5 estratégias para instaurar o novo na nossa vida



Como fazer o novo? Se ficarmos de braços cruzados, é óbvio que não vamos ter novidades. Se ficarmos à espera do que aconteça, vai ser uma fotocópia do passado. Por isso, proponho cinco estratégias a partir de cinco situações que todos conhecemos - e a partir das quais podemos aprender, seja o modo de lidar com a diferença, seja o modo de acolher a novidade. O melhor é fazermos de cada dia um dia novo. Tudo para termos um ano com a máxima qualidade.

Estratégia 1: Aprender a gostar do que o outro gosta
Um dos fenómenos engraçados de um namoro é quando o namorado ou a namorada começa a adquirir gostos, hábitos, manias, expressões que antes pertenciam ao outro. De repente vê-se a gostar de modos de estar, vestir, fazer que antes lhe eram estranhos e agora são totalmente familiares. Isso acontece porque cada um aprendeu a gostar daquilo que o outro gosta. Quem é que não conhece namorados que se 'mimetizaram' a tal ponto que até parecem irmãos? Ora isso pode acontecer entre namorados como pode também acontecer entre nós e Deus. É por isso que podemos encontrar pessoas que nos fazem lembrar Deus; ou pessoas que parecem anjos na Terra. São homens e mulheres que aprenderam, pouco a pouco, a gostar do que Deus gosta e, nesse processo, se deixaram transformar por dentro. Pois assim como um namoro alarga o coração e o horizonte, muito mais a relação com Deus nos pode expandir o coração e estender o horizonte para lá do que pensaríamos possível. Portanto, se quisermos estar sossegadinhos no nosso canto podemos muito bem continuar a gostar do que sempre gostámos, a fazer o que sempre fizemos - e o ano novo, por mais dias que passem, nunca há-de conseguir chegar. Mas, se quisermos que o ano novo apareça, recebamo-lo como um namorado recebe a sua amada. Arrisquemo-nos a alargar o espaço interior aos seus gostos: aprendamos a gostar do que outros gostam; aprendamos a gostar do que Deus gosta. Não só nos vai fazer muito bem, como podemos chegar a divertir-nos mesmo à séria!

Estratégia 2: Maravilhar-me com o que até aqui me era estranho
Por muitos malabarismos genéticos e educacionais que um Pai e uma Mãe façam, nunca hão-de conseguir controlar o filho que lhes calhou na rifa. Aos poucos meses - mesmo entre gémeos - começará logo a manifestar-se uma personalidade particular naquele bebé. Um, será mais agitado; o outro, calmíssimo. Um por-se-á logo a andar; o outro, será muito calado. Um, será líder do infantário; o outro, sempre escondido nas saias da educadora. Ora isto coloca-nos diante do abismo extraordinário que separa aquilo que podemos educar numa criança e aquilo que ela traz de origem. Se é verdade que pode haver desilusão, frustração e uma sensação de impotência porque talvez não corresponda ao que os pais imaginavam, por outro lado, é uma lição incrível sobre a humildade. Assim como um Pai e uma Mãe recebem um filho, assim devemos receber o ano. Assim como aos pais lhes compete descobrir, aceitar e apreciar a especificidade de cada filho, também a nós nos compete fazer o mesmo com o tempo que nos é dado. Certamente há-de ter semelhanças com o que já vivemos; mas também há-de ter grandes diferenças. Certamente que haverá continuidade; mas o ano novo trará também descontinuidade. Deixemo-nos maravilhar e nascer com cada dia que vem - como um filho que é confiado nas nossas mãos - e teremos o ano que nunca tivemos e nunca voltaremos a ter.

Estratégia 3: estar em permanente atitude de aprendizagem
Quando aprendi a montar a cavalo passei uma enormidade de horas no volteio, a correr, a saltar, a descer, a girar, a cair da minha montada. O objetivo era não só manter-me cada vez mais tempo em cima do dito animal mas chegar ao ponto de me sentir confortável, fosse a trote ou a galope. Mas a progressão era tão lenta que passei meses a sofrer com o que me parecia pura repetição. Naquele tempo aprendi a importância da paciência e da humildade. Paciência porque, enquanto a técnica é ainda incipiente, é mesmo desconfortável estar em cima de um cavalo. Humildade, porque me vi constrangido a aprender o gosto - estranho gosto - que há em errar para poder melhorar. Errar, aceitar errar, para errar cada vez melhor. Só isso me poderia levar a algum lado. Ora, assim como é desagradável estar em cima de um cavalo sem encontrar posição, o mesmo nos pode acontecer com as situações que o ano novo nos traga. Como um cavaleiro não nasce em cima do cavalo, também nós não sabemos gerir tudo o que se vai passar no ano novo. Muita coisa pedirá um investimento de meses, desde o momento em que nos confrontemos com ela até que nos sintamos confortáveis. Ninguém se pode furtar a calçar as botas de montar e o toque - e, queda após queda, voltar para cima desse cavalo - seja a realidade que seja. E, dentro de alguns anos, recordaremos este ano como o ano em que se deu 'aquilo' e lembrar-nos-emos de como nos conseguimos desenrascar, ou de como nos safámos daquela situação graças à ajuda deste e daquele, ou de como simplesmente sobrevivemos àquela queda. Mas não é preciso projectar-nos na glória futura: por agora, podemos concentrar-nos no privilégio de sermos eternos aprendizes. Aceitemo-nos discípulos do tempo e da vida, perguntemo-nos a cada momento - especialmente nos momentos mais duros e mais exigentes: "o que é que Deus e a vida me está a querer ensinar desta vez?" e tentemos acertar o melhor que pudermos. E no dia seguinte, o mesmo. E por aí fora. Teremos entretenimento de qualidade garantido para cada dia.

Estratégia 4: aproveitar a folha em branco
O director de um jornal diário é alguém que vive o ritmo do tempo de forma particularmente intensa: para ele, o ciclo de trabalho coincide implacavelmente com o ciclo de 24 horas de cada dia. Portanto, cada dia parte do zero. Quando o jornal de ontem já está a ser usado para limpar vidros e embalar castanhas, o de hoje ainda permanece em branco, à espera que a redacção abrace um mundo de notícias e as condense numas poucas páginas. Ora, assim como o director do jornal diário, também nós devemos receber cada dia com o mesmo olhar atento e expectante, cheios do entusiasmo de quem ainda não sabe quais serão os destaques, os grandes títulos, as chamadas para páginas interiores. E, todo o dia, devemos deixar-nos embalar pela emoção de não poder fechar a capa do jornal até chegar à hora de fecho. A folha em branco é assustadora mas é de uma generosidade imensa: oferece a oportunidade de a cada dia, e a cada momento, começar do zero, recomeçar tudo de novo. Como se não houvesse ontem. E isso é um descanso enorme. Não estamos agrilhoados ao passado. Ninguém nos obriga a repetir os erros de ontem. O dia não conspira contra nós para repetir agruras e adensar nuvens sobre nós. Antes pelo contrário: tem as mãos cheias de surpresas prontas a ser derramadas como aguaceiros sobre a cidade. Então, como não havemos de acordar para um novo dia - ou um novo ano - recebendo-o como um cheque em branco que nos é oferecido, de novo, em cada manhã?

Estratégia 5: amar todos os dias, um dia de cada vez
Nos anos que dediquei às artes, os meus professores recomendavam sempre: "é preciso desenhar todos os dias!". Nos anos que dediquei ao desporto, os meus treinadores exigiam sempre: "é preciso treinar todos os dias!". Nos anos que dediquei às coisas espirituais, os meus mestres insistiam sempre: "é preciso rezar todos os dias!". É óbvio que me parecia impossível e um exagero - mas ia fazendo as minhas tentativas. Ao fim destes anos, aprendi que aquele conselho valia ouro. E valia para o que quer que assumisse como centro da minha vida. Mas valia também e sobretudo para algo que é comum a todos nós: o amor. Talvez não o reconheçamos, talvez o adiemos, mas, se o ser humano foi desenhado para ser bom nalguma coisa, essa coisa é amar. O problema talvez seja o de amarmos distraidamente, sem reparar se amamos bem ou mal, como se nos fosse natural. E o amor não é natural, é sobrenatural! E, por isso, precisamos de ensaiar, treinar, meditar, amar todos os dias, um dia de cada vez. Até que se incorpore, até que se torne natural em nós a forma mais alta de amor. Mas onde encontrar esse amor, como saber que amor é esse? Em nós encontramos uma parte dos meios e do processo, claro. Mas sozinhos nada podemos, nada conseguimos. Visto que temos uma visão demasiado estreita de tudo, precisamos de alguém que no-lo ensine. E visto que o amor não suporta ficar dentro de nós, precisamos de o pôr em prática. Como o fogo precisa do oxigénio, assim o amor precisa de ser posto fora de nós. Temos de o aprender com Deus e praticá-lo com os outros, em cada gesto, em cada conversa, em cada encontro. E, se nos ocuparmos assim - pensando a cada momento "como posso amar aqui e agora, esta pessoa, esta situação?…" - Deus tratará de nos renovar como se cada dia fosse um ano novo.

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