O Papa Francisco, advertiu desta forma, os mais de 80 mil membros do movimento Comunhão e Libertação (CL), este sábado na Praça de São Pedro, em Roma. O movimento encontra-se a celebrar o 10º aniversário da morte do seu fundador, Luís Giussani e os 60 anos da sua fundação.
Não pretendo deambular sobre o CL, nem tão pouco interpretar as palavras do Santo Padre como sendo dirigidas apenas a este movimento eclesial. Aliás, já anteriormente, Francisco tinha estado com os Neocatecumenais, os Focolares e a Comunidade de Sant'Egidio. O meu propósito é, partindo do discurso do Papa, "retirar" a mensagem para cada um de nós.
Com todos os movimentos, reforçou a visão de uma Igreja centrada em Cristo e só depois sobre os carismas. Uma Igreja que tem como primeira tarefa "sair" a fim de "rejeitar a autorreferencialidade, em todas as suas formas", "saber escutar quem não é como nós, aprendendo com todos, com sincera humildade".
No seu discurso, o Papa, agradeceu a Luís Giussani pelos seus escritos. "O seu pensamento é profundamente humano e chega ao mais intimo do âmago do ser humano", porque sublinha "a experiência do encontro: não com uma ideia, mas com uma Pessoa, com Jesus Cristo". Não se pode compreender esta dinâmica de encontro sem a misericórdia. "Só quem foi acariciado pela ternura da misericórdia, conhece verdadeiramente o Senhor. O lugar privilegiado do encontro é o carinho da misericórdia de Jesus Cristo para com o meu pecado. É graças a este abraço de misericórdia, que vem a vontade de responder e de mudar, é que pode brotar uma vida diferente".
O caminho da Igreja passa por nunca condenar ninguém eternamente, mas por espalhar a misericórdia de Deus a todas as pessoas que a pedem com um coração sincero. Este caminho passa por sair do seu próprio espaço e procurar aqueles que estão longe, nas "periferias" da existência.
Francisco pede a todos nós para colocar Cristo no centro, antes da espiritualidade e dos carismas: "O carisma não se conserva numa garrafa de água destilada! Fidelidade ao carisma não quer dizer «petrificá-lo» - é o diabo que «petrifica» - não quer dizer, escrevê-lo num pergaminho e metê-lo num quadro." A fidelidade à herança de uma carisma não pode reduzir-se a um museu de recordações, de decisões definitivas e de normas de conduta definidas de uma vez para sempre.
O Papa advertiu o CL: "Dom Giussani nunca vos perdoaria se perdêsseis a liberdade e vos transformásseis em guias de um museu ou adoradores das cinzas. Tende vivo o fogo da memória daquele primeiro encontro e sede livres! Assim, centrados em Cristo e no Evangelho, podeis ser braços, mãos, pés, mente e coração de uma Igreja «em saída». A estrada da Igreja é sair para andar a procurar os que estão longe, nas periferias, e servir Jesus em cada pessoa marginalizada, abandonada, sem fé, desiludida com a Igreja, prisioneira de si própria".
Este discurso do Santo Padre, não é novo nem circunstancial. Já no passado mês de Janeiro, na missa do dia 28, tinha dito: "Deus salva-nos num povo, não nas elites, que nós, com as nossas filosofias ou o nosso modo de entender a fé tenhamos feito". Este modelo de "privatizar" a salvação é errado. O Evangelho dá-nos os critérios para o evitar: a fé em Deus que nos purifica; a esperança que nos impele a seguir em frente e a caridade.
"Para não a privatizar (a salvação de Deus) devo perguntar a mim próprio se eu falo, comunico a fé; falo, comunico a esperança; falo, faço e comunico a caridade. Se numa comunidade não se fala, não se dá ânimo uns aos outros nestas três virtudes, os componentes dessa comunidade privatizaram a fé. Cada um procura a sua própria salvação, não a salvação de todos, a salvação do povo". (...)"Desprezam os outros; desertam da comunidade total; desertam do povo de Deus; privatizaram a salvação; a salvação é para mim e para o meu grupinho, mas não para todo o povo de Deus. E isto é um erro muito grande. É aquilo que chamamos e que vemos – as «elites eclesiais»",disse o Papa na ocasião.
A crónica já vai longa...
Porém, a mensagem de Francisco parece-me muito atual! Um grande contributo para a reflexão quaresmal.
Em quem "deposito" a minha fé? Em mim? No meu grupo? No meu movimento? Na minha comunidade religiosa ou paroquial?
Consigo "sair" do meu eu, do meu Grupo, da minha Comunidade e ir ao encontro do outro que está na "periferia"?
É uma fé, falada? Comunicada? Celebrada?
Ou apenas uma "etiqueta"?
Paulo Victória | Cronista
Licenciado em Teologia. Professor de EMRC. Adora fazer Voluntariado.

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