Porcos ou jardineiros

 
Desenho de Ayllana Fredrez Mota (Escola Municipal Dom José Baréa, Rio do Sul, Brasil

Schillebeeckx, o grande teólogo belga falecido em 2009, conta uma saborosa e elucidativa historieta que terá visto num cartoon. À beira da floresta, um Liebhaber – um rapaz e uma menina, pois, naquela altura, as ideias não andavam envolvidas em tanto nevoeiro, como na actualidade, e o Primeiro-Ministro do Luxemburgo ainda não era Xavier Bettel… – julgando-se sós, permitiram-se algumas liberdades afectivas.

Por aquele caminho, a pé, circulava um sacerdote, de batina, nutrido de carnes, ofegante, com a face vermelha e dificuldades de respiração devido aos fumos das muitas fábricas da redondeza. No auge do desespero da sua bronquite e sinusite, só se lhe ouvia: «Porcos. Porcos!»

A menina fez apelo ao seu natural pudor e ordenou ao rapaz que se portasse bem, até porque o senhor padre já terá visto a cena e, qual voz da consciência, não estaria a gostar nada dela…

Mas o rapaz, seguro de si, sentenciou à sua queridinha: «Não é a nós que ele está a chamar porcos. É aos donos das fábricas que poluem e sujam tudo.»

Esta «estória» ilustra bem duas épocas e duas mentalidades que se sucedem e não se reconhecem mutuamente. Na cabeça da menina, o pecado equivalia a uma sexualidade desordenada ou à violação da virtude da pureza. Pelo contrário, para o rapaz, isso conta pouco e o grande mal estaria na destruição da natureza, casa comum da pessoa, dos animais e das plantas, sem a qual nem sequer pode subsistir o mais básico de todos os valores: a vida. A menina representa a concepção moral tradicional; o rapaz, a nova sensibilidade ética. Pena é a fixação na exclusividade de cada um deles: que «só» se considere pecado o inerente ao sexto mandamento ou que «só» se veja mal nos assuntos da natureza. No âmbito moral não chega o «ou, ou», mas sim o «e, e».

De facto, se pegarmos num manual de ética, até aos anos sessenta não encontramos a mínima referência à ecologia. Mas, a partir dos anos oitenta, este tornou-se um tema recorrente. Desde o Papa São João XXIII, o assunto tem sido abordado cada vez com mais insistência. O motivo é lógico: reporta-se à responsabilidade social pelas condições e qualidade de vida, quer das pessoas do presente, quer daqueles que hão-de vir depois de nós. E até pelo respeito devido à Criação, produto bom de um Deus bom.

A nível da Igreja, porém, nunca a ecologia foi tratada de forma sistemática e por intermédio de um documento «solene». Por isso, a grande novidade está na anunciada encíclica do Papa Francisco, a publicar daqui a oito dias. Desconhecemos como vai «pegar» no assunto. Mas sabemos que vai constituir um marco histórico, tal como a «Rerum novarum» (1891), de Leão XIII, com a qual se iniciou a chamada «Doutrina Social da Igreja». E que, mesmo que não use a expressão, vai-nos lembrar que Deus é o Senhor do jardim da terra e o homem o seu jardineiro. E que nestas coisas, é válido o conhecido título: “Amanhã já é tarde”.

  D. Manuel Linda | Bispo das Forças Armadas e Segurança  | Semanário Ecclesia

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