A defesa do ambiente, da Natureza,
da Terra é, sem dúvida, uma nova fronteira para a missão da Igreja. Já nos
dizia S. Paulo na Carta ao Romanos que «bem sabemos como toda a criação geme e
sofre as dores de parto» aguardando a sua libertação (Rm 8, 22). Para S. Paulo,
Deus liberta da escravidão e da corrupção, não apenas a humanidade, mas toda a
criação.
Padre Joaquim Fonseca, Missionário Comboniano, in Família Comboniana
As dores de parto são vitais, são
geradoras de vida, as dores de morte são fatais. Não vou descrever as dores de
morte a que assisti no tempo da missão no Brasil: a poluição, os esgotos a céu
aberto, as habitações precárias das grandes periferias das cidades ou as
imensas florestas queimadas ou destruídas, as terras indígenas invadidas, os
rios poluídos e a erosão do interior do país. Quem nunca ouviu falar de grandes
catástrofes naturais, enchentes e inundações, mudanças climáticas e aquecimento
global?
Estas são as dores de morte que a
Natureza está a sofrer, quase sempre em nome do desenvolvimento e do progresso.
Mas que progresso é este?
Há já alguns anos que ouvi dizer
que o consumo da população mundial está trinta por cento acima da capacidade de
renovação dos recursos do planeta, agora talvez a situação seja mais grave e
isto é devido, principalmente, ao consumo dos países mais ricos e das elites
privilegiadas dos países pobres. Como compatibilizar o consumo, o aumento da população,
o desenvolvimento e a sustentabilidade da nossa mãe Terra?
Os povos indígenas dos Andes
chamam a terra de “Pacha Mama” e o povo Macuxi da amazónia brasileira, onde eu
vivi, chamam a terra de “Pata Mona”, isto é “Terra Mãe” e é como mãe que eles a
tratam. Homens, animais, plantas e todos os seres são filhos da terra, ela é o
regaço carinhoso que acolhe todos os seus filhos, não pode ser destruída nem
maltratada. Aqui reside um dos conflitos dos povos indígenas com a sociedade
envolvente que vê na Natureza apenas um recurso e uma mercadoria a disfrutar.
Esta maneira harmoniosa de viver
dos povos indígenas deu origem a uma reflexão que eles chamam “Bem-Viver”. Isto
não tem nada a ver com o que nós chamamos de boa vida, conforto, bem-estar das
sociedades ocidentais. O Bem-viver é o bom modo de ser, o conjunto de
princípios éticos, morais e culturais para o bom viver de toda a aldeia,
comunidade indígena. A aldeia é o lugar onde podem viver de acordo com os seus
costumes, onde realizam o seu modo de ser. É a terra comunitária onde todos
moram e realizam o Bem-Viver, isto é, onde podem construir uma convivência
comunitária fraterna e igualitária, sem assimetrias. Na linguagem indígena,
“comunidade” é tudo: terra, ar, agua, minerais, plantas, animais e espíritos.
Com as comunidades indígenas
podemos aprender muitas coisas: a valorização da Natureza, da mulher, da
sabedoria dos antigos; a valorização do coletivo, da cooperação, da produção
comunitária, da terra comunitária, da economia solidária, etc.
O Bem-Viver é a expressão da
utopia de muitos povos indígenas e é também o sonho de muitos militantes,
movimentos sociais e até de povos que sonham com um outro mundo possível, com a
Terra sem Males, com o Reino de Deus.
O Bem-Viver é um grande
questionamento ao modelo de desenvolvimento em que a sociedade ocidental está
metida até ao pescoço, baseado no crescimento económico e financeiro, incapaz
de resolver os problemas da pobreza e com gravíssimos impactos sociais e
ambientais. O desenvolvimento é um conceito que está em crise porque considera
a Natureza como fora da história humana. O Bem-Viver inclui a Natureza na
história humana, a “comunidade” não se restringe às pessoas mas abrange a Natureza
e propõe uma nova ética onde a Natureza não é apenas um recurso ou uma
mercadoria.
O Bem-Viver ensina-nos que a
terra é a casa de todos, que nós precisamos dela mas ela não precisa de nós.
Nós somos os guardiães e os jardineiros da Terra.

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