Seguir Cristo não é jogar com a sorte, é uma cartada segura de quem confia no resultado e sabe do grande retorno que terá com o investimento
«Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo». Jesus começa a missão que o Pai lhe confiara. Vimos no artigo anterior que Jesus, depois da prisão de João Batista, faz um retiro de quarenta dias, colocando-se em oração junto ao Pai, para, em seguida, iniciar a sua vida pública. Lembrávamos que o Tempo Comum é o tempo de Jesus e da Igreja. Nesta catequese veremos como Jesus começa essa missão.
Por José Barbosa de Miranda | BRASíLIA, 23 de Janeiro de 2015 | Zenit.org
Jesus, que nasceu no sul da Palestina, perto de Jerusalém, Judeia, parte para o norte, Israel, e começa seu ministério na Galileia, região da Samaria, conhecida pelos judeus como pecadora. Ele dá início à sua pregação proclamando: “Cumpriu-se o tempo e o Reino e Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Jesus, nessa exortação, lembra que todas as etapas projetadas pelo Pai, para a salvação da humanidade, foram concluídas. A Antiga Aliança terminou, os tempos se completaram, não só as Escrituras, mas toda a economia da salvação foi levada à plenitude. E com Ele se inicia a última parte para implantação definitiva do Reino de Deus, pois, “Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a Lei, para remir os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial” [1].
A pedagogia da Lei conduziu os filhos até o Mestre, seu papel chegou ao fim, pois sua missão foi temporária, e agora chega à sua complementação pela graça e pela fé em Cristo[2]. O Pai, na preparação para implantar o Reino, elegeu Patriarcas e Profetas, para, através deles, comunicar seu plano. Agora envia Aquele que, desde a fundação do mundo, já tinha a missão redentora: “Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas, agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos” [3]. Então, cumpriu-se o tempo. Inicia-se a etapa final do projeto do Pai, em seu Filho. Mas há duas condições essenciais para participar desse Reino: arrepender-se e crer. Isso exige uma mudança total para receber a última etapa do projeto divino.
O tempo de Jesus é caracterizado pelo seu radicalismo. Nele não há o depois, mas o aqui e agora. Esse tempo não pode ser fragmentado nem parcelado, mas definitivo e sem restrição. Se não houver uma adesão radical a Cristo, não pode fazer parte do seu Reino[4].
Jesus rompe com todas as tradições. Não dá prosseguimento nem aos sacerdotes da Lei nem a João Batista. Ele sai do centro do juízo da vingança que se aproxima para o anúncio do Deus que ama a vida e a dá gratuitamente, do ensinamento da conversão para a ação em favor da vida, da marginalização no deserto para a vida com os marginalizados da Galileia, da concepção nacionalista do reino sobre os pagãos para expectativa do Reino de Deus sobre todos os povos, dos rituais legais para o amor concreto aos que sofrem. Uma nova e última etapa começa com o tempo de Jesus e da Igreja.
JESUS TOMA UMA DECISÃO
Jesus, para implantar o Reino de Deus através da sua Igreja, toma uma decisão importante: chama companheiros para ajudá-lo no projeto. Já havia algum tempo que Ele estava anunciando o Reino de Deus, mas quer outros na sua missão. Foi um dia à beira do mar da Galileia, no horário em que pescadores lançavam as redes. Viu dois irmãos pescando, Simão e André. Olha para eles e lhes convida: “Vinde em meu seguimento, eu vos farei pescadores de homens” [5]. Era o convite para deixar um trabalho conhecido e assumir outro desconhecido, deixar algo que era pessoal para aceitar um que diz respeito à vida de outras pessoas. O convite deu resultado: “deixaram as redes e o seguiram”. Jesus convidou gente do povo, trabalhadores sem formação especial, nem pertencente a grupos de elite. Para formar a Igreja de Cristo não precisa ter especialização, nem estudos refinados, apenas disponibilidade e predileção pelo amor. Esta é a proposta catequética para adultos que têm liberdade de escolha.
Marcos continua o relato sobre os primeiros seguidores de Cristo, dizendo: “Viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco consertando as redes. E logo os chamou. Eles, deixando o pai com seus empregados, partiram em seu seguimento” [6]. Abandonar-se em Cristo para formar Igreja.
UMA CATEQUESE SOBRE O REINO DE DEUS
Uma visão global sobre o relato de Marcos provoca uma resposta adulta ao chamamento de Cristo: ir ao seguimento de Jesus é participar de sua missão, um caminho de cruzes, mas de gratificações; de confusão extenuante, mas recheado de excitações; de poder e impotência irresistível, mas com reverência. Constrói uma resposta ao convite: sim, deixo tudo e Te sigo, não só com uma experiência de conversão radical, mas perseverante, continuada, até o fim.
É bom recordar o que foi dito sobre o TEMPO COMUM: é o tempo de Cristo e da Igreja. E neste artigo já estamos vendo como eles caminham juntos. Enquanto Cristo anuncia o Reino, convoca companheiros para nele trabalharem. Esse primeiro envolvimento de André, Tiago, João e Pedro com Jesus é só o começo de uma viagem empolgante e cheia de surpresas. Eles estarão com Jesus em momentos que provam seu poder, o propósito de sua vida e de sua glória (Mc 1,29-31; 5,37-43; 9, 2-13; 13, 1-37). Também deixarão que sua fraqueza humana se manifeste (Mc 8,27-33; 10,35-45; 14,33-43; 15,66-72).
Podemos concluir que Deus não pertence a um grupo de escolhidos; Deus é de todos e Pai de todos. Às vezes temos dificuldades para deixar alguma coisa e seguir Jesus. Falta a coragem do abandono. Seguir Cristo não é jogar com a sorte, é uma cartada segura de quem confia no resultado e sabe do grande retorno que terá com o investimento.
[1] Gl 4,4
[2] Cf. Rm 6,14
[3] Hb 1,1-2
[4] Jo 6, 66-67
[5] Mc 2,17
[6] Mc 1, 19-20

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