«Por que as pessoas se divorciam?», Um contributo da Conférence Catholique des Baptisées Francophones para o Sínodo sobre a família


Este artigo da psicóloga francesa Nicole Jeammet foi publicado no sítio Baptises.fr, 24-02-2015. 

A tradução é de Moisés Sbardelotto.
 Nicole Jeammet é professora honorária em psicopatologia da Universidade Paris V, 
e autora de livros como Amour sexualité tendresse, la réconciliation? (Ed. O. Jacob, 2005) 
e Lettre aux couples d'aujourd'hui, com Philippe Jeammet (Ed. Bayard, 2012)


Nós todos somos tributários da sociedade em que vivemos: com a reivindicação da igualdade entre homem e mulher, agora cada um quer realizar individualmente a própria vida como pessoa livre. Por toda a parte, a sexualidade é exibida, e as proibições e os limites se borram em favor de dois imperativos: realização pessoal e autonomia, sob a ditadura do instante.

Certamente, a vida está na relação, e todos nós precisamos do espelho que é o olhar do outro para sentir que existimos. É o olhar do outro sobre mim que constrói ou me impede de construir uma autoestima, isto é, aquilo que constituirá as minhas bases narcísicas.

Ora, paradoxalmente, quanto mais as experiências precoces me retornarem uma má imagem de mim mesmo e quanto mais eu precisar de um olhar sobre mim, menos eu poderei aceitá-lo se ele vier de um "outro" – o medo de depender desse outro, em quem eu não tenho confiança, me obrigará a pôr em ação estratégias de autossuficiência para sobreviver, porque, em vez de me encontrar no olhar do outro, tenho medo de me perder.

Nesse contexto, entende-se que se torna difícil se inscrever na duração, em que as inevitáveis desilusões ou decepções envolverão, imediatamente, a perda de confiança em si mesmo (em reflexo dessa perda de confiança no outro), a necessidade de ser novamente dono da situação, em outros lugares e de outra forma.

A questão, então, se torna: o que permite esperar? O que permite aceitar depender do outro, quando ele pode me fazer sofrer? Talvez não seria o fato de se ter suficientemente conquistado a própria autonomia, de modo a não ter mais aquela necessidade absoluta do outro para se sentir que se existe?

Com a sexualidade, encontramo-nos no cruzamento das contradições daquilo que constitui o humano, contradições entre o corpo e a psique, isto é, entre sensação e emoção, contradições entre si (o que eu desejo) e o outro (o que ele deseja), e também no interior de si mesmo, contradições entre desejos inconciliáveis, como por exemplo a necessidade de apego e de segurança, e a necessidade igualmente existencial de mudança e de liberdade. Então, é verdade que, se, em um casal, cada um busca apenas a sua própria realização pessoal, o casal terá poucas chances de durar...

O que acontece em um encontro amoroso? Totalmente de repente, eu me sinto importante para alguém... e quanto menos eu me sentir em segurança, mais terei a tendência de querer absolutizar esse momento. Tenha tanta necessidade de acreditar em um amor perfeito do qual esteja excluído todo sentimento negativo! E é verdade que um certo discurso católico idealizante reforça essa visão das coisas.

Por exemplo, esta pequena passagem de Lettre à Laurence, de Jacques de Bourbon-Busset: "Estávamos inteiramente devotados um ao outro. Nem sequer nos percebíamos. Para nós, um amor era devotado ou não existia"!!!

Os excessos se respondem: o "bom demais", em outras palavras, a idealização, sempre tenta lutar contra o "ruim demais". Nessa necessidade de absoluto e de perfeição, abre caminho o mau amor de si mesmo e a dúvida sobre o próprio valor. Pode-se formular assim a pergunta lancinante que está latente no fundo: "Se alguém realmente me conhecesse, poderia me amar?".

A estratégia, então, consiste em se proteger do poder que o outro poderia ter sobre mim e do sofrimento nascido das emoções que a relação faz nascer, retomando o domínio, custe o que custar.

Qual o melhor meio de se conseguir isso do que a ruptura e, depois, a redescoberta de uma imagem "maravilhosa" de si mesmo em um novo olhar? Porque, então, aquilo que eu amo não é esta ou aquela pessoa, mas é "o amor".

Portanto, não se domina tudo em uma relação: de um lado, somos dois, e o outro sempre permanece livre para partir ou para ficar; mas, mais terrível ainda, eu não sou totalmente dono nem mesmo de mim mesmo/a.

Nessas condições, não é errado dizer e afirmar com insistência que certos divórcios podem ser protetores de vida:

Ninguém escolhe um parceiro por acaso, e, nessa "escolha", sempre há uma parte de repetição de experiências: quanto mais elas forem traumáticas, mais a necessidade de reparação da imagem de si mesmo levará ao apego e à idealização e, depois... àquilo que esse mesmo reencontro permitir, em seguida, em termos de coconstrução ou de codestruição.
E há o outro, com as suas próprias feridas, que poderá, de repente, me deixar... simplesmente para sobreviver e reencontrar uma indispensável valorização alhures.
Gostaria de concluir falando sobre essa experiência, fundadora para um casal, da prova da desilusão... e de como cada um a vive. O tempo fundante do encontro amoroso certamente é aquele em que nos vemos magnificados no olhar do outro. Mas a ilusão é parar esse tempo, absolutizando-o, e não querer reconhecer tudo o que há também de malvado em cada um.

No fundo, o paradoxo é que esse olhar externo tão valorizador para mim não deve ser tomado como uma constatação, mas como uma promessa de porvir que eu devo pôr em ação e da qual devo me apropriar, assumindo a minha solidão.

E é desenvolvendo os meus talentos nos quais o outro acreditou que eu encontrarei dentro de mim aquela "beleza" sob a forma de autoestima. Portanto, quanto mais eu conquistar a minha independência, quanto mais eu construir o meu próprio território e quanto mais eu assumir a minha solidão, menos terei a dependência do outro me dará medo. E, paradoxalmente, quanto menos eu precisar do outro para me sentir válido, menos eu serei apto a entretecer vínculos autênticos.

E esse entrelaçamento se verificará na capacidade de "compartilhar o prazer", todos os prazeres, pequenos e grandes.

Amar não seria, talvez, simplesmente, buscar como dar prazer a quem está perto de mim e, em resposta, tentar receber o que ele/a me dá, do modo como me dá? Não seria, talvez, os pequenos atos de atenção e de ternura compartilhados, que revelam cada um a si mesmo e fazem com que se desfrute aquela formidável felicidade de um viver-juntos?


Nicole Jeammet et Philippe Jeammet - Lettre aux... por Librairie_Mollat

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