
departamentos de alto escalão neste país.
Juntar
escritórios pode levar a uma partilha dos recursos e à eliminação da
duplicação. Por exemplo, as pessoas que organizam o Jornada Mundial da Juventude poderiam também
organizar o Encontro Mundial das Famílias. Mas as fusões também podem
significar que algumas prioridades se perderão na burocracia. Um pequeno
escritório, para melhor ou pior, tem mais liberdade para fazer o que quer.
Quando é parte de uma entidade maior, ele precisa da aprovação dos supervisores.
Há mais certeza nas ações, porém menos criatividade também.
Reunir
todos os escritórios de imprensa do Vaticano numa mesma entidade faz sentido,
quando se quer que todos trabalhem em harmonia e quando se quer tirar vantagens
das novas tecnologias de comunicação. Para ser bem sucedida, uma
tal fusão irá exigir um executivo bastante forme para superar os caminhos
entrincheirados presentes nas diversas operações. As mudanças nas tecnologias e
prioridades significam que os funcionários precisam estar sendo continuamente
treinados. Porém, a relutância do Vaticano em demitir as pessoas dificultará
libertar-se de profissionais ultrapassados tecnicamente ou que realizam funções
redundantes.
Às
vezes, os departamentos de alto escalão juntam escritórios que não se encaixam
bem ou que têm pouco em comum. Por exemplo, nos EUA, o Census Bureau [responsável pelo censo no país] e a Associação Oceânica e AtmosféricaNacional, que
têm pouco em comum, fazem parte do Departamento de Comércio.
Da mesma
forma, embora uma Congregação para a Caridade e Justiça soe bem, é difícil ver
como os Conselhos para a Justiça e Paz e Cor Unum irão se encaixar facilmente
juntos. O primeiro é mais uma espécie de “think tank”, grupo de reflexão,
enquanto que o segundo distribui o dinheiro do Óbolo de São Pedro. Se a nova
congregação reunir os portfolios da Justiça e Paz, do Cor Unum, da Pastoral no
Campo da Saúde e do Conselho para a Pastoral dos Migrantes e
Itinerantes, ela terá de escolher o que realmente quer fazer.
A
maioria dos escritórios vaticanos tem uma mistura de competências em suas
jurisdições e funções promocionais. A autoridade jurisdicional é a autoridade
para se tomar uma decisão num assunto particular que envolve pessoas, até
mesmos bispos, segundo o Direito Canônico. O escritório dos leigos terá uma
pequena autoridade jurisdicional, exceto para a revisão e aprovação das cartas
das organizações católicas internacionais de leigos, o que era uma
responsabilidade do Conselho para os Leigos.
A
maioria do trabalho do novo escritório para os leigos vai ser promocional. Ele
irá operar mais através da educação e persuasão do que de regimentos. Realizará
congressos; os seus funcionários viajarão para participar em conferências
organizadas por terceiros. E publicará documentos, informativos (newsletters) e
outras publicações apresentando os resultados de seu trabalho e promovendo o
estudo e a ação na Igreja.
Todas
estas atividades dependem da capacidade de persuadir as pessoas. Por exemplo,
pode-se fazer um apelo para um maior envolvimento dos leigos na Igreja, mas se
os bispos locais e padres ignorarem-no, nada irá acontecer.
Em suas
atividades promocionais, o escritório de leigos vai ser semelhante a um grupo
de reflexão de políticas públicas, exceto que ele lidará com questões a partir
de uma perspectiva religiosa ou ética. O seu sucesso vai depender de sua
credibilidade, da qualidade de seu trabalho, de sua capacidade em atrair e
persuadir uma audiência particular. Como o novo escritório das comunicações,
será preciso um bom líder que esteja em sintonia com o papa.
Uma de
suas audiências deverá ser os outros membros da Cúria Romana. Será que este departamento irá falar em nome dos
leigos nas decisões em outros ambientes, por exemplo, na escolha dos bispos, na
formação de seminaristas, ou na reforma da liturgia? Se isto não ocorrer, os
leigos não estarão bem servidos.
A fusão
destes escritórios, ou departamentos, será vista em Roma como um importante
acontecimento, mas, na realidade, trata-se de uma reforma de pequeno valor. Ela
está dando voltas ao redor da estrutura já existente. Vale notar que estas
reformas se focam nos conselhos criados após o Concílio Vaticano II, e não tocam nas velhas congregações
vaticanas.
Uma
verdadeira reforma estrutural, como escrevi em outro artigo [1], requer:
1) Não fazer dos bispos ou
cardeais autoridades vaticanas.
2) Retornar a autoridade de
decisão em mais assuntos às conferências episcopais e aos bispos locais.
3) Separar, claramente, as
funções legislativas, executivas e judiciárias.
Mas,
além de mudar estruturas e procedimentos, precisa haver uma mudança cultural na Cúria. O Papa Francisco tem
pregado e modelado uma tal mudança desde o começo de seu papado. Ele fala de
uma liderança para o serviço em vez de poder e status. Ele claramente odeia o
carreirismo e o clericalismo.
Reformar
a Cúria não é fácil, nem impossível. Não há soluções
perfeitas, mas melhorias importantes podem ser feitas.
Nota:
[1] O
artigo pode ser encontrado clicando aqui.

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