Porquê a paridade tem que
significar que a mulher seja parecida com o homem e não ao
contrário? Entrevista com Maria Giovanna Ruggieri, presidente da
União Mundial das Organizações Femininas Católicas, sobre o
Congresso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Por Rocío Lancho García, Roma, 05 de junho de 2015 (ZENIT.org)
O ano de 2015 será um ano crucial para a comunidade internacional já que nas Nações Unidas será preparado e discutido a nova agenda para o desenvolvimento, que constituirá para a comunidade internacional o novo quadro de referência para os próximos quinze anos. Um grupo de mulheres que trabalham no âmbito eclesial, reuniu-se no Vaticano recentemente para discutir, debater e contribuir com seu ponto de vista para estes objetivos. O Congresso foi organizado pelo Pontifício Conselho de Justiça e Paz junto com a World Union of Women’s Catholic Organisations (WUCWO) e a World Women’s Alliance for Life and Family.
Maria Giovanna Ruggieri, presidente da União Mundial das
Organizações Femininas Católicas, (WUCWO) explicou a ZENIT que "o
objetivo do congresso era ouvir, da base, reflexões e prioridades no
nosso papel de organizações e realidades a serviço da Igreja e da
sociedade. Entender quais são os elementos que nos chamam e são
emergenciais, que não podemos adiar". Também “dar uma
contribuição como mulheres” porque o documento final que
realizaram é oferecido “à Santa Sé para quando tenham que
participar na ONU da discussão dos Objetivos do Desenvolvimento
Sustentável”.
Por outro lado, a presidente Ruggieri disse que "isso também
nos levou a verificar qual ideia de mulher oferecemos. Os objetivos
são para todos, mas nós o vimos com olhos de mulher. E
especialmente buscamos entender o que se quer privilegiar e o que
está por trás dos objetivos propostos e oferecidos pelas diferentes
realidades”. A ideia de mulher que deve emergir não é "uma
mulher comercializada, uma mulher objeto ou uma mulher explorada”,
mas “uma mulher respeitada na sua dignidade de pessoa”. Nossa
proposta – afirma – é que brote esta dignidade que está em
todos e cada um.
Também, adverte que em alguns aspectos estes Objetivos são muito
"ocidentais" e que as prioridades, talvez, não sejam
totalmente universais. O documento em que trabalharam durante o
congresso está estruturado em quatro temas: “Ecologia humana”,
“educação e trabalho”, “pobreza e ambiente”, “paz e
desenvolvimento”.
O passo seguinte – nos diz Maria Giovanna – é como fazer para
que os nossos organismos a nível nacional, local, “percebam estas
coisas que falamos e se é possível dar um salto e estar atentos às
prioridades desses Objetivos a serviço da pessoa”.
Uma das urgências que deve ser abordada é “a necessidade de
trabalhar muito para que a dignidade da mulher seja realmente
assumida”, destaca. E coloca o seguinte exemplo: “Se para vender
qualquer produto é preciso colocar uma mulher linda do lado, isso
fala muito do grau de dignidade que temos com a mulher”. Este
problema – explica – afeta todo o mundo, é universal, de forma
diferente, mas no fundo está sempre a ideia dessa mulher-objeto.
“Objeto a ser usado para os meus interesses, para o trabalho,
sexualidade... Infelizmente são muitas as novas formas de
escravidão, que mostram quanto trabalho de educação e formação
ainda é preciso ser feito para ajudar a todos, incluindo as
mulheres, para terem respeito pela dignidade da pessoa”, adverte.
Falar sobre o valor das mulheres "não é nenhuma
reivindicação, mas é pedir um reconhecimento de uma dignidade que,
infelizmente ainda não tem totalmente", diz a presidente. E a
Igreja – observa – deve também ajudar-nos nisso porque, em
algumas situações a dignidade da mulher não é respeitada
totalmente, e a Igreja poderia incidir ainda mais.
A este respeito, se pergunta: "Pensando nestas meninas
que são exploradas sexualmente me pergunto o que fazemos para
sensibilizar as comunidades eclesiais sobre este problema? Estas
meninas são exploradas porque há demanda. Qual educação e
formação existe? Na Itália, país tradicionalmente católico,
fomos educados nas paróquias a respeitar a menina, a jovem, as
mulheres? Isto não é transmitido geneticamente, e acho que
ainda temos muito a fazer”.
A presidente se questiona sobre a ideia e a forma de entender hoje
em dia a paridade, “Por que a paridade significa que eu tenho que
ser como o homem e não que o homem se aproxime da sensibilidade
feminina?, Deve ser obrigatoriamente esse o nível máximo a ser
alcançado, não existe uma possibilidade intermediária? Por que
entender a paridade como ‘fazer o que fazem os homens’? Por que a
ternura deve pertencer somente à mulher?, Por que o homem não pode
mostrar os seus sentimentos?”
Portanto, ela reconhece que gostaria que "na paridade, ambos
reconheçam no outro valores e princípios, modos, que podem
enriquecer-me, e não que eu tenha que tirar o que me pertence”.
Finalmente, Maria nota que o Papa está falando muito do “génio
feminino” como um grande dom que deve ter mais espaço na
sociedade, mas “se ele fala e depois não se coloca em prática, o
que ele diz, na sociedade, nada mudará”. Ele nos está
abrindo um caminho, mas e nós? E para que este génio feminino seja
reconhecido, deve ser ouvido.

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