«(À Fraterrnitas) falta parresia, coragem de serem e de falarem com independência e coragem», entrevista a João Tavares
A jornalista Vanessa Fidalgo, do jornal diário nacional Correio da Manhã, contactou a Fraternitas Movimento. Estava a preparar um destaque acerca do tema «o sacerdócio e o casamento». O texto foi publicado na revista «Domingo» do referido jornal, no dia 19 de junho de 2015, e já divulgado neste blogue: "Padres Casados" - Tema de capa da revista «Domingo», do jornal «Correio da Manhã», de 21 de junho de 2016
Um dos entrevistados é João Tavares, natural de S. Pedro do Sul (VIseu), que foi Missionário Comboniano, casou com Sofia, brasileira, e vive no Brasil, integrando o movimento e a associação de padres casados brasileiros, e é sócio da Fraternitas.
1 - Qual a realidade dos padres católicos casados no Brasil?
Bem sucintamente: calculamos cerca de 7000 padres casados no Brasil. Em geral, continuam homens de fé, bem posicionados socialmente (professores universitários, advogados, políticos...). Com algumas exceções.
Formaram-se, a partir os anos 70, grupos estaduais que, depois, se organizaram a nível nacional na Associação Rumos e no Movimento das Famílias dos Padres casados.
Como meios de comunicação, temos o Jornal Rumos, bimestral de 16 páginas e o Site: www.padrescasados.org . Além de um e-grupo com cerca de 900 e-mails de padres casados.
A maior comunicação é via e-mail. E tem se mostrado bastante eficiente neste Brasil de dimensões continentais.
A cada dois anos fazemos nosso Encontro Nacional. Em Janeiro deste ano fizemos o nosso XX Encontro Nacional em Florianópolis - Santa Catarina.
Fazemos parte da Federação Latino-americana e estamos em comunicação com a Federação europeia e, mais especialmente. com a Associação Fraternitas Movimento de Portugal.
Dificuldades: a média de idade vai adiantada e sentimos a necessidade de animar mais os jovens padres que vão saindo para se juntarem a nós. Mas a nossa formação sólida atemoriza os mais novos. E a visão de Igreja e de Pastoral já é bastante diferente.
2 - Existem muitos pedidos para deixar o sacerdócio por razões do coração?
A pergunta é bastante restritiva. Os motivos para um padre deixar o exercício do ministério (não o sacerdócio, que este, segundo a Teologia é indelével), podem ser vários: desânimo, solidão, problemas com a hierarquia, problemas de fé, etc. e, finalmente, a simples vontade de casar, amar uma mulher e ter filhos. Por vezes, a ideia de deixar o ministério e casar, não é uma causa, mas uma consequência de outros problemas não bem resolvidos.
3 - Do contacto que tem com a realidade portuguesa nesta matéria, qual é o vosso comentário?
Esta resposta é a nível pessoal: expõe o meu pensamento pessoal, não o do MFPC do Brasil.
Como sou português e milito no MFPC há quase 30 anos, mais intensamente desde 2000, quando fomos, eu e minha esposa, presidentes do MFPC/Associação Rumos nacional, soubemos da existência da Fraternitas. Desde de 2010, participamos de dois Encontros Nacionais em Fátima, nos associamos e mantemos bastante contacto com as lideranças do Movimento.
Os grupos de Portugal e Brasil, pela sua história e vivência, são bastante diferentes, se bem que os objetivos sejam parecidos.
No Brasil nascemos e crescemos não contra, mas com total independência da Hierarquia. Buscando com ela um diálogo entre iguais. Não buscamos benesses, favores, bênçãos, permissões. Agimos com independência, celebramos juntos, sempre que nos reunimos. Ajudamos com palestras e trabalhos pastorais, inclusive aulas nos seminários, quando solicitados pelos bispos os pelos párocos.
Os bispos e padres nos respeitam. Vários deles são nossos amigos. Mas também nos temem: sabem que, em geral, somos homens sérios e competentes. E que lhes poderíamos ser muito úteis na Pastoral, mas são obedientes demais a Roma que, com João Paulo II e Bento XVI, foi cerceando sempre mais uma nossa possível inserção na pastoral.
De fonte segura sei que a diretiva da CNBB, até há pouco, era nos evitar e não manter conosco relações públicas. Somos, definitivamente, incômodos, uma pedra no sapato da hierarquia.
Já em Portugal, fundados por um santo cónego atento às periferias existenciais da nação e da Igreja (ciganos, padres casados, etc...) a Fraternitas não ousou crescer independente e caminhar com suas próprias pernas. A meu ver, se submeteu demais, à Hierarquia, sentindo até necessidade de ter seus Estatutos aprovados pela Conferência Episcopal.
Deixaram o ministério, mas sentiram necessidade de ficar à sombra da mãe-hierarquia, fazem retiro pregado por padres ou bispos, não têm coragem de concelebrar sozinhos, sem a presidência de um padre ou bispo solteiro.
Deixaram a estado clerical, mas o estado clerical não os deixou: ficaram impregnados, mendigando favores e não ousando caminhar com independência, como sal e fermento no Povo de Deus. Faltou parresia, coragem de serem e de falarem com independência e coragem. Tudo isso, a meu ver, limitou bastante as possibilidades de ação deles como grupo independente e coeso, ao serviço da Renovação da Igreja em Portugal, nos rumos do Vaticano II e de uma Igreja mais Povo de Deus e menos submissão passiva à hierarquia.
4 - Conte-nos um pouquinho da vossa história: como se conheceram, como foi difícil tomar decisões, como levam a vossa vida agora, quais as reações sociais...
Resumidamente: Nos conhecemos em 1976, quando eu estava em crise com minha Congregação, os Combonianos. Único português num grupo de 30 italianos, único com Teologia do Vaticano II, a um certo momento, sem querer culpar ninguém, depois de uns sete anos de ministério, não deu mais certo a relação com o bispo e os meus colegas.
Então me dei tempo, fui para a Europa (contra a vontade), trabalhei uns meses em Lisboa na animação missionária, mas não me sentia feliz com um tipo de Igreja nada profética e um país pequeno demais onde o bom era manter a rotina, conservar o existente. Tive convite para ficar na arquidiocese de Milão, onde fiz a Teologia, mas preferi voltar ao "meu" Brasil onde exerci todo o meu tempo de ministério.
Amava muito minha vocação, sobre a qual nunca tive dúvidas, mas com os combonianos não dava mais. Voltei então para o Brasil, ligado à arquidiocese de S. Luís no Maranhão, mas com vontade de me profissionalizar no magistério universitário.
Foram dois anos e meio de reflexão, oração, aconselhamento com amigos aqui, na Itália e em Portugal. Eu gostava muito do ministério para o qual me preparei durante quinze anos. Foi uma caminhada sofrida na busca de uma boa solução dentro das novas possibilidades. As reações sociais foram boas, em geral: o povo está mais aberto para o casamento dos padres que a hierarquia. E aprecia a autenticidade.
Desde que cheguei ao Brasil, sempre cultivei boas amizades, inclusive femininas e, caso não desse certo no ministério e viesse a resolver casar, tinha algumas boas possíveis candidatas em vista. Como vim para S. Luís e resolvi ficar aqui, cultivei mais uma boa amiga daqui e, em 1979, casamos.
Como não chegou a licença pedida a Roma em 1978, casamos no civil e esperamos até 1992. Depois de várias tentativas de Roma para eu voltar ao mistério ou mentir, dizendo que não sabia o que fazia quando fui ordenado. Sempre reafirmei que sabia muito bem o que fazia quando fui ordenado e que saí do ministério por livre vontade. Mas o Vaticano não aceitava essa minha atitude livre.
Quando, por volta de 1990, já com duas filhas, me propuseram deixar tudo e voltar ao ministério, fiquei bravo e respondi ao Vaticano, com dureza e deliberada grosseria, que eu era um homem sério, com responsabilidades familiares e que achava a proposta de voltar, abandonando a família, indecente e criminosa. A não ser que me quisessem aceitar no ministério com minha família.
Finalmente, como não encontraram jeito de me dobrarem, 13 anos depois do pedido, em 1992, chegou o RESCRITO de João Paulo II, me desobrigando das obrigações do celibato e das relativas às Ordens e autorizando o casamento. O casamento, contrariando todas as ridículas proibições do RESCRITO, foi feito na igreja paroquial, cheia de familiares e amigos, concelebrada por vários padres e cantada pelo nosso Coral gregoriano. Éramos muito conhecidos na paróquia e diocese e, desde o casamento civil, sempre demos cursos e palestras religiosas, fui do Conselho paroquial, era convidado a fazer a homilia dominical e era ministro da comunhão.
Tudo o que o Vaticano não aceitava e queria proibir aos padres casados. Só que essa proibição nunca pegou aqui em S. Luís e bispos e padres nunca ligaram para elas. Graças a Deus tínhamos um episcopado e um clero muito livre e sem medo da Cúria romana.
Hoje estamos ambos aposentados da Universidade onde fomos professores de Filosofia, temos duas filhas e uma neta.

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