Eu sou uma canção, solta no espaço,
que o vento apanha e leva a grande altura!
Uma canção de Graça e de Mistério;
sim, tão cheia de Graça e de Mistério,
que nós nos escutamos uma à outra.
Mesmo que ande no chão, filha da terra,
fechada nesta carne do meu corpo,
eu sou canção sugada pelo vento
e colhida por Deus, na eternidade,
a fim de crepitar em Sua chama.
O que posso fazer ou que dizer
aos que ficam atrás e não conseguem
ser um canto, como eu, uma canção
que o vento colhe e leva em suas asas?
Eu sou uma bailarina – pés em ponta –
tocando, levemente, a eternidade,
dançando sobre as águas do infinito!
O que posso fazer ou que dizer
aos que ficam atrás, frios, inertes...
e, parados no tempo, não conseguem
dançar assim como eu – leveza e pluma –
pairando sobre as ondas do Infinito?
Eu sou uma mulher – fogo e paixão –
apaixonada, sim, pelo meu Deus!
Vivo aqui neste mundo, mas no céu
é que tenho morada permanente.
Eu oscilo, em perfeita liberdade,
pendulando entre o mundo e a eternidade,
indo da terra a Deus, de Deus à terra,
sempre no ritmo desta eterna dança!
Há quem fale de mim como estrangeira
e há, também, quem me julgue néscia e tola...
Não sabem, esses pobres que assim pensam,
que sou uma bailarina, uma canção
e uma mulher de fogo, apaixonada
pelo meu Deus, meu Rei, meu Salvador!
Toda a minha tragédia, neste mundo,
consiste em não poder dizer aos homens
que venham todos eles ser também
uma existência transformada em canto,
uma vida dançando rumo ao céu,
apaixonados sempre por seu Deus.
Mas todos eles são mudos e surdos;
não cantam nem escutam o meu canto;
tampouco vêem a Deus porque são cegos.
Ah, meu Amado, dai-lhes a visão,
dai-lhes a voz e dai-lhes audição;
assim eu poderei levá-los todos
rumo aos ventos do céu e ao Teu Amor!
Catarina de Hueck Doherty, Alma da minha Vida
P.e Héber Salvador de Lima, S.J., Tradutor
A vida de Catarina Doherty é fascinante. Nascida na Rússia em 1896, faleceu no Canadá em 1985, aos 89 anos de idade, e cinco anos mais tarde foi iniciado o processo da sua beatificação.
Filha da nobreza, teve de fugir da Rússia para a América, por causa da Revolução Bolchevique de 1917.
Depois de muitas peripécias em que teve de fazer de tudo para sobreviver (empregada doméstica, moça de balcão, criada…) e de ter chegado às bordas do suicídio, a sua sorte mudou quando a convidaram a fazer uma palestra. Tornou-se conferencista famosa. Mas a experiência pessoal da pobreza levou-a a dedicar a sua vida aos pobres.
Profundamente feminina, a sua sensibilidade desabrochou plenamente na sua espiritualidade. Catarina explorou de mil maneiras, sobretudo no fim da sua vida, a frase ardente do Cântico dos Cânticos: «Que ele me beije com beijos da sua boca!» (Ct 1,2). Isto aproxima-a muito do místico-poeta que ela tanto admirava, São João da Cruz, em cuja festa ela morreu (14 de Dezembro).
A sua vida tornou-se um novo cântico ao Amado, «Alma da sua vida». Eis como o exprime num texto (em ritmo decassílabo, apesar de estar em prosa no original).

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