Que faz a fé de 1200 milhões de cristãos para os 165 milhões de abandonados?

Dom Zeno Saltini (Carpi, 30 agosto 1900 – Grosseto, 15 janeiro 1981) foi um sacerdote italiano, fundador da comunidade Nomadelfia. Inspirado pela Igreja Apostólica retratada nos Atos dos apóstolos, o Pe Zeno resolve fundar após quase vinte séculos uma comunidade cristã autêntica onde todos viviam como irmãos, sem classes sociais, ausência de dinheiro e de qualquer propriedade privada à luz da doutrina evangélica, formando uma única família.


Em 1952, Pio XII lança um apelo: É todo o mundo que precisa  se refazer desde os alicerces: passar do selvagem ao humano, do humano ao divino, segundo o coração de Deus. Para Zeno também as famílias devem passar do selvagem ao humano, do humano ao divino: Se amam amigos e parentes que fazem de especial? Também os pagãos…  Explica isso às mulheres: Oh se vocês forem como as gatas! Desde menino observo duas com os filhotes. Uma morre, a outra leva os órfãos em sua toca e cria todos.

Em vista do sínodo, reflexão de padre Zeno, fundador de Nomadelfia, elaborada por Fausto Marinetti

O maior obstáculo para a nova civilização é a relação familiar. A família isolada é um azar. Todo dia você vai ao  trabalho e não sabe se vai voltar para casa à noite, deixando uma viúva e uns órfãos. Não é como viagar de avião sem para queda? O afeto familiar larga no colégio os filhos que atrapalham e no asilo os pais idosos.  As tríbus dos pagãos tinham soluções mais civis. A família isolada é contra a natureza, está ainda na fossa dos leões lutando com os monstros dos racismos, limpezas étnicas, pátrias, egoísmos. O desafio de Cristo a Nicodemos – renascer do Espírito - è para o indivíduo ou também para a família? A cristandade não tem exemplos para oferecer. Quantos santos casados? O padre dita leis até no quarto dos casais, a família ficou pagã, os leigos não esenvolvem os aspectos positivos dela. Um imprevisto e a família fica aleijada. No caminho para o cemitério, as mulheres comentam: ‘Quando morre uma mãe, seria melhor colocar o recém-nascido no caixão com ela’. Ou é cruel Deus que faz os órfãos ou cruéis somos nós que não sabemos encontrar soluções.  Se com o vínculo do sangue a família patriarcal não abandonava nem filhos nem velhos, coisa se poderia fazer com o vínculo da fé? Como se pretende a fraternidade entre os indivíduos, por que não pretendê-la entre as famílias?

A família é um centro egoístico por natureza. Mas se tem uma função social não pode se fechar em si mesma. Se o amor que você tem por seu marido e seu filho se torna um  obstáculo para nos amar como irmãos entre família e família, que amor é? O câncer da igreja é que o casamento não é vivido como uma vocação universal. O Senhor nos criou na família, mas o amor dos casais é um episódio. Unem-se no sacramento e renascem para uma relação nova: ‘não mais da carne, do sangue, da vontade de homem’, porque ‘o que é carne é carne, é o espírito que vivifica’. Se amor dos casais é uma experiência do divino, por que não se abre às vítimas do não-amor? Os filhos não devem ter medo da morte, porque ‘para as crianças a mãe não morre nunca’. As lágrimas deles são uma ofensa a Deus. Os pinguins brigam para ficar com os pequenos órfãos.

Se a tragédia dos órfãos fosse inevitável, Deus seria cruel. Quem ama, Deus? Os abandonados. Onde está Cristo? Nos filhos deserdados. “Precisa se maravilhar se o clero e os bispos aceitaram colégios e orfanatos? Uma desgraça! Em Pompeia os padres fizeram a ‘Casa dos filhos dos presos’. Mas como? Tu, padre, tens a coragem de chamar assim os que Deus escolheu como filhos prediletos? Que sejam desprezados pelo mundo é uma coisa, mas também pela igreja não é demais?”. Os filhos não são brinquedos dos pais, da fatalidade, da desgraça. Deus nos deu a honra de nos entregar os ‘Seus’ filhos. Todos iguais para Ele: o ponto mais delicado da fé.  O sangue confunde os papas e os chefe de estado. ‘Uma mãe, para salvar seu filho, deixaria destruir uma cidade’. Se Deus é nosso pai, nós somos filhos e irmãos. Ninguém é filho dos pais, porque não procriam a alma. São instrumentos ocasionais. Um menino escreve: ‘A mãe dá as células, a alma é dada por Deus. Mãe não é aquela que te gera, esse é um fato de Deus, mas aquela que te alimenta e te leva ao amor’. Também os animais procriam. Nós vamos além do fato biológico, porque a paternidade e maternidade  humana não é nossa, é de Deus.

A mulher diz: ‘Fiz um filho’: como, se não sabes nem quantos cabelos ele tem? As mães se apoderam de Deus e de seus filhos. Ladronas! Não podes tirá-los Dele para fazê-los teus. Filhos da carne? Não somos cultores de carne, que os amarra e os escraviza. Precisa ir além do amor do sangue. A fraternidade é um fato de Deus, não obra do sangue, o qual bloqueia os vasos comunicantes, nos divide. A luz de Deus passa pelos sentidos, se torna sensível, mas deve ser medida, equilibrada. Não se devem abafar os sentimentos, mas elevá-los ao nível do próprio Deus, porque o homem carnal não ‘percebe as coisas de Deus’.

A vida eterna é fazer a revolução, levando ao povo a família segundo o Evangelho. Amar-nos ‘como’ Ele nos amou também como famílias. Por que os filhos debandam? Porque não sabemos amá-los. As mulheres os amarram com uma liga para levá-los novamente em seu útero e tê-los somente para si. Mas nasceram carne e ressurgiram espírito. Talvez Cristo nos ame com o sentido, o sentimentalismo? O povo exalta a mama que sugou, o ventre que o carregou. E Ele: ‘Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a praticam’. Os sentidos devem ser guiados pelo espírito, não nos tornar escravos do parentesco, do sexo, da matéria. Então os filhos renascem filhos de Deus. O amor sobre natural é uma força, que transforma o mundo. Damos aos filhos a alegria de ser livres não escravos dos nossos sentimentos.

Vocês dizem: ‘É meu’! Foi você que fez aquele menino? Para o evangelho ‘nasce um homem ao mundo’, não a sua mãe. Nosso coração é feito para amar somente aquele ali? Na história dominou a carne, o sangue, a raça. Também na igreja.  As mulheres crêem de amar os filhos com o sentido. Não é amor. O sentimento é salvagem. Se manda você amar um filho, por que não manda amar também o outro?

Quando passa uma mulher grávida precisamos nos ajoelhar: é uma Nossa Senhora. O nascituro deve ter a garantia de estar protegido debaixo de uma chuva de amor. O amor não se divide, é Deus em nós. Amas teu filho mais do que os outros? O que é esse “mais”? 

Na presença de Deus podem dizer de tê-lo amado como Ele o amou. Em quanto cresce, não deveria sentir-se filho, mas irmão dos pais. Precisa passar da família biológica àquela de Deus. Cristo diz: ‘Deixem as crianças virem a mim’. Não diz para nós, mas para Ele. O Senhor entrega a vocês os filhos na cruz: “Mulher, eis teu filho. Filho, eis tua mãe”. A Igreja ignorou a maternidade do Calvário onde Maria regenera João como  filho do espírito. Para que serve a fé de 1.200 milhões de cristãos se não matam a sede de amor de 165 milhões de abandonados, se não conseguem lhes dizer: “A minha família é ressurreição e vida para a tua família”? Vamos redimir a família e as crianças virão na mulher a mãe. Se nosso amor é sobre natural, o filho sente que o tornamos filho de Deus, não do homem. ‘Quem é meu irmão, irmã, mãe? Quem ama a seu filho mais do que a mim, não é digno de mim’. Deveria nascer em nós a admiração, a devoção para o homem. Morte, doença, solidão, nada nos mete medo. Não temos os irmãos nos quais confiar? Quem é nosso pai? Deus. Então o que tem a ver ter nascido de famílias diferentes?  Cristo rejeita a linguagem do sangue, da raça, do sentimento familiar: ‘Não sabeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?’. Cristo destrói o homem de carne e faz o de espírito. Há demais religiosidade superficial, grudenta! Olhem-se no espelho: não somos unum com a carne? Devemos beijá-la, honrá-la. Disse ao card. Pizzardo: ‘Se para o senhor não é possível amar do mesmo amor um filho carnal e um acolhido, o senhor é um luterano …’. Se não aparecer uma força que muda a rota familiar a humanidade não se salva.

Oh se as mulheres – inclusive os  50 milhões de prostitutas – soubessem ter uma missão materna sobre todos os homens. Cristo pegou a carne delas. Quando tomam no colo um filho, abraçam Cristo. Onde pensam que esteja a maternidade? No rosto dos abandonados. A maternidade não é de carne, mas de espírito. Uma missão não somente sobre seus próprios filhos, mas sobre toda a humanidade. Seus úteros são o berço da humanidade. 

Aconselha-se a leitura da vida de padre Zeno: “Obedientissimo rebelde”, pedindo fausto.marinetti@gmail.com  

Veja site www.nomadelfia.org  
e a fiction: www.youtube.com/watch?v=q5tj7DBXmVc

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