«Jesus Cristo define a sua relação connosco com uma chave familiar: "Eis a minha mãe, os meus irmãos"



O Cardeal Patriarca de Lisboa esteve no Colégio S. João de Brito, em Lisboa, na passada sexta-feira, para inverter a lógica da relação da família com a Igreja. Convidado a falar numa conferência com o título «A proposta da Igreja para a Família», D. Manuel Clemente inverteu a pergunta, para surpresa da plateia:
«É muito mais interessante falar da proposta da família para a Igreja e, pela Igreja, à sociedade, para que a Igreja se torne uma família também», disse o prelado, que explicou esta inversão com a importância que o próprio Jesus Cristo atribuiu, desde sempre, à estrutura familiar.


«Quando lemos os textos bíblicos, as alusões de Jesus à sua relação connosco, em que se refere como esposo, vemos a forma como fala de todos nós com uma chave familiar. Jesus nasce e é criado numa família, não dispensou o pai, que é adotivo, mas que tem muita importância e não é uma figura acidental. Essa conjugação maternal/paternal e a criação de Jesus numa família é a matriz do que Jesus fará a todos», defendeu o Cardeal Patriarca de Lisboa. «É por isso que mais tarde, durante a sua vida pública, caracteriza os outros como "a minha mãe, os meus irmãos", e isto é muito importante», sustentou o prelado.

Para «percebermos a compreensão cristã da família», D. Manuel Clemente referiu «Paulo, que, na carta aos Coríntios, diz "se se casarem, casem-se no Senhor", e isto é que é o sacramento. Hoje, a vida em Cristo não é entendida com esta radicalidade, é vista como realidade humana, que pode ou não funcionar, a partir de nós. Mas isso não é a vida em Cristo, porque parte de nós» e não de Cristo, explicou.

D. Manuel Clemente disse na conferência que «os 30 anos de vivência familiar de Jesus [de que muito pouco se sabe] são o ensaio para os 3 anos de vivência pública que tem com todos». «Os 30 anos de Jesus em Nazaré, apesar dos poucos versículos, são muito importantes. Os sentimentos esponsais de Jesus em relação ao povo a quem se entrega são reflexo do que aprendeu na sua vida familiar», disse D. Manuel. «A família é uma chave geral de interpretação do Cristianismo», adiantou na mesma conferência.

As vantagens do «exemplo»
Sobre esta necessidade de aprendizagem na família, o Cardeal Patriarca exortou a que as famílias ensinem pelo «exemplo», para que os filhos que um dia se tornem pais ou religiosos saibam como proceder. «Se não se aprende isto nesse primeiro "caldo de cultura" que é a realidade familiar, é muito complicado. As pessoas não podem transmitir uma realidade que não conheceram, em qualquer ministério que escolham viver. Como é que podemos entender o outro se não vivemos o mesmo que ele viveu?», questionou.

O Cardeal Patriarca enfatizou mais a questão familiar na Bíblia com o exemplo de S. Paulo, que, «para se referir às comunidades cristãs, utiliza a linguagem familiar e conjugal», razão pela qual também o Sínodo para a família de outubro passado defendeu, segundo D. Manuel Clemente, que se deveria «retomar o modelo das comunidades cristãs, sobretudo as de Paulo, que tem muitas referências familiares». «A articulação padres/casais é a chave da vida da Igreja, e retomar este modelo de apóstolo/casal é uma solução para o futuro e a prova do que a sociedade tem a fazer», disse o prelado, citando o exemplo da relação de apoio entre Paulo e o casal Áquila e Priscila, muitas vezes mencionado nas cartas do apóstolo. «Esta questão ainda nem saiu do átrio das igrejas, pois tem imensas consequências», avisou.

O desafio das redes sociais e do virtual
Apesar de reconhecer a importância da família na regulação das relações sociais, D. Manuel Clemente, em resposta a uma das questões colocadas pela plateia, mostra-se muito preocupado com a forma como a família vai ultrapassar o desafio que, hoje, o virtual coloca a cada núcleo familiar. «A realidade virtual, com todas as capacidades que tem, pode ocupar o espaço da relação real com quem está na mesma sala, mas num dispositivo diferente», disse o Cardeal Patriarca.

«Temos de incluir a questão virtual na família, é um novo desafio, que não sei como será integrado. Até porque tem uma carga informativa permanente que não conseguimos digerir», concluiu.

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