Nesta página não entra moral. Nem culpas, nem juízos e condenações. São frases, apenas isso, o lado escuro de uma realidade tão boa e tão mágica como é ser avó. Talvez se reveja nalguma delas, e lhe traga um bocadinho de paz saber que não é nenhum ogre, mas apenas uma avó humana.
Escrito por Isabel Stilwell, revista Pais & Filhos, 13 Março 2015
➔ Há dias em que ficar com os netos é uma seca;
➔ Há dias em que quando vê o número de telefone da filha/filho/nora/genro no telemóvel deixa tocar sem atender, e depois diz que está cada vez mais surda e não ouviu. Tem a certeza de que lhe iam pedir um favorzinho...
➔ Há dias em que tem tanta pena da sua filha/filho/nora/genro, vítima de filhos birrentos, que tem vontade de financiar a escolaridade dos seus netos num colégio interno.
➔ Há dias em que fica com os seus netos e espera não ter câmaras de vigilância em casa – a sua falta de paciência registada em vídeo é mais de pais do que de avós.
➔ Há dias em que um dos seus netos a irrita mais do que o outro, e tem dificuldade em esconder o seu favoritismo.
➔ Há dias em que todos a irritam solenemente, e tem dificuldade em disfarçar a sua vontade de que saiam depressa pela porta fora, e a deixem a ver uma série na televisão.
➔ Há dias em que dá por si a achar que os seus netos estão insuportavelmente mal educados e que se fossem seus filhos os esbofeteava a eito.
➔ Há dias em que não aguenta a transmutação dos seus netos de criaturas adoráveis em monstros mal os pais põem um pé dentro de casa (mesmo tendo consciência de que são todos assim).
➔ Há dias em que tem dificuldade em não lhes dizer que, pelo menos em sua casa, não pode usar aquela palavra que abomina (“desfrutar”, “apetece-me algo”), sabendo que foi aprendida com a sua nora/genro, e que o seu neto vai repetir o raspanete que levou.
➔ Há dias em que tem vontade de vestir os seus netos de maneira completamente diferente daquela em que lhe apareceram em casa. E pôr ou tirar laços e ganchos no cabelo, e claro bonés.
➔ Há dias em que controla com dificuldade a vontade de os levar ao barbeiro/cabeleireiro e mandar refazer o corte de cabelo .
➔ Há dias em que não aguenta o fanatismo clubístico dos seus netos e tem vontade de rasgar a bandeira que trazem ao pescoço. Não por ser do clube contrário, mas porque odeia o fanatismo que lhes é inculcado pelo seu filho/genro.
➔ Há dias em que lhe apetece ligar para a Comissão de Proteção de Crianças a queixar-se das horas a que os pais dos seus netos os deixam ir para a cama.
➔ Há dias em que tem vontade de enforcar os pais dos seus netos por lhe moerem a cabeça com as notas, com o “é bom, mas não chega”. Nesses dias não resiste a relembrar alto as notas dos seus filhos e/ou de genros/noras, se as souber e forem (como geralmente são) inferiores ao que agora exigem.
➔ Há dias em que lhe apetece deixar os seus netos comer fast food, porque já não suporta a forma talibã como seguem a dieta que o pediatra recomendou.
➔ Há dias em que só tem vontade de desobedecer a todas as instruções que a sua filha/nora lhe deixou, de tal forma sente que o seu neto corre o risco de se tornar num cãozinho adestrado.
➔ Há dias em que tem de morder a língua para não dizer o que pensa da outra avó, ou do avô, ou de parentes do “outro” lado.
➔ Há dias em que lhe apetece fazer uma fogueira de inquisição a todos os manuais de educação que os pais dos seus netos citam.
➔ Há dias em que, pura e simplesmente, não quer ser avó. Em que, citando Almada Negreiros, lhe apetecia dizer “Morra a Avó, pim!”.

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