«Um novo tempo; tempo de esperança, de promessa...» Reuniram-se, em Fiães, a nova direção e a direção cessante da Fraternitas.


A Fraternitas atravessa um novo tempo. Tempo de esperança, de promessa. É o papa Francisco que rasga horizontes. Onde até agora víamos nevoeiro, redução de perspectivas, começa a raiar a aurora. Tenhamos calma! Nada mudou. Apenas há uma nova postura, uma palavra nova, um novo modo de estar.
Mas de facto o Direito canónico é o mesmo. E os agentes da pastoral continuam a ler a mesma cartilha. Já dissemos que o rescrito continua a linguagem anquilosada de sempre. É evidente que alguns senhores bispos, quando entregaram o documento, acrescentaram ironicamente: «tu não sabes latim, eu também não...». Mas na verdade a mentalidade é a mesma, a sua visão da Igreja continua a ser piramidal. É uma questão de poder.
Mudou o discurso do papa: nós servimos...
Entretanto vemos que a linguagem do papa não bate certo com a dos bispos. Reconhecemos que os bispos portugueses são excelentes pessoas, com palavras bonitas. Todos acompanham o papa, sintonizam intelectualmente com ele... Mas que diferença de atitudes, de comportamentos. Dá-nos a impressão que nesta corrida o papa vai à frente.
Mas se olharmos mais para o fundo da pirâmide, padres e cristãos vivem preocupados com milhentas coisas. Talvez eu esteja a ver mal! Jesus avisou Marta: «uma só coisa é necessária».

2. Um pouco de história
A Fraternitas nasceu há cerca de vinte anos. O cónego Filipe teve um rasgo de profecia. Por sua iniciativa, ele diz que inspirado por Nossa Senhora, congregou alguns padres dispensados. Deu-lhes dignidade humana e consciência da sua fé. Chamou a atenção da Igreja para a situação injusta em que estes «padres» viviam. Com muitas dificuldades os bispos começaram a olhar para estes dispensados com novos olhos.
Os primeiros membros da Fraternitas alimentaram a esperança de que esta situação estava para breve. Alguns viviam a esperança de retomar o ministério.
O tempo foi passando, a esperança degenerou. E tudo continuou na mesma, piorando sempre mais a pastoral que se vem desenvolvendo. As palavras dos papas, o seu comportamento que culminou em Bento XVI, enfraqueceram os objetivos da Fraternitas.

3. Espírito novo
O Papa Francisco deu novo vigor à Igreja. Os “marginais”, hoje, têm a atenção da Igreja. Quanto a nós, há a novidade de o papa assumir que o celibato não é dogma. Não deitemos foguetes! O direito não mudou... Decerto não será ainda na nossa vida que veremos as coisas mudadas.
Choca que os bispos deem conta de que tantas comunidades não beneficiem da eucaristia dominical e a solução encontrada é exigir que os padres celebrem mais missas... Não entendo! Não entendemos!
Mas mudamos nós os objetivos. Há um horizonte mais vasto do que o celibato. Vale a pena luta, sonhar por uma igreja diferente. A pirâmide tem de dar lugar ao horizontal. A Igreja é o povo de Deus. É este povo que deve assumir a plenitude do ser Igreja. Este é que é o Povo sacerdotal, que integra papa, bispos, padres, religiosos e cristãos – no mesmo nível.

4. Ação
A Fraternitas orgulha-se da sua história. Hoje tem, deve adaptar-se às novas condições. Os bispos estão mais abertos, mais ouvintes. Não vamos estar à espera que abram mão das suas prerrogativas e venham ao encontro dos objetivos que nos norteiam. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer!” Temos de ser ousados, respeitadores, mas não subservientes. Temos de mudar mentalidades de bispos e de padres. Os padres só têm espaço para a celebração de missas, funerais, sacramentos. Os padres têm de descobrir uma nova forma de ser igreja. E nós com eles. Nós também temos de descobrir novas formas de sermos padres dispensados e vivermos integrados, participativos, no Povo sacerdotal, Povo de Deus. Precisamos de imaginação. Temos colegas nossos na Universidade Católica, na Cúria, na administração diocesana: não estão como padres. Precisamos de descobrir como estar na nossa qualidade de servos, de sacerdotes no ministério.
Também os cristãos precisam de se descobrir na sua função sacerdotal. Confrange ver alguns cristãos que servem como minipadres, nas celebrações sem eucaristia. Eu gostava de ver esses cristãos exercerem a sua dimensão, sem imitar o celebrante na eucaristia.
Um grande caminho temos a percorrer. Um desafio! Organizemo-nos por regiões mais reduzidas. Façamos encontros culturais, de oração, partilha, solidariedade, experiências de todos os géneros entre padres dispensados, outros padres e cristãos que desejem. Não façamos nada isolados. Programem-se reuniões periódicas, sistemáticas. Elaboremos planos para abordar os bispos e outros padres, párocos e outros agentes de pastoral sobre estes problemas que nos preocupam. O Concílio foi há 50 anos e só existe na letra em muitas situações. Transportemos para a vida, demos-lhe vida.
Ninguém cruze os braços, porque é difícil, temos muito trabalho, não vale a pena porque não nos ouvem... Eu acredito no Espírito. Ninguém esperava um Bergólio. Ele está ai. Somos nós a força do Espírito. Eu creio que o nosso Deus quer contar connosco para mostrar o seu poder, a sua misericórdia.

por Joaquim F. Soares, vogal da Direção

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