Catequese IX: Mãe, mestra, família
A natureza e o papel da Igreja
NONA DE DEZ CATEQUESES PREPARATÓRIAS
DO VIII ENCONTRO MUNDIAL DAS FAMÍLIAS FILADÉLFIA, 22 a 27 de setembro de 2015
A Igreja possui suas instâncias institucionais, pois deve
atuar no mundo. Contudo esse aspeto não contempla toda a sua essência. A Igreja
é a Esposa de Cristo, ela não é algo neutro. Nas palavras de São João XXIII,
Ela é nossa mãe e mestra, nosso conforto e guia, nossa família de fé. Mesmo
quando seus membros e líderes pecam, ainda precisamos da sabedoria da Igreja,
dos sacramentos, do apoio e da proclamação da verdade, pois ela é o próprio
Corpo de Jesus no mundo; a família do povo de Deus em larga escala.
A Igreja é nossa mãe; nós somos seus filhos e filhas
174. A Igreja é a Jerusalém celeste, “a Jerusalém do alto
[…] é a nossa mãe.” (Gl 4, 26) A Igreja é a “mãe do nosso novo nascimento”. A
Igreja, como noiva virginal de Cristo, faz nascer filhos e filhas que vão
“nascer do alto [...] nascer da água e do Espírito” (Jo 3, 3, 5).
175. O que significa “nascer do alto”? Quer dizer que não
possuímos identidade terrena após o batismo? Não, mas quer dizer que “das
fontes batismais nasce o único povo de Deus da Nova Aliança, que ultrapassa
todos os limites naturais ou humanos das nações, das culturas, das raças e dos
sexos: “Por isso é que todos nós fomos batizados num só Espírito, para
formarmos um só corpo.” Significa que como filhos e filhas da Igreja, temos uma
nova identidade que não destrói, mas transcende todas as maneiras que os seres
humanos, naturalmente, constroem suas identidades.
176. Como membros da Igreja, somos membros de “um só corpo”
que não é definido por nenhuma classificação humana, tal como idade,
nacionalidade, inteligência ou qualquer feito humano tal como eficiência,
organização ou virtude moral. Se a Igreja fosse definida por qualquer uma
dessas qualidades humanas, não teríamos renascido “do alto”, mas somente da
Terra, de nós mesmos e de nossas capacidades limitadas. Não importa quão
inteligente ou virtuoso sejamos, isso não é nada comparado ao amor perfeito de
Cristo e de sua esposa, a Jerusalém do alto, nossa mãe, a Igreja. Ao
tornarmo-nos seu filho ou filha, recebemos um dom, uma nova identidade em
Cristo, que, por nossos méritos, não podemos nos conceder.
Como e porque a Igreja é santa
177. Quando dizemos que a Igreja é “imaculada” não ignoramos
o fato de que todos os seus membros são pecadores, pois a Igreja é “santa e
sempre necessitada de purificação”. Sua santidade é a santidade de Cristo, seu
esposo. É o amor de Cristo, o esposo, que cria inicialmente a Igreja: “Mas a
Igreja nasceu principalmente do dom total de Cristo pela nossa salvação,
antecipado na instituição da Eucaristia e realizado na cruz. [...] Assim como
Eva foi formada do costado de Adão adormecido, assim a Igreja nasceu do coração
trespassado de Cristo, morto na cruz.”
178. Podemos dizer que a “constituição” da Igreja não é uma
virtude, santificação ou feito que tenhamos obtido, mas o dom total de Cristo.
Quando nascemos da Igreja como mãe, nascemos do amor de Cristo. Esse amor dá à
Igreja identidade, não como uma nação, agremiação ou clube humanamente
constituído entre pares, mas como a “noiva”, a “esposa”, que é “uma só carne”,
e um só corpo, com Cristo.
179. Esse amor pelo qual nascemos em Cristo é um amor que
não podemos dar a nós mesmos. Uma vez recebido, é purificador, de modo que a
Igreja, na pessoa de cada um dos filhos e filhas, sempre é transformada no amor
de Cristo até que Cristo se forme plenamente em todos. Esse é o sentido da
imagem da Igreja peregrina, uma Igreja “a caminho” rumo à perfeição última,
perfeição no, e pelo, próprio amor que acima de tudo a define.
180. Até que isso se realize, a Igreja verá que a
peregrinação é exercitar “continuamente a penitência e a renovação”, e que não
pode e não pretenderá perfeição exceto naquilo que é seu dote, o sangue de
Cristo, ou seja, seu amor.
Quando os católicos pecam, a santidade não é suprimida da
Igreja
181. O fundamento da Igreja em Cristo significa que o pecado
na Igreja, mesmo o pecado nos sacerdotes ordenados, não pode invalidar a
identidade da Igreja ou sua santidade porque a identidade da Igreja não provém
de nenhum de nós. Deriva de Cristo. No Antigo Testamento, o povo de Deus,
Israel, era definido por sua aliança com Deus e nenhuma porção de pecado por
sua parte poderia invalidar tal “eleição” ou a identidade que essa aliança
concedeu-lhes como povo de Deus. Onde quer que fossem, Deus não os abandonava.
Quem quer que os encontrasse, sempre encontrava o povo de Deus, não importando
quão pecadores fossem quaisquer dos membros.
182. A fidelidade da Aliança de Deus também se aplica à
Igreja. O milagre da Igreja é que o amor de Deus que a define não pode ser
suprimido por pecado algum de seus membros. É uma sociedade visível no mundo,
mas que não é definida por nada que seja “deste mundo”. Eis o que é tão belo na
Igreja. Não temos de esperar pela criação da sociedade de doze perfeitos para
que declaremos que nossa Igreja é digna de crédito. Não depositamos nossas
esperanças em virtudes ou perfeições humanas, mas acreditamos em Jesus Cristo,
que morreu por nós e por seu sangue nos tornou “gente escolhida, o sacerdócio
régio, a nação santa, o povo que ele adquiriu, a fim de que proclameis os
grandes feitos daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa”
(1Pd 2, 9).
A autoridade magisterial e a responsabilidade da Igreja
183. A Igreja, como mãe, nos comunica uma nova identidade no
amor e na santidade em que ela mesma foi formada, tendo também a
responsabilidade de nos ensinar e formar, de modo ainda mais perfeito, na nova
identidade que recebemos, não do mundo, mas do alto. Não há autoridade secular
que possa destituí-la dessa função, porque a identidade que a Igreja recebe e,
posteriormente, concede, não vem dos feitos deste mundo, como vimos, mas ela os
transcende e aperfeiçoa. Antes, “o múnus pastoral do Magistério está, assim,
ordenado a velar para que o povo de Deus permaneça na verdade que liberta.”
184. A autoridade magisterial da Igreja serve à totalidade
do povo de Deus por preservar intacta a verdade do Evangelho, juntamente com
todos os ensinamentos morais revelados no Evangelho, que implícita ou
explicitamente, sustentam a liberdade humana. Isso inclui verdades tais como a
dignidade da pessoa humana, a bondade da criação, a nobreza do estado
matrimonial e sua orientação intrínseca para uma comunhão de amor capaz de
gerar vida. Essas verdades não podem ser anuladas pelos pecados cometidos
contra a dignidade que proclamam. Antes, esses pecados levam a Igreja a
proclamar tais verdades mais fielmente, mesmo quando busca renovação nessas
mesmas verdades e no amor do qual derivam.
Como os casais unidos em matrimónio e as famílias dão
testemunho da Igreja
185. Cônjuges cristãos têm um papel chave na proclamação
dessas verdades, de modo que o mundo crê mais persuasivamente, através das
vidas que são continuamente transformadas pelo amor que é participado aos
casais no sacramento do Matrimónio e define tal comunhão como marido e mulher.
O Papa Francisco descreveu de maneira tocante o testemunho da verdade que os
esposos cristãos podem oferecer, com o apoio das graças do sacramento do
Matrimónio: Os esposos cristãos não são ingénuos, conhecem os problemas e os
perigos da vida. Mas não têm medo de assumir a própria responsabilidade, diante
de Deus e da sociedade. Sem fugir nem isolar-se, sem renunciar à missão de
formar uma família e trazer ao mundo filhos. Mas hoje, Padre, é difícil… Sem
dúvida que é difícil! Por isso, é preciso a graça, a graça que nos dá o
sacramento! Os sacramentos não servem para decorar a vida – mas que lindo
matrimónio, que linda cerimónia, que linda festa!... Mas aquilo não é o sacramento,
aquela não é a graça do sacramento. Aquela é uma decoração! E a graça não é
para decorar a vida, é para nos fazer fortes na vida, para nos fazer corajosos,
para podermos seguir em frente! Sem nos isolarmos, sempre juntos. Os cristãos
casam-se sacramentalmente, porque estão cientes de precisarem do sacramento!
186. Ambos os papas, São João Paulo II e Bento XVI, tiveram
a oportunidade de citar um trecho da exortação apostólica Evangelii nuntiandi:
“O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os
mestres, [...] ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas”. O
papa Francisco convoca o casal cristão a ser a espécie de mestre que as pessoas
do mundo de hoje ouvirão, mestres que ensinem pelo testemunho e, portanto,
sustentem a verdade e revelem essa capacidade de persuasão na abertura para uma
nova vida, no calor do amor mútuo e na prontidão à hospitalidade, como oásis de
amor e misericórdia numa cultura tantas vezes marcada pelo cinismo, pela dureza
de coração e pelo desânimo.
187. O testemunho dos esposos cristãos pode trazer luz a um
mundo que valoriza eficiência às pessoas, e o “ter” ao “ser”, e, assim, esquece
completamente os valores da “pessoa” e do “ser”. Que aqueles que são unidos
pelo matrimónio em Cristo possam ser testemunhas fiéis do seu amor e se tornem
mestres da verdade que, sempre e em todo o lugar, é intrinsecamente atrativa.
188. A Igreja é uma instituição, mas é sempre mais que uma
instituição. É mãe, esposa, corpo, família e aliança. Todos os batizados são
seus filhos e filhas, o que confere aos cristãos a mais fundamental e autêntica
das identidades. Assim como nosso pecado nunca apaga nossa conformidade à
imagem de Deus e nossa condição de membros da família divina. Quando os
católicos pecam, isso não suprime a santidade da Igreja. A essência da Igreja
baseia-se em Jesus Cristo, um fundamento que nos chama à responsabilidade, mas
que também é mais profundo e mais seguro que qualquer falha ou sucesso humanos.
Apesar das muitas insuficiências, a Igreja não pode esquivar-se da
responsabilidade de pregar o Evangelho e, assim, levar adiante sua missão de
amor.
Questões para partilha
Como a Aliança de Deus nos protege, mesmo quando pecamos?
Todos pecam, até os líderes católicos. Por que, afinal,
dizemos que a Igreja é santa?
O que Jesus quer que façamos quando a Igreja deixa de viver
conforme sua vontade?
Por que Jesus ama a Igreja? O que na Igreja lhe agrada? O
que lhe causa desapontamento?

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