Como vivem hoje as comunidades católicas na terra que foi de Jesus?


Os peregrinos que visitaram a terra de Jesus foram mais de dois milhões em 2013, dos quais quase metade (49 por cento) eram católicos. Durante os meses de Verão, os grupos de peregrinos provêm de uma grande variedade de países. Durante o Inverno, o seu número diminui e os grupos prevalentes mostram o rosto de um Cristianismo mais multicultural: os grupos vêm sobretudo da África (Nigéria e Quénia), da Ásia (Hong Kong, Coreia do Sul, Taiwan, China) e das Américas (com a Argentina e o Brasil à cabeça).
Os grupos de peregrinos católicos assumem, aos olhos de quem aqui vive, um comportamento semelhante: vêm em grupo e testemunham a sua fé na visita aos lugares santos e numa vivência forte e emocionada. Poucos têm qualquer tipo de contacto com os católicos que aqui vivem. Quem aqui vem com mais tempo não deixa de perguntar a si mesmo: como vivem os católicos em Israel e na Palestina? Existem comunidades católicas? Que rosto têm, que problemas enfrentam? Foi à procura de respostas para estas e outras perguntas que nos propusemos escrever este texto, para dar aos leitores uma imagem actualizada da presença da Igreja Católica nestas terras.
A primeira impressão que se tem é que o contexto político em que vivem não lhes torna a vida fácil. O fosso de intolerância entre judeus e palestinos não pára de aumentar e a frustração atinge, dos dois lados, níveis que em nada ajudam a vida das comunidades católicas. O conflito tem feito aumentar a emigração. Localidades, como Nazaré e Belém, que chegaram a ter altas percentagens de população cristã e católica são hoje uma miragem do que foram no passado.

Manter presenças

A Igreja Católica tudo faz para manter a presença e apoiar a vida das comunidades, presença herdada de uma longa história de séculos e milénios. Uma certa imagem desta presença da Igreja está ligada à Custódia da Terra Santa e aos Franciscanos, que a encarnam, a criaram e dirigem há séculos. Graças a eles, a Igreja Católica tem hoje a propriedade de lugares ligados à vida de Jesus. Mas, além de preservarem esta geografia ligada à história da salvação, a presença franciscana deu origem a comunidades católicas, sobretudo entre as populações de língua árabe. Além da sua antiguidade, a presença católica na terra de Jesus revela também uma grande diversidade. O Patriarcado Latino de Jerusalém e a Custódia da Terra Santa são, com certeza, a imagem de marca desta presença católica secular, milenar, ligada a Roma.
Mas há mais presença católica, que passa despercebida ao peregrino. Refiro-me à Igreja Melquita, que mantém 41 paróquias, e à Igreja Católica Maronita, que mantém activas 13 paróquias. Refiro-me, por fim, à Igreja Católica Armena e à Igreja Siro-Católica com presenças em Jerusalém. Algumas destas comunidades católicas aparecem mais ligadas ao passado que ao presente e com um futuro duvidoso. Mas, na verdade, elas expressam uma tradição que remonta aos tempos apostólicos e que soube superar as vicissitudes da História, que é a garantia mais valiosa para construir um futuro que se apresenta difícil.

Pessoas e presenças

Completando os números desta presença católica é de relevar a imagem de marca dos Franciscanos que contam com 20 presenças (comunidades, obras) em Jerusalém, além de outras 13 presenças em Israel e de 10 na Palestina, presenças dedicadas sobretudo à conservação dos lugares santos, mas que se abrem também a um grande leque de actividades pastorais, em paróquias e escolas, sobretudo entre a população palestina. A Igreja Católica conta ainda com a presença e a acção de um total de 103 Institutos de vida consagrada, 73 de mulheres e 32 de homens. Os membros destes institutos religiosos ascendem a 502 religiosos, distribuídos por 88 comunidades, e a 1072 religiosas, distribuídas por 218 comunidades.
A estas congregações tradicionais, tem de se acrescentar um número crescente de novas comunidades, movimentos e grupos católicos que procuraram e consolidaram uma presença na Terra Santa durante estes últimos anos. Estas novas comunidades chegam já a um total de 20, com 284 membros distribuídos por 35 centros. Este quadro de presenças e pessoas ficaria desfasado e incompleto se não procurássemos dar uma ideia do número das comunidades cristãs, das paróquias, estabelecidas tanto em território de Israel como na Palestina. Em Jerusalém há só uma paróquia católica, São Salvador, dos Franciscanos, que tem abertos cinco outros lugares de culto ligados à paróquia. Em Israel, o Patriarcado Latino mantém a funcionar outras 15 paróquias, em localidades e com palestinos cidadãos de Israel. Na Palestina, a Igreja conta igualmente com outras 15 paróquias, uma delas em Gaza.

Rosto das comunidades

Ao mostrar o rosto destas comunidades, começamos pelas mais desconhecidas: as comunidades católicas de cultura hebraica, que são coordenadas por um Vicariato para os católicos de língua hebraica. Em 1948, ano da constituição do Estado de Israel, muitos católicos abandonaram o país, pensando que o Estado Hebreu não era lugar para eles. A Igreja Católica, mais ligada às populações palestinas, entrou numa fase de trauma, preocupada com a sobrevivência. Mas, explica o P.e David Neuhaus, jesuíta e actual responsável pelo Vicariato, a criação do Estado de Israel significou uma oportunidade para rever as relações da Igreja Católica com o mundo judaico. Alguns pioneiros pensaram que esta era uma oportunidade para reformular as relações entre católicos e judeus.
Apesar de alguma tensão deste grupo com a Igreja local, que vive muito preocupada com as questões da justiça e da paz, por causa da questão palestina, este grupo despertou a Igreja para a presença dos católicos entre os judeus. A primeira comunidade destes católicos foi fundada em 1958, na região de Jaffa. Com o passar dos anos, fundaram-se depois comunidades paroquiais de língua hebraica em Jaffa-Telavive, Jerusalém, Haifa e Bersheba; ultimamente, em Tiberias e Nazaré. Vivendo inseridas em ambiente judaico, uma das primeiras preocupações destas comunidades é a tradução de toda a liturgia em língua hebraica. O desafio é pensar e viver a fé católica em hebraico. Por isso, houve nestas comunidades um regresso ao Antigo Testamento para nele encontrar as raízes da novidade da nossa fé. Deste ponto de vista, obteve-se um grande êxito: temos hoje uma Igreja Católica que fala, vive e pensa em termos hebraicos.
O segundo desafio destas comunidades foi e é transmitir a fé aos filhos, num ambiente completamente hebraico e muito secularizado. Aqui, o êxito não é tão evidente e aproxima-se mais do fracasso, já que os jovens são completamente absorvidos pela escola, pelo exército e pelo atractivo ambiente secular hebreu.

Católicos imigrantes

No ano 2000, Israel começou a fechar os territórios palestinos e a impedir o acesso dos Palestinos ao mercado de trabalho em Israel. Uma nova geração de trabalhadores migrantes veio da Ásia e da África. Muitos deles são católicos (calculam-se em 70 mil) e o Vicariato assumiu a assistência pastoral a estes católicos migrantes. Os seus filhos frequentam as escolas governamentais juntamente com os filhos das famílias judaicas e facilmente se inserem nas comunidades católicas de língua hebraica.
A presença dos católicos imigrantes a viverem em meio judaico e a participarem na vida das comunidades de língua hebraica é uma presença frágil, porque os emigrantes estão em Israel temporariamente. Mas apesar disso, eles são membros da Igreja em pleno sentido e trazem vitalidade às comunidades. A esperança é que alguns acabem por se fixar definitivamente. É uma questão a ver, no futuro, se o Estado de Israel se abre a essa possibilidade. A presença dos imigrantes pode ajudar a Igreja Católica local a sair de si e assumir uma atitude mais evangelizadora. Os imigrantes vivem em condições frágeis, socialmente falando, mas têm um sentido forte e alegre da sua fé.
A presença destes milhares de imigrantes, especialmente filipinos e asiáticos, veio dar nova vitalidade e enriquecer o rosto da Igreja Católica. Para o P.e David Nehaus, há ainda um objectivo a não esquecer: pôr estas comunidades em contacto com as comunidades católicas de língua árabe, porque ambas formam a única igreja católica local.

Cultura árabe

As comunidades católicas de cultura árabe formam o núcleo mais numeroso da Igreja Católica e a elas estão ligadas a grande maioria das instituições eclesiais. O seu rosto é mais fácil de delinear. Por um lado, vivem preocupadas com a sua sobrevivência, num mundo duplamente hostil: o mundo hebraico e o mundo islâmico radical. Mas, por outro, dispõem de uma tradição e dão sinais de vitalidade. Os seus números são pequenos: o diácono permanente de uma delas, num subúrbio a leste de Jerusalém, com quem falei, calculou o número da comunidade em 69 famílias, umas 300 pessoas no todo. Mas as famílias são numerosas, há baptismos e casamentos, ritmos de vida dominical, algumas a tentar experiências novas.
O problema maior destas comunidades talvez seja de natureza social. Os palestinos vivem neste momento uma situação de desemprego e os pais de família sem trabalho têm dificuldade em manter as suas famílias. Mas o maior inimigo é a emigração, a saída dos seus membros, ou para o estrangeiro ou para os territórios da Palestina, onde os custos da casa e de outras coisas é mais baixo.
O contexto político em que vivem estas comunidades não tem melhorado. Por um lado, em relação a Israel há mais intolerância e um afirmar da própria identidade cultural e política palestina. Por outro, em relação ao Islão, há um relacionamento positivo que vinha de trás; mas há grupos fundamentalistas que estão a tentar perturbar o bom relacionamento que havia entre católicos e muçulmanos e a tornar mais difícil o seu relacionamento. Esta sensação de incerteza política leva as comunidades a viver num espírito de sobrevivência e de ansiedade em relação ao futuro.

Empenho social

Tradicionalmente, a acção social da Igreja estava ligada a instituições de educação. O maior número são escolas médias e superiores, asilos de infância e primárias, que a Igreja Católica mantém a funcionar, sobretudo em favor da população palestina, católica e, sobretudo, muçulmana. Em Gaza, os católicos não chegam a três centenas e a Igreja mantém a funcionar cinco escolas, as melhores desta atribulada faixa de território palestino. O Patriarcado Latino tem 11 destas escolas a funcionar na Palestina e cinco em Israel.
A procura de novas respostas aos problemas causados pelo conflito e pela imigração abriu aos religiosos novos caminhos de envolvimento na assistência aos refugiados, aos presos, na assistência jurídica e material aos imigrantes, no apoio aos beduínos e aos grupos empurrados para as margens da sociedade israelita e palestina.
Este trabalho tem favorecido uma interacção entre israelitas e palestinianos. As Irmãs Missionárias Combonianas, por exemplo (ver artigo «Flores no Deserto», Além-Mar, Abril 2014, 41-45), tanto no apoio que dão aos refugiados e migrantes africanos (com assistência médica e legal, apoio psicológico e material em Telavive), como no trabalho com os beduínos do deserto da Judeia (assistência médica, apoio para a construção de pequenos jardins-de-infância e formação de educadoras de infância) têm feito o seu trabalho em parceria com grupos e organizações não governamentais israelitas.
Para as Irmãs Missionárias Combonianas Ezezet Kidané e Alicia Vacas, que se dedicam a este trabalho, este responder juntos aos desafios da exclusão social cria condições para uma aproximação recíproca e um diálogo inter-religioso com hebreus e muçulmanos, que nasce da vida e da fé no mesmo (único) Deus e se concretiza num compromisso comum para a transformação social.

Por: P. MANUEL FERREIRA, missionário comboniano, no artigo «Israel e Palestina: Católicos na terra de Jesus», publicado na revista Álem-Mar de abril de 2015

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