Retiro online de Quaresma - uma proposta do bispo de Leiria-Fátima: Dom e missão da família: 1.º dia - “Crescei e multiplicai-vos...” - Família, berço de vida e de fecundidade


“Crescei e multiplicai-vos...”
Família, berço de vida e de fecundidade

Acolhimento e saudação aos participantes
1.      Invocação do Espírito Santo / Oração inicial
1.1.   Cântico (a escolher; proposta: Deixa Deus entrar...)
1.2.   Prece
Senhor, eis-nos aqui para escutarmos a Tua Palavra:
abre-nos os ouvidos, ilumina o nosso entendimento
e toca o nosso coração com a tua graça,
para compreendermos o que nos queres dizer,
experimentarmos a alegria do teu amor
e vivermos o que nos ensinas sobre a família.
Ámen.
2.      Escuta e compreensão da Palavra
2.1.   Leitura do livro do Génesis (1, 26-28.31a)
Disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, sobre os animais selvagens e sobre todos os répteis que rastejam pela terra”.  Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus. Ele os criou homem e mulher. Deus abençoou-os e disse-lhes: “Crescei e multiplicai-vos; enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem na terra”.
Deus viu tudo o que tinha feito: era tudo muito bom”.
Palavra do Senhor
2.2.   Leitura pessoal (voltar a ler, em silêncio: o que diz o texto?)
2.3.   Notas para a compreensão do texto
O texto de Génesis 1, a que se refere esta passagem, terá sido escrito no tempo do exílio,  no séc. III a.C., não existindo um autor no sentido moderno do termo, mas apresentando uma profunda meditação teológica, uma doutrina sapiencial dos sacerdotes. Assim sendo, o texto resulta de um saber de séculos, transmitido oralmente de geração em geração. Por outro lado, através da narração da criação, o autor sagrado não pretende explicar a origem do universo, nem tão-somente demonstrar a potência de Deus isoladamente, mas ensinar que Deus está na origem de tudo, e que só Ele pode e quer salvar a humanidade. É o início da história da salvação.
A criação tem o seu expoente máximo na criação do ser humano. Deste modo, Deus, no seu ato criativo parte do menos para o mais perfeito, sendo que este, o homem, a coroação de toda a criação, possui algo de divino, é semelhante a Deus, e por isso se distingue de todos os animais, conferindo-lhe uma dignidade única.
Por outro lado, a humanidade criada por Deus é, desde o início, diferenciada no masculino e feminino. É esta humanidade sexuada que é explicitamente declarada “imagem de Deus”, reconhecendo igual dignidade a ambos, homem e mulher. Deus não cria o ser humano isolado, cria-o em relação, pelo que este é um ser eminentemente social, relacionando-se consigo próprio, com Deus, com os outros e o mundo. Acresce ainda que esta relação também é sexuada, ou seja, estas duas realidades imanentes no ser humano existem em simultâneo. Sendo o homem e a mulher imagem e semelhança de Deus, significa isto também que Deus vive em relação e tal verdade foi-nos revelada em Jesus Cristo.
“Crescei e multiplicai-vos; enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem na terra”. Deus cria o ser humano à sua imagem e semelhança, no sentido em que todos somos chamados a participar deste amor divino e a colaborar com Ele no “cuidar” da Criação. Assim, homens e mulheres, todos somos chamados, não só a cuidar da natureza e a desenvolve-la em prol de todos, mas a tornar fecundas todas as relações, particularmente a conjugal e a filial.
Por fim, Deus “viu tudo o que tinha feito: era tudo muito bom”, pois tudo foi criado por amor e, por isso, tudo o que foi criado é bom para toda a humanidade e revelação do amor de Deus por nós.     
3. Tópicos para a meditação pessoal (o que me diz o texto?)
a) “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.”
São João Paulo II, na exortação apostólica Familiaris Consortio, escreveu que “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança: chamando-o à existência por amor, chamou-o ao mesmo tempo ao amor. Deus é amor e vive em si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor. Criando-a à sua imagem e conservando-a continuamente no ser, Deus inscreve na humanidade do homem e da mulher a vocação, e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão. O amor é, portanto, a fundamental e originária vocação do ser humano”.
Deus criou-nos por amor e para o amor… à Sua imagem e semelhança, distinguindo-nos de todos os outros seres vivos. No coração de cada homem e mulher, existe, portanto, esta centelha divina que nos impele ao bem, que nos faz mais felizes quanto mais fiéis somos a este chamamento ao amor.
- Sinto-me consciente desta graça que me é dada por Deus de ser semelhante a Ele e agradeço-Lhe a alegria de fazer parte deste mistério de amor?
- Assumo a responsabilidade que isto implica na minha vida, ou seja, sou no meu quotidiano sinal da presença de Deus para os outros, promovendo o diálogo, o respeito e a harmonia?  
b) “Ele os criou homem e mulher.”
 “Esta passagem concisa contém as verdades antropológicas fundamentais: o homem é o ápice de toda a ordem criada no mundo visível; o género humano, que se inicia com a chamada à existência do homem e da mulher, coroa toda a obra da criação; os dois são seres humanos, em grau igual o homem e a mulher, ambos criados à imagem de Deus. (…) O texto bíblico fornece bases suficientes para reconhecer a igualdade essencial do homem e da mulher do ponto de vista da humanidade. Ambos, desde o início, são pessoas, à diferença dos outros seres vivos do mundo que os circunda. A mulher é um outro «eu» na comum humanidade” (João Paulo II, carta apostólica Mulieris dignitatem).
Desde o início dos tempos, Deus deseja que a união de amor entre o homem e a mulher seja sacramental, ou seja, que assuma contornos que vão para além da humanidade de cada um, sendo sinal do amor que é Deus.
- Reconheço igual dignidade no outro, apesar das diferenças, seja esposa, esposo, filho, filha, irmão, colega, e vejo em cada um a presença de Deus, amando-o como tal?
- Na relação conjugal, dou-me conta de que o matrimónio não é apenas junção temporária de vontades, que pode variar segundo os “apetites” e desejos momentâneos, mas caminho desejado e amado por Deus para nossa alegria profunda e dos outros, e por isso, para sempre? Conto com Deus na superação das nossas dificuldades e naturais egoísmos? 
- Tomo consciência, quer seja casado(a), solteiro(a), consagrado(a), celibatário (a) da importância do sacramento do matrimónio na concretização do desígnio divino de salvação da humanidade, contribuindo, deste modo, para a paz e harmonia dos casais que me rodeiam? 
c) “Crescei e multiplicai-vos; enchei e dominai a terra.”
“Na sua realidade mais profunda, o amor é essencialmente dom e o amor conjugal, enquanto conduz os esposos ao «conhecimento» recíproco que os torna «uma só carne», não se esgota no interior do próprio casal, já que os habilita para a máxima doação possível, pela qual se tornam cooperadores com Deus no dom da vida a uma nova pessoa humana. (…) Tornando-se pais, os esposos recebem de Deus o dom de uma nova responsabilidade. O seu amor paternal é chamado a tornar-se para os filhos o sinal visível do próprio amor de Deus, «do qual deriva toda a paternidade no céu e na terra»”. (Familiaris Consortio)
 - Em que medida tenho sido colaborador de Deus, generoso na abertura à vida e no dom do amor, quer em relação aos filhos quer para com outros que Deus vai colocando no meu caminho?
 - Na decisão de ter filhos, o que coloco em primeiro lugar: o dom do amor e da vida, o dinheiro e as condições económicas, o bem-estar pessoal e social? Já alguma vez pensei em adotar, caso não consigamos ter filhos biológicos?
4.      Partilha da Palavra (do dom recebido, o que posso oferecer aos outros?)
Cada pessoa, de forma espontânea e breve, poderá repetir uma palavra ou frase do texto bíblico que mais a tenha interpelado, dizer o motivo pelo qual a frase a tocou ou apresentar algo do que tenha meditado ou sentido.

5.      Oração (a partir da Palavra, que digo eu ao Senhor?)
Cada um pode fazer uma oração espontânea a partir da Palavra ou do testemunho, ou dizer juntos a seguinte  oração:
Ó Deus, Tu és Pai e origem de toda a vida.
Fizeste o ser humano à Tua imagem e semelhança
e deixaste nele o desejo de buscar o Amor que o preenche e faz feliz.
Faz com que cada casal e família
encontre em Ti a fonte eterna de Vida e Amor.
Por Jesus Cristo, teu Filho, na unidade do Espírito Santo.

6.      Conclusão/ação (a que mudanças me convida o Senhor?)
Momento de silêncio para cada um formular um propósito pessoal e, se for o caso, propor um gesto ou iniciativa comunitária.
·         Compromisso
·         Cântico final (a escolher; proposta: Deixa Deus entrar...)

Em casa: No seguimento do encontro de grupo, cada pessoa procurará dedicar algum tempo (15-20 minutos), num ou mais dias da semana, para retomar a meditação e contemplação da Palavra de Deus e nela encontrar a luz e a força de Deus para a sua vida no dia-a-dia.

Comentários