Catequese X: Escolher a vida
DÉCIMA DE DEZ CATEQUESES PREPARATÓRIAS
DO VIII ENCONTRO MUNDIAL DAS FAMÍLIAS FILADÉLFIA, 22 a 27 de setembro de 2015
Deus nos fez com um propósito. Seu amor é a nossa missão.
Esta missão nos capacita a encontrarmos nossa verdadeira identidade. Se
escolhermos abraçar esta missão, teremos uma nova perspetiva em relação a
muitas questões, não somente em relação à família. Viver a missão da igreja
doméstica significa que as famílias católicas, por vezes, viverão como
minorias, com valores distintos daqueles da cultura à sua volta. Nossa missão
de amor nos exigirá coragem e fortaleza. Jesus nos chama, e podemos dar a
resposta optando pela vida de fé, esperança, amor, alegria, serviço e missão.
Nossa missão para a totalidade da vida
189. Começamos esta catequese explicando que Deus nos fez
por um motivo. O Deus que encontramos em Jesus Cristo nos ama e nos chama a
amar como Ele. Se compreendermos que o amor é nossa missão nos matrimónios, nas
famílias, junto às crianças e nas paróquias, então aprenderemos uma verdade
básica que moldará muitas outras áreas da vida.
190. Por exemplo, se a fidelidade para aqueles que fazem
parte da aliança implica limitações, se nossos corpos e o mundo material podem
ser receptáculos da graça divina, então podemos abordar as questões de
ecologia, tecnologia e medicina com renovada humildade. Da mesma maneira, se
seguimos o compromisso de Deus a uma aliança de amor mais forte que o
sofrimento, então temos novos motivos para ser solidários com o próximo que
está aflito ou magoado. Caso entendamos que ser à imagem de Deus, e, portanto,
ter a dignidade humana, possui raízes mais profundas que qualquer habilidade ou
feito humano contingente, então, compreenderemos por que a Igreja tem tanto
amor pelos mais jovens, pelos idosos, pelos inválidos e por todos aqueles que
dependem de outrem para os cuidados básicos.
191. Agora percebemos por que a catequese sobre a família é,
na verdade, uma catequese para toda a vida. Como diz o papa Francisco, “O
anúncio do Evangelho, passa de fato, antes de tudo, através das famílias para
depois, chegar até aos diversos âmbitos da vida diária.” Se aprendermos a
pensar nossas famílias como igrejas domésticas, se aprendermos por que o
individualismo moral não é o contexto correto para experimentar o ensinamento
católico, então adotamos uma visão que reorientará toda a nossa identidade.
Viver como minoria criativa
192. As perspetivas católicas a respeito do sentido da vida
e como viver bem não persuadirão todos na nossa época. A era da “cristandade”,
quando o Ocidente podia pressupor, ao menos em linhas gerais, algum tipo de
congruência entre os valores públicos e os valores católicos está
desaparecendo. Os católicos ocidentais pós-cristandade estão aprendendo a viver
como cristãos em muitas outras partes do mundo, lugares como a África e a Ásia,
onde cristãos nunca foram a maioria.
193. A condição de minoria em uma cultura não significa uma
posição marginal ou irrelevante. O Catecismo da Igreja Católica, ao instruir
sobre nossa vocação de participação na sociedade, cita uma carta cristã,
escrita em uma época em que a Igreja estava longe de ter prestígio social ou
estabilidade. A tentação de desistir deve ter sido real, mas diz a carta: “Não
vivais isolados, fechados em vós mesmos, como se já estivésseis justificados;
mas reuni-vos para procurar em conjunto o que é de interesse comum.” Esse olhar
voltado ao mundo exterior, esse espírito orientado ao serviço, na verdade, tem
origem ainda mais antiga. Disse o profeta Jeremias aos judeus exilados na
Babilónia, muito embora os babilónios tenham saqueado Jerusalém e feito os judeus
prisioneiros: “Empenhai-vos pelo bem-estar da cidade para onde vos exilei, orai
a Deus por ela, pois a felicidade desse lugar será vossa felicidade” (Jr 29,
7).
194. Viver no exílio como uma minoria criativa, fiel, requer
disciplina espiritual. No Livro de Daniel, ele e seus amigos judeus são capazes
de servir na corte do rei babilónico Nabucodonosor. É surpreendente que os
judeus tenham chegado ao ponto de servir a um rei pagão, mas foram úteis ao rei
exatamente na medida em que permaneceram fiéis judeus.
195. A razão pela qual tinham a sabedoria que os adivinhos
do rei não possuíam é que conformaram a vida à fé no Deus uno e verdadeiro.
Faziam suas preces mantinham as principais prescrições judaicas (tais como
restrições alimentares). Foram fermentos em um palácio pagão porque sabiam quem
eram. Sabiam como se portar em um determinado mundo social, mas não fazer parte
dele. E sabiam quando não transigir – sabiam que a identidade religiosa muitas
vezes teria de pagar um preço alto – mas, aceitaram a cova dos leões e a
fornalha acesa em vez de trair seu Deus e adorar ídolos.
196. Católicos, portanto, têm estratégias e precedentes para
viver a fé em um mundo que não compreende suas crenças ou não concorda com
elas. Se nosso modo de vida é diferente do modo de viver do mundo, no entanto,
temos uma esperança firme e uma razão clara de que há “um desígnio maior que os
próprios projetos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro à pessoa
amada.” Temos um princípio firme para tornarmo-nos independentes das forças
destrutivas na sociedade e na cultura, e esse mesmo princípio nos orienta para
o amor e a participação na sociedade e na cultura. O amor que “move sol e
estrelas”, o amor que cria e sustenta tudo, que é o mesmo amor que anima nossos
matrimónios, famílias, lares e Igreja. Podemos estar certos de que se seguirmos
esse amor até aos pés da cruz, nossos sofrimentos, na verdade, nos tornam mais
verdadeiros, mais autenticamente humanos e que a ressurreição e a justiça estão
vindo porque seguimos um senhor fidedigno. Esse amor nos dará força para viver
claramente como sal da terra.
Somos todos missionários
197. São João Paulo II exortou “família, torna-te aquilo que
és”, e suas palavras não perderam a força, a urgência só foi intensificada em
face dos muitos desafios que as famílias experimentam hoje. A perceção de João
Paulo II era de que a missão da família colhe sua identidade no plano de Deus.
“E porque, segundo o plano de Deus, é constituída qual ‘íntima comunidade de
vida e de amor’, a família tem a missão de se tornar cada vez mais aquilo que
é, ou seja, comunidade de vida e de amor, numa tensão que, [...] encontrará a
plenitude no Reino de Deus.” Nas palavras de João Paulo II, a missão
fundamental da família é, portanto, “guardar, revelar e comunicar o amor”, uma
missão que é “reflexo vivo e participação real do amor de Deus pela humanidade
e do amor de Cristo pela Igreja, sua esposa”. Quando a família abraça essa
identidade missionária, torna-se aquilo para o qual sempre se pretendeu que
fosse.
198. Essa missão não está reservada para poucas e
extraordinárias pessoas. Nem isso quer dizer que as famílias, de alguma
maneira, têm de deixar de ser como são e buscar uma espécie de perfeição
impossível para testemunhar o Evangelho. A família cristã é chamada a
aprofundar, refletir e testemunhar o amor e a vida que já estão na base de ser
uma família.
199. A família é uma comunhão de amor, fundada no dom de si
na comunhão carnal entre as pessoas do marido e da mulher. É essa comunhão
indissolúvel de marido e mulher que cria condições para a família, como uma
verdadeira comunidade de pessoas. É na família que o amor é aprendido como dom
de si, um dom recebido primeiramente do pai e da mãe e, depois, retribuído e
partilhado com os outros. A família é o local onde o valor da comunidade é
aprendido, formando o alicerce para a comunhão na sociedade. Dessa maneira,
matrimónios e famílias, que se esforçam para amar em unidade e fidelidade, dão
um testemunho vital em seus lares, bairros, paróquias e comunidades locais,
onde quer que vão, seja no serviço, no trabalho ou no lazer.
A igreja doméstica se realizará na missão da Igreja
universal
200. A Igreja nunca esteve longe do lar da família. O
próprio Cristo nasceu, cresceu e formou-se no “seio da Sagrada Família de José
e de Maria”. Maria, como virgem e mãe, recapitula de maneira bela e singular
tanto a vocação do celibato quanto a da maternidade. Na vida de união, a
Sagrada Família de Nazaré é um exemplo e intercede por todas as famílias.
Durante o próprio ministério público, Jesus muitas vezes visitava ou pernoitava
em casas de família, em especial, na família de São Pedro, em Cafarnaum. Nas
saudações, São Paulo também manifestava apreço por determinados discípulos, em
especial o casal Prisca e Áquila e “a Igreja que se reúne na casa deles”. Como
nos ensina o Catecismo da Igreja Católica: Desde as suas origens, o núcleo
aglutinante da Igreja era, muitas vezes, constituído por aqueles que, “com toda
a sua casa, se tinham tornado crentes”. Quando se convertiam, desejavam que
também “toda a sua casa” fosse salva. Estas famílias, que passaram a ser
crentes, eram pequenas ilhas de vida cristã no meio dum mundo descrente.
201. Falar da família como uma igreja doméstica significa
que aquilo que é dito da própria Igreja pode ser, analogamente, dito da família
cristã, e que a família cristã, portanto, possui um papel chave na Igreja e no
mundo. O papa João Paulo II falou do “papel eclesial específico e original” da
família cristã: “A família cristã é chamada a tomar parte viva e responsável na
missão da Igreja de modo próprio e original, colocando-se a serviço da Igreja e
da sociedade no seu ser e agir, enquanto comunidade íntima de vida e de amor.”
202. O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica descreve o
sacramento do Matrimónio, juntamente com o sacramento da Ordem, como “ao
serviço da comunhão e da missão”. O matrimónio e a família servem e constroem a
comunhão da Igreja e contribuem para desenvolver sua missão de proclamar o
Evangelho e amar como Cristo amou. Às vezes há uma tendência a pensar somente
em como a Igreja (e como uma determinada diocese e paróquia) serve ao
matrimónio e à família. Certamente, essa é uma parcela vital do alcance
pastoral da Igreja.
203. Tão importante, e talvez mais urgente, é pensar no modo
como as famílias cristãs amam e servem a paróquia, a diocese, a Igreja
universal e o mundo. O clero tem como objetivo assistir as famílias e deve
ajudá-las, por sua vez, a se tornarem missionárias. Isso é, em certo sentido,
uma mudança de paradigma que aguarda pleno florescimento na Igreja: liberar a
família cristã para o trabalho de propagação do Evangelho. Na raiz disso não
está nada mais que a redescoberta da vocação do matrimónio como vocação para
tornar-se uma igreja doméstica.
204. A igreja doméstica não é um conceito abstrato. É uma
realidade, uma vocação e uma missão, fundamentada no sacramento do Matrimónio e
vivida por muitos. Cristo ainda nos chama: famílias cristãs, a Igreja precisa
de vós; o mundo precisa de vós.
205. “Família, torna-te aquilo que és.” Portanto, escolham a
vida que vocês e seus descendentes deverão viver, amando o Senhor, seu Deus,
obedecendo a sua voz, apegando-se a Ele. Essa missão, às vezes, os marcará como
diferentes dos outros na sociedade. Viver seu testemunho de amor irá requerer
compromisso e disciplina, mas não temam. A Igreja está com vocês. O Senhor está
com vocês. O Senhor fez uma aliança com vocês. O Senhor os chama. Ele é fiel, e
sua aliança produzirá frutos. O amor é sua missão, o fundamento de toda a
comunhão, uma aventura profunda no serviço, na beleza e na verdade.
Questões para partilha
De que maneira a catequese na família é, na verdade, uma
catequese para toda a vida? De que maneira os ensinamentos católicos sobre a
natureza humana, o sexo, o casamento e a família correlacionam-se com outros
aspetos da vida?
Os valores e costumes de nossa comunidade tornam mais fácil
ou mais difícil ser católico? Na nossa cultura, você é livre para ser católico
ou existe alguma pressão que compromete a fé? Como participar de sua cultura e
permanecer fiel?
Sua família se vê como uma igreja doméstica? Que valores são
visíveis no modo que vocês vivem a vida doméstica? Que passos podem dar para
tornarem-se missionários melhores?
Que tipo de apoio sua família precisa receber da Igreja?
Como a Igreja pode ajudar vocês? Como vocês podem ajudar a Igreja e as outras
famílias?
Oração para o
encontro mundial das famílias: Filadélfia, em 2015
Deus e Pai de todos nós,
em Jesus, vosso Filho e Senhor Nosso, vós nos fizestes
filhos e filhas
na família da Igreja. Que a vossa graça e amor ajudem nossas
famílias
em todos os lugares do mundo a permanecerem unidas
na fidelidade ao Evangelho.
Que o exemplo da Sagrada Família, com o auxílio de vosso
Santo Espírito,
guie todas as famílias, especialmente as mais atribuladas,
para que sejam lares de comunhão e oração
e sempre busquem vossa verdade e vivam em vosso amor. Por
Jesus Cristo nosso Senhor. Amém
Jesus, Maria e José, rogai por nós!

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