Decálogo da relação pais-filhos


Eu gostaria hoje, de me pôr na pele destes pais aflitos e ajudar, com mais um Decálogo, a lavrar este mar desconhecido e tumultuoso do relacionamento com os filhos. E abrir horizontes de esperança e de confiança, na sua missão educativa.

P.e Amaro Gonçalo, Paróquia Nossa Senhora da Hora, Matosinhos

1.º Intervir na infância. A criança estabelece relações de proximidade, vínculos de afectividade, de respeito e de autoridade, já a partir do útero e desde o leite materno. A ligação com os filhos é, por isso, a base mais segura, para o desenvolvimento da sua capacidade de conhecer, de amar e de se relacionar. Pelo que vale mais a presença atenta, simples e gratuita dos pais, que todos os presentes bem embrulhados.

2.º Os pais devem desenvolver, desde o nascimento, uma empatia calorosa com os filhos, onde se conjuguem, de modo equilibrado, o amor e a disciplina, a protecção e o controlo, a compreensão e a correcção, a atenção a cada um e o sentido do outro. A autoridade dos pais constrói-se nesta relação.

3.º A este respeito, importa compreender e aceitar que cada filho é único, diferente na ordem do nascimento, da saúde, do temperamento, da inteligência, do sucesso. Mas também é verdade que, não obstante as acentuadas diferenças, os filhos são iguais. E são iguais porque são irmãos. E são irmãos, não em função daquilo que são ou daquilo que têm, mas em função daquilo que primeiro lhes foi dado e feito, em função de um Amor que está na sua origem: o amor dos pais e o amor de Deus. A experiência do amor, é antes de mais a experiência de ser amado!

4.º Os pais têm de aprender a estabelecer limites, para os filhos, e logo desde o nascimento. O simples olhar, fixo e constante, do pai e da mãe, basta para lhe dizer “não”. O mesmo olhar que cuida e protege, também proíbe, censura, adverte, corrige, de modo a que a criança não se sinta o centro do mundo e o rei da casa, até se tornar o tirano da família. Ela tem de perceber que viver em família pressupõe ver e pensar no outro. Sem limites, a criança incha de importância e chega à adolescência incapaz de perceber que “o mundo está muito para além do seu umbigo”!

5.º Para tomar consciência dos seus limites e para saber como se comportar, a criança precisa também de regras, rotinas, horários, hábitos e disciplina, rituais e tradições. Aliás, as crianças adoram a ordem, a rotina, a organização: gostam do ritual do banho, apreciam os brinquedos arrumados; gostam, por exemplo, de saber, pela ordem certa, tudo o que têm a fazer antes de se deitarem. Ambiente organizado, regras claras, responsabilidades atribuídas, são o modo mais eficaz para favorecer a autonomia e consolidar a auto estima dos filhos; as festas de família, as festas religiosas, a celebração dos aniversários, merecem ser assinalados e ajudam a família a crescer na sua identidade e proximidade.

6.º Um diálogo, de cinco minutos, com os filhos, vale mais do que dezenas de horas no psicólogo. Os pais são, sem dúvida, os melhores terapeutas dos filhos, pela simples razão de serem quem os conhece melhor. Este diálogo ganha, sempre que diminuir a crítica e se preferir a apreciação estimulante. Quanto ao diálogo com as crianças, porque não retomar a tradição de ler ou contar uma história às crianças? Quantas vezes, tensas e caladas, as crianças conseguem, por este meio, exprimir emoções, afectos, vivências. Ao tentar recontar a história a criança melhora a sua capacidade de diálogo e de relação, com os pais e com os demais.

7.º É importante dialogar, explicar, justificar atitudes e comportamentos, em relação aos filhos. Mas há situações, na infância e talvez mais ainda na adolescência, que não são discutíveis nem negociáveis: um filho não pode usar linguagem obscena em nenhuma circunstância; as questões de saúde e de segurança dos filhos, são inegociáveis e por isso quando os pais não têm conhecimento certo do programa, da companhia e do destino, têm de dizer “não”, mesmo correndo o risco de que o seu filho seja o único a não participar em tal actividade. Neste campo das “saídas”, mais vale, aos pais, pecar por rigor, do que falhar por desleixo. É triste ver alguns pais que pouco se preocupam por saber do paradeiro dos filhos, em contraste com Maria e José que “começaram a procurar Jesus entre os parentes e conhecidos. E, não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura”. Em caso nenhum, a democracia na família derruba a hierarquia. Assim, o normal, é que sejam os pais e os mais experientes a ter a última palavra e a sugerir alternativas. Vede como, apesar da sua resposta ousada e surpreendente, o Adolescente Jesus “desceu então com Maria e José para Nazaré e era-lhes submisso”.

8.º Por causa de um “não”, os pais têm, muitas vezes, de suportar o desamor temporário dos seus filhos, porque a criação de um limite e a frustração daí resultante são essenciais para o futuro da criança, sobretudo na adolescência. Educar não é estar sempre a premiar e a gratificar os filhos, muito menos esperar que os filhos nos confirmem como bons pais e nos alimentem do afecto; educar é fazer a pessoa sair de si mesma, fazê-la olhar o outro, acolher os outros. E isso implica conduzir, frustrar, transmitir valores. Custe o que custar.

9.º Importante, sempre, é responsabilizar os filhos, por actividades adequadas à sua idade: arrumar o quarto, pôr a mesa, etc. Também o adolescente, precisamente porque não é nenhum doente e muito menos um demente, deve ser estimulado a responsabilizar-se por tarefas, a assumir responsabilidades, a fazer opções. Assim aprende a ser adulto.

10.º Não podia esquecer, por último, como é importante melhorar a comunicação entre a Escola e a família, entre a Família e a Igreja, entre a Família e Deus.

Nenhuma família pode, por si só, dar tudo o que o filho precisa para crescer, como Jesus, em sabedoria, em estatura e em graça! Contai connosco. Contamos convosco. Deus esteja com todos vós e com as vossas famílias.

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