(Padre António Cartageno)
Entre 1978 e 1981, dois padres ao serviço da Diocese de Beja partem para o terreno para resgatar o cancioneiro popular religioso. Percorrem mais de 40 localidades, batem às portas, despertam a memória dos mais velhos, ouvem cantar. Horas de gravações são reproduzidas vezes sem conta, passadas para a pauta, trabalhadas e divulgadas pelo Coro do Carmo de Beja. Até se tornarem parte do repertório litúrgico alentejano, tal como o conhecemos hoje. António Cartageno é um desses homens. Trasmontano, de São Mamede de Ribatua, mas assumidamente um alentejano “aculturado”, é hoje um dos compositores de música sacra mais respeitados em todo o País. Mas, quando olha para trás, encara o seu contributo para o estudo do cante alentejano como uma das “coisas mais importantes” que realizou como músico. E como “homem da Igreja no Alentejo”.
Publicado em Diário do Alentejo | 02-01-2015 | Texto: Carla Ferreira | Foto: José Serrano
Como músico e também como estudioso do cancioneiro popular religioso do Baixo Alentejo, como acompanhou todo este processo, primeiro da candidatura, e depois finalmente do reconhecimento do cante como Património Cultural da Humanidade?
O processo da candidatura eu acompanhei-o muito de perto, porque eu fazia parte da comissão científica. Fui várias vezes a Lisboa, precisamente à Casa do Alentejo, onde se reunia essa comissão, participei nas reuniões com os outros membros da comissão e preparámos o formulário da candidatura. Estive, portanto, bastante por dentro.
E como encarou este desfecho feliz?
Eu esperava, sinceramente, que o cante fosse classificado Património da Humanidade, mais cedo ou mais tarde. E foi. Logo na altura em que era para ser entregue, o Ministério dos Negócios Estrangeiros entendeu que era um bocadinho precipitado, que não era oportuno, que seria preferível esperar mais um ano, e se calhar foi prudente – temos o resultado agora, que alegra a todos. Alegra-me, primeiro, como interveniente direto no processo, alegra-me como pessoa ligada à música e ao cante, e alegra-me também como cidadão que vive em Beja já…
Sim, veio estudar para o Seminário de Beja com 12 anos, pelo que não é despropositado chamá-lo de alentejano. Imagino que tenha sido, por isso, uma reação também muito afetiva.
Muito afetiva. Eu amo o cante alentejano. Desde essa altura, tomei conhecimento do cante alentejano, não só por ouvir cantar mas também porque, muito cedo, comprei o Cancioneiro Alentejano, do padre Marvão, um livro muito útil que tem, salvo erro, mais de 300 modas escritas, com letra e música, que ele recolheu. À medida que fui aprendendo música, fiquei com capacidade de ler e de saber o que é que lá estava. E aprendi muitas dessas modas. Despertei cedo para esta expressão musical alentejana, mesmo não sendo natural daqui. A gente vai-se aculturando.
Entre 1978 e 1981, desenvolveu um projeto de recolha do cancioneiro popular religioso em mais de 40 localidades do Baixo Alentejo. Sente que há, por isso, um contributo seu neste selo da Unesco?
Sim, reconheço isso. Já tenho dito que eu considero que esta recolha que eu fiz, com a ajuda sobretudo do padre António Aparício, foi das coisas mais importantes que eu fiz como músico.
Mesmo tendo em conta o percurso que veio a fazer depois, em Roma, no Pontifício Instituto de Música Sacra?
Exato, tudo foi importante. Mas considero que a recolha do cante alentejano é um ponto de honra do meu percurso como músico e como homem da Igreja aqui no Alentejo. Se não tivéssemos feito este trabalho, o Alentejo e a Igreja do Alentejo, na sua expressão orante, seria hoje mais pobre. Hoje, qualquer manifestação religiosa, sobretudo de carácter popular, usa estes cânticos que fomos desenterrar da tradição. As pessoas que cantavam os cantes ao Menino, das Janeiras, dos Reis, da Quaresma, já todas morreram. E se não tivessem sido abordadas para nos cantarem aquilo que sabiam, tudo se tinha perdido, ou a maior parte.
Parece-lhe que isso também, indiretamente, contribuiu para uma maior aproximação do povo em relação à instituição Igreja, ao culto e à fé católicas?
Creio que sim. É bom vermos, por exemplo, numa procissão as pessoas a cantarem “Nossa Senhora do Carmo”, para falarmos de procissões marianas, ou mesmo cânticos da Quaresma… Há um cântico fabuloso, que encontrámos ali na zona de Ficalho, que se chama “Além vai Jesus”. Este cântico é hoje quase parte obrigatória de uma procissão da Quaresma. Nesse aspeto também, aproximámos um bocadinho a vivência litúrgica da sensibilidade do povo. Porque o povo sente que estamos mais perto dele através da sua música.
Esse projeto que desenvolveu com o padre Aparício foi, desde logo, acarinhado pela Diocese de Beja?
Eu direi mesmo que foi acarinhado pela Igreja universal. Porque o Concílio Vaticano II, que terminou em 1965, tem um documento sobre a sagrada liturgia que diz exatamente isto: “Promova-se muito o canto popular religioso. Estime-se como se deve e dê-se-lhe o lugar que lhe compete”. Isto está escrito.
Lembre-me um pouco das pesquisas no terreno.
Era interessante. Nós íamos daqui, por exemplo, a Baleizão, e a primeira coisa que fazíamos era perguntar lá a alguém: “Olhe lá, sabe de pessoas que conheçam cânticos antigos, do Natal, da Páscoa, coisas que se cantavam nas Endoenças, na Semana Santa?”. E lá íamos nós bater à porta de alguém e aquilo à primeira tentativa, às vezes, não dava em nada. Depois, voltávamos lá num outro dia e essa pessoa já tinha falado com outra; já se juntavam e já havia de facto um produto pensado e repensado, tirado do pó dos sótãos da memória, para nos restituir às vezes pérolas preciosas. Por exemplo, uma vez fomos a Vila Nova de São Bento e tentámos encontrar as pessoas certas. À primeira vez, as coisas ainda não estavam muito bem organizadas e um senhor avisou-nos: “Nós temos aí um grupinho mas temos que combinar. Vocês venham cá daqui a uma semana e nós combinamos aí um petisco, e à volta disso vamos cantar o que sabemos”. E foi uma maravilha. Aqueles homens a cantarem-nos o Menino de Vila Nova de São Bento, o cante dos Reis, e outras coisas também não religiosas, mas que era sempre útil gravar.
Que tipo de equipamento levavam?
Um gravador e um caderninho de apontamentos, mais nada. Usava um gravador de cassetes, um pequenino que eu tinha comprado uma vez na Alemanha, no princípio dos anos 80, e gravava tudo, evidentemente. Seria muito difícil, sem esse auxílio precioso, depois poder reconstituir. Porque eu depois chegava a casa e ouvia tudo, 10 vezes se fosse preciso, para ver o compasso, a tonalidade, estudar o que lá estava, e transcrever. De modo a restituir a verdade do que lá estava na gravação.
Este projeto começou em 1978, quatro anos após o 25 de Abril, ou seja, no inflamado período pós-revolução. Nos campos e nas aldeias, como é que as pessoas acolhiam estes dois padres que vinham resgatar o seu cancioneiro religioso?
Confesso que nunca tivemos problemas. Nós fomos a cerca de 40 localidades e nunca senti dificuldades de acolhimento. O nosso objetivo não era, de modo nenhum, político, não nos metíamos nisso. Tentávamos que as pessoas reconstituíssem aquilo que sabiam e no-lo cantassem, pelo que, de um modo geral, eram acolhedoras e afáveis. Nunca senti qualquer animosidade. Pelo contrário, as pessoas sentiam-se honradas por ver que nos interessávamos pelo seu passado, pelo seu património, e que estávamos a fazer, no fim de contas, um trabalho cultural, que era salvar um património em vias de extinção.
Deste património musical que recolheu, o tema da Natividade é o mais dominante?
É, seguramente, o mais rico e o mais dominante. No livro Cânticos Alentejanos, os cânticos publicados na altura sobre essa temática foram oito. Mas não estão aqui todos. Eu já poderia acrescentar, por exemplo, o Menino de Selmes, que é uma peça muito interessante, o Menino de Santo Aleixo da Restauração ou o Menino de Ficalho. Só que são peças muito difíceis. O de Cuba também não está aqui e também é muito difícil, muito melismático, com muitas voltinhas… Eu conheço muitos outros cânticos de Natal e tenho-os gravados, mas são tão difíceis, difíceis até de transcrever, que resolvemos publicar só os mais “cantáveis”. Mas, de facto, o Natal é um manancial.
Esse é o único livro que resultou do vosso trabalho?
Sim, Cânticos Alentejanos, das Edições Paulinas. Foi editado em 2001, mas teve os seus antepassados, dois livrinhos com uma capinha castanha, muito modesta, policopiados: Cânticos Religiosos Alentejanos I e II. Depois foram postos aqui neste livro, onde estão 35 dos cânticos recolhidos. Do Natal diz--se: “O ciclo do Natal, com os seus cânticos do Menino, das Janeiras e dos Reis, é certamente o mais rico de toda a tradição da música popular religiosa do Alentejo. São muitas as localidades onde encontrámos esse tríptico completo, verificando também que são esses os cânticos que mais resistiram à erosão do tempo”. Esta constatação já era assinalada nos finais do século XIX. Na “Tradição”, de Serpa, publicada em janeiro de 1899, Dias Nunes escreve assim: “O que ainda subsiste, apesar da sua origem secular, tão secular como a do Presépio, é o costume dos descantes ao Deus Menino, às Janeiras e aos Reis”.
Refere-se ao cante ao Menino como um “fenómeno”.
Exato. Quantos cantes ao Menino! Assim de repente, lembro-me de Serpa, Ficalho, São Marcos da Ataboeira, Vidigueira, Messejana, Trindade, Baleizão, Cuba, Vila Nova de São Bento, Pias, São Matias… São cânticos próprios, que não se repetem. A originalidade do texto não é assim tão abundante como a originalidade da música, porque o texto é muito comum de terra para terra. Mas também há algumas terras que têm esquemas de texto completamente diferentes. Eu não sei se isto acontece noutras regiões do País, não tenho conhecimento.
E há também o Menino de Peroguarda…
Claro, o famoso. Como sabem, o Michel Giacometti, quando andou por cá a fazer recolhas, ficou tão encantado com o Menino de Peroguarda que quis ficar ali sepultado. E fizeram-lhe a vontade – lá está no cemitério de Peroguarda. Os Reis também são uma peça monumental mas eu penso que foi sobretudo o Menino que o encantou.
Esta devoção desmente, de algum modo, aquela ideia feita de que o alentejano não é, por natureza, muito dado às coisas da Igreja. É um mito que se desfaz?
Eu acho que é. O alentejano, pelo menos este alentejano que nos transmitiu esta tradição, este que eu conheci, é uma pessoa profundamente religiosa. Pode não ir à igreja, mas reza, e tem na carteira os seus santinhos, e respeita. Pessoas hostilmente contrárias, ateias, eu acho que encontrei poucas. Mas refiro-me àquele estrato da população que eu conheci durante as minhas recolhas. Sobretudo pessoas mais velhas e às vezes também os filhos, já feitos, que colaboravam. Ali em Pedrógão, encontrei uma senhora, que tinha lá a filha ao lado, e a filha é que a ia estimulando. Cantou-nos cinco ou seis coisas interessantíssimas, que eu nunca tinha ouvido em parte nenhuma.
Neste trabalho de resgaste do cancioneiro religioso da região, o Coro do Carmo, que dirige desde a sua fundação, em 1976, funcionou, digamos, como uma espécie de cobaia.
Eu e o padre Aparício fomos recolher, mas as coisas na gaveta não vivem, é preciso fazê-las circular, e o Coro do Carmo teve esse papel de assumir, de ensaiar, de preparar, de divulgar para o público. E de uma forma bastante visível, porque foi muitas vezes, talvez dezenas de vezes, cantar a missa dominical à televisão e sempre que ia levava no repertório pelo menos uns dois cânticos alentejanos. Isto foi pegando. E depois, também, através dos dois CD que gravou, e que têm tido muito sucesso. Não perdemos a oportunidade de dar a conhecer este património da tradição popular religiosa.
Onde estão hoje esses registos sonoros; ainda existem?
Existem, estão em cassetes. Houve uma professora de Português, da Escola Superior de Educação, que me pediu algumas destas cassetes para estudar os textos que eu recolhi. Porque atrás disto iam, por exemplo, muitos textos de romances populares, ou rimances, alguns cantados, outros simplesmente recitados. E ela fez um estudo literário, e creio que chegou a publicá-lo, sobre os textos que eu lhe forneci. Eu pus as minhas cassetes à disposição para serem copiadas e certamente que continuarei a fazê-lo. São muitas horas de recolhas, se calhar eu não segui um método rigoroso e científico, porque aquilo era tudo feito às vezes ao fim de semana, à pressa, mas, em todo o caso, acho que é um espólio interessante, que vale a pena conhecer.
A Casa do Cante, em Serpa, vai dar lugar ao Museu do Cante, com várias valências, entre elas um arquivo sonoro. Gostaria que esta sua recolha lá constasse?
Nunca ma pediram, mas eu não quero guardar as coisas só para mim. Fico contente se um dia a Casa do Cante quiser copiar aquilo tudo e até, eventualmente, passá-lo para outro suporte, porque as cassetes deterioram-se.
E agora, o que será do cante? Como se faz jus à classificação que a Unesco lhe atribuiu?
O Alentejo merece esta distinção e merece porque fez e está a fazer por ela. O cante alentejano, neste momento, já não está a ser cantado só por pessoas de idade avançada; já chegou a grupos de jovens e até às crianças. E as câmaras municipais, honra lhes seja feita, têm feito muito por isso. Há vários concelhos onde as crianças das escolas estão a ser sensibilizadas e ensinadas a amar o cante alentejano. Por exemplo, este ano, na Ruralbeja atuou um grupo de crianças das escolas a cantar cante alentejano, acompanhado à viola campaniça por dois professores, o Paulo Colaço e a Ana Albuquerque, e com muito bom resultado. No youtube, podemos encontrar um vídeo onde cerca de 500 crianças das escolas de Beja cantam o “castelo de Beja”. Isto é um sinal de que o cante alentejano tem futuro. Ainda há pouco tempo, eu fui com o Coro do Carmo cantar a Pias, era uma noite de Cante ao Menino, cantou o grupo coral dos adultos e depois cantou um grupo coral muito recente, que tem uns meses apenas, de rapazes, de jovens, que se chamam Os Mainantes… E cantam bem, boas vozes, isto para não falar já dos nossos Bubedanas e de outros grupos que há por aí… Isto há 10, 15 anos atrás não acontecia, e toda a gente estava aflita. Mas eu agora acredito que não desaparece, que a classificação do cante como Património Cultural da Humanidade também deu muito impulso às comunidades locais para estimularem os adultos a transmitir o testemunho aos jovens e às crianças, e é o que está acontecer. Essa era, aliás, uma das condições da classificação. Uma das perguntas que nos deram um bocado de luta no preenchimento do formulário era como se iria garantir a preservação do cante, o futuro do cante. E tivemos, de facto, que encontrar formas de convencer os senhores da Unesco de que o Alentejo era capaz de pôr também os jovens e as crianças a cantar para garantir o futuro. E isso está a acontecer.
Não teme que, passada esta euforia pós-classificação, se possa dar um passo atrás?
Eu acho que não, não me parece. O bichinho fica lá. O cante nas escolas é um rastilho, vai pegar seguramente. Tenho a certeza que sim. As crianças pequeninas, algumas de cinco, seis anos, já estão a cantar à alentejana!

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