Grupos pedem ao Vaticano para diversificar as vozes leigas no Sínodo sobre a família


Durante o Sínodo dos bispos sobre a família realizado no Vaticano em outubro de 2014, vários casais de diferentes partes do mundo foram convidados a participar como representantes do laicato católico. Um casal americano, Alice e Jeff Heinzen, falou sobre a beleza da vida familiar e as vantagens do planejamento familiar natural, uma prática adotada nos ensinamentos da Igreja.

A reportagem é de Soli Salgado, publicada no sítio National Catholic Reporter, 13-02-2015. 
A tradução é de Claudia Sbardelotto.

Entretanto, Deborah Rose-Milavec, diretora executiva da FutureChurch, disse: "Embora as suas vozes devem ser representadas, elas não devem ser super representadas. A finalidade do Sínodo é abrir novos caminhos sobre questões da vida familiar e desenvolver práticas pastorais que se estendam aos católicos que não se sentem bem acolhidos porque não vivem inteiramente em conformidade com o ensino e a prática atual".

Num esforço para "ampliar o círculo" no segundo sínodo sobre a família, previsto para outubro de 2015, grupos de reforma como FutureChurch, Voice of the Faithful e American Catholic Council redigiram uma petição pedindo que uma maior diversificação de leigos seja convidada. Vinte outras organizações se juntaram à causa. A carta, que foi lançada no dia 21 de janeiro, está endereçada ao cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo dos Bispos, e aos bispos do mundo. Os organizadores planejam entregá-la no dia 4 de março, pelo correio e por e-mail para os bispos, além de entregar uma cópia pessoalmente a Baldisseri, no Vaticano.

A petição nomeia grupos de pessoas que serão discutidos de acordo com o documento do sínodo de 2014, conhecido como Lineamenta, e, portanto, devem ser incluído na conversa:

• divorciados e recasados;
• casais que vivem juntos;
• famílias inter-religiosas;
• famílias carentes;
• famílias monoparentais;
• famílias com membros que são lésbicas/gays, bissexuais ou transexuais;
• casais homoafetivos;
• famílias que sofrem com a violência da guerra e abusos.

"Você não será capaz de cuidar destas questões sem ter um diálogo real, e você não pode ter esse diálogo sem essa experiência na sala", disse Ryan Hoffman, diretor de comunicações do Call for Action, uma das coligações que faz parte da petição. Ele acrescentou que, para este sínodo ter credibilidade e relevância, "temos de ser capazes de discordar, de inclinar-se à confusão de discordâncias, diferentes visões e experiências de fé. Será que estamos prestando atenção para onde Deus está levando a Igreja, para os sinais dos tempos, à medida que embarcamos neste sínodo?".

O processo de petição inclui assinaturas online e reuniões com bispos participantes do Sínodo para apresentar recomendações de leigos católicos que poderiam fornecer perspectivas valiosas. A petição estará online até 3 de março.

Uma pesquisa realizada antes do sínodo 2014 por um grupo de membros do Catholic Organizations for Renewal [Organizações Católicas para a Renovação] - incluindo o Call to Action, DignityUSA e FutureChurch - revelou uma crise pastoral na Igreja.

Algumas das questões que muitos dos 16.514 entrevistados especificamente mencionaram incluem:

• a necessidade de mais pastorais para pessoas separadas, divorciadas, recasadas e uniões do mesmo sexo;
• um desafio pedagógico, já que muitas respostas incluíram "Eu não sei" quando perguntadas sobre a misericórdia de Deus;
• igualdade no casamento, com quase 75% dos participantes dizendo que isso era "extremamente" ou "muito" importante para eles;
• a necessidade de mais papéis para as mulheres na Igreja (uma questão que muitas vezes surgiu espontaneamente);
• uma discussão mais aberta sobre os escândalos de abuso sexual da Igreja.

"A diferença entre o povo da Igreja e sua liderança é muito evidente, e, infelizmente, cada vez maior", disse Marianne Duddy-Burke, diretora executiva do DignityUSA, um grupo LGBT católico.

Ela acrescentou que a paixão, a intensidade e a abertura nas respostas era um "testamento da profundidade de fé e compromisso [com a Igreja]. Os católicos estão desejando muito o tipo de diálogo que o Papa Francisco pediu, e prontíssimos para expressar suas esperanças, sonhos e frustrações com a Igreja".

O modelo de sínodo da Igreja, desenvolvido 50 anos atrás, foi originalmente destinado a tornar-se um processo inclusivo tanto para bispos quanto para os leigos do mundo - um processo que, segundo Rose-Milavec, o Papa João Paulo II "limitou seriamente ao centralizar a autoridade durante seu papado". Ela disse que Francisco, no entanto, está reestruturando o sínodo para que ele funcione como originalmente previsto, ao inverter a tendência de João Paulo e "descentralizando" a autoridade e o poder do papado.

"Embora isso seja bom, em última análise, precisamos de uma Igreja que reconheça que todos os batizados, leigos e ordenados, receberam de Deus sabedoria, fé, esperança e amor que podem guiar a Igreja para o futuro", disse ela.

A rede de TV Salt and Light, o único meio de comunicação permitido dentro do Sínodo, revelou que muitos bispos estão interessados ​​em torná-lo um ambiente mais participativo para mais tipos de famílias, acrescentou Rose-Milavec.

Com bispos, leigos e Francisco, todos mostrando interesse em ampliar o círculo de discussão, várias organizações disseram que estão otimistas sobre estes esforços.

Donna Doucette, diretora executiva do grupo Voice of the Faithful, disse que, embora o clericalismo tenha causado uma inerente falta de contato entre os bispos e as famílias, Francisco está diretamente cuidando dessas questões, inspirando confiança de que "os nossos esforços, especialmente à luz da aparente visão de Francisco", irão levar a uma Igreja sensível a todos os fiéis".

Vários apoiadores da petição salientaram que esses esforços estão sendo feitos não por desprezo, mas por compaixão, com o desejo de uma visão mais abrangente de Cristo e da Igreja.

"Nós nos preocupamos tanto com a nossa fé, que não podemos deixar de ser católicos", disse Hoffman. "É por isso que estamos neste trabalho. Estamos nos esforçando pelo melhor para todos os católicos, para as pessoas que amam a Igreja, mas que sabem que pode ser melhor, também, de diferentes maneiras. É por isso que continuamos a levantar-nos como testemunhas, para dizer que amamos a nossa fé. É desse amor que brota a percepção de que pode ser melhor".

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