Catequese VIII: Um lar para o coração ferido
OITAVA DE DEZ CATEQUESES PREPARATÓRIAS
DO VIII ENCONTRO MUNDIAL DAS FAMÍLIAS FILADÉLFIA, 22 a 27 de setembro de 2015
Atualmente muitos enfrentam situações de sofrimento
resultantes da pobreza, das deficiências, das doenças, das drogas, do
desemprego e da solidão vivenciada pelos idosos. Além disso, o divórcio e as
questões dos indivíduos com atração por pessoas do mesmo sexo impactam a vida
das famílias de distintas e intensas formas. As famílias cristãs e os grupos
familiares deveriam ser fontes de misericórdia, segurança, amizade e apoio para
aqueles que lutam com estas questões.
Ouvir as palavras incisivas de Jesus
147. Ao cumprimentar a Sagrada Família no Templo, Simeão
declara que o menino Jesus é destinado “a ser sinal de contradição” (Lc 2, 34).
Os evangelhos provam a verdade destas palavras na reação ao ministério de Jesus
por parte dos seus contemporâneos. Jesus ofende, até mesmo, muitos dos seus
seguidores. Uma razão são as “falas duras” encontrados em suas palavras.
148. Algumas das palavras mais duras referem-se ao
matrimónio, ao desejo sexual e à família. Os ensinamentos de Jesus sobre a
indissolubilidade do casamento não só chocam os fariseus, mas também os seus
próprios seguidores: “Se a situação do homem com a mulher é assim, é melhor não
casar” disseram os discípulos. (Mt 19, 10) No Sermão da montanha, Jesus não só
aprofunda os dez mandamentos, mas como o novo Moisés, ele chama os seus
seguidores para uma transformação radical dos seus corações: “Ouvistes o que
foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Ora, eu vos digo: todo aquele olhar para
uma mulher com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela em seu
coração.” (Mt 5, 27-28)
149. Os discípulos do Senhor formam uma nova família
messiânica que transcende e assume prioridade no que concerne às tradicionais
relações familiares. Para os seguidores de Cristo, a água do batismo é mais
densa do que o sangue. A Aliança do Senhor dá um novo contexto para a
compreensão de nossos corpos e nossas relações.
150. A Igreja continua a missão de Cristo no mundo. “Quem
vos escuta, a mim escuta”, Jesus afirma aos discípulos, que Ele envia em Seu
nome (Lc 10, 16). Os bispos, em comunhão com o Santo Padre, sucedem os
apóstolos no seu ministério. Portanto, ninguém se deve surpreender sobre o fato
de alguns ensinamentos da Igreja também serem percebidos como “falas duras”
fora de sintonia com a cultura atual, sobretudo com relação ao casamento, à
expressão sexual e à família.
A Igreja é um hospital de campanha
151. Para entender corretamente o ministério de ensinar da
Igreja, também precisamos considerar a sua natureza pastoral. O Papa Francisco
uma vez criou o vínculo entre a Igreja e “um hospital de campanha depois de uma
batalha.” Ele disse: “É inútil perguntar a uma pessoa seriamente ferida se ela
tem colesterol alto e sobre o seu nível de açúcar no sangue! É preciso curar as
suas feridas. Então poderemos falar sobre outras coisas. Cure as feridas, cure
as feridas... É preciso começar debaixo para cima.”
152. A sexualidade é particularmente vulnerável a tais
feridas. Homens, mulheres e crianças podem ser feridos pelo comportamento
sexual promíscuo (o seu próprio ou de outros), pela pornografia e outras formas
de objetificação, estupro, prostituição, tráfico humano, divórcio e o medo do
compromisso criado por uma cultura cada vez mais anti-matrimonial. Porque a
família molda os seus membros tão profundamente – incluindo a “genealogia da
pessoa” biológica, social e relacionalmente relações quebradas dentro da
família deixam feridas amargamente dolorosas.
153. O Papa nos ajuda a ver as “firmes palavras” da Igreja
como palavras que nos curam. Mas devemos nos dedicar a uma sorte de triagem,
tratando cada ferida segundo sua gravidade.
154. Os evangelhos estão cheios de relatos de curas de
Jesus. Cristo, o médico, é uma imagem frequente nas obras de Santo Agostinho.
Em uma homilia de Páscoa, escreve: “O Senhor, [assim como] um médico
experiente, sabia melhor o que estava acontecendo no homem doente do que ele
mesmo. O que os médicos fazem pelas indisposições dos corpos é o que o Senhor
também pode fazer pelas indisposições das almas”. Com base na parábola do Bom
Samaritano, Agostinho vê a Igreja como uma pousada onde o viajante ferido é
levado para se recuperar: “Vamos, ferido, suplica o médico, vamos levá-lo para
a pousada para ser curado...Por isso, irmãos, a Igreja também, neste tempo no
qual o homem ferido é curado, é a pousada do viajante.”
155. Na Igreja, a primeira prioridade é levar as pessoas a
um encontro com o Médico Divino. Qualquer encontro com Cristo traz cura para a
humanidade decaída, e o Espírito Santo sempre pode ser invocado aos nossos
corações para permitir penitência e conversão. Nas palavras do Papa Francisco:
“Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a
renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a
tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de o procurar dia a dia sem
cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz
respeito, já que ‘da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído’.”
156. Quando o Papa Francisco insistiu num encontro pessoal
com Jesus, ele reafirmou o trabalho dos seus predecessores. O Papa Bento XVI
disse: “ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia,
mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo
horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.” E o Papa João Paulo II sublinhou
que: “para que os homens possam realizar este ‘encontro’ com Cristo, Deus quis
a sua Igreja. Ela, de fato, ‘deseja servir esta única finalidade: que cada
homem possa encontrar Cristo, a fim de que Cristo possa percorrer juntamente
com cada homem o caminho da vida’.”
157. A nova evangelização pode ser entendida como levar os
feridos do campo de batalha do mundo para conhecer o Médico Divino, e a cura
que Ele oferece dentro da comunidade da Igreja. O Papa Francisco vê esta tarefa
como o desafio de ser uma “Igreja missionária” ou “uma Igreja em saída.”
Com paciência e perdão, a Igreja nos ajuda a curar e a
crescer
158. Dentro da Igreja, o poder de cura da graça de Deus é
comunicado pelo Espírito Santo. O Espírito Santo faz Jesus presente no culto
litúrgico, na leitura orante da Escritura, à luz da tradição sagrada, e no seu
ofício de ensinar, que está a serviço de Deus. Cristo, o Médico, manifesta-se,
particularmente, nos sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos, que são
os dois sacramentos da cura.
159. A participação na vida sacramental, o desenvolvimento
de uma vida de oração, a prática de caridade, a disciplina espiritual, a
responsabilidade e o apoio de amigos da Igreja oferecem ao ferido um caminho de
conversão para um cristão em recuperação. Mas a conversão não se completa num
instante. Continua como um chamado constante para todos os membros da Igreja:
“o apelo de Cristo à conversão continua a fazer-se ouvir na vida dos cristãos.
Esta segunda conversão é uma tarefa ininterrupta para toda a Igreja, que
‘contém pecadores no seu seio’ e que é, ‘ao mesmo tempo, santa e necessitada de
purificação, prosseguindo constantemente no seu esforço de penitência e de
renovação’.”
160. A natureza progressiva da conversão molda a nossa
capacidade de entender e viver os ensinamentos da Igreja. Falando sobre o
progresso moral dos cristãos casados, o Papa João Paulo II distinguiu entre “a
lei da gradualidade” e “a gradualidade da lei.” A “lei da gradualidade”
refere-se à natureza progressiva da conversão. Recuperado das feridas do
pecado, os cristãos crescem em santidade em todas áreas de suas vidas,
incluindo a sua sexualidade. Quando ficam aquém disso, precisam voltar para a
misericórdia de Deus, acessível nos sacramentos da Igreja.
161. A “gradualidade da lei”, por outro lado, é a ideia
equivocada de que há “vários graus e várias formas de preceito na lei divina
para homens em situações diversas.” Por exemplo, alguns argumentam,
erroneamente, que os casais que sentem o ensinamento católico sobre a
paternidade responsável como um peso deveriam ser incentivados a seguir a sua
própria consciência na escolha da contraceção. Esta é uma forma errada de
gradualismo. De fato, disfarça uma forma de paternalismo, negando a capacidade
de alguns membros da Igreja em responder a plenitude do amor de Deus, e visando
“diminuir à força” a moral cristã ensinada a eles.
162. Em um espírito de verdadeira gradualidade, o Papa
Francisco recentemente elogiou a coragem do seu predecessor Paulo VI na sua
encíclica Humanae vitae. Ao resistir a uma crescente pressão social para o
controle da população, o Papa Francisco disse (sobre Paulo VI) que o seu “génio
foi profético, ele teve a coragem de escolher o lado oposto da maioria,
defender a disciplina moral, frear a cultura, e se opor ao neomalthusianismo,
presente e futuro.”
163. Mas, ao mesmo tempo, o Papa Francisco observou que
Paulo VI disse aos seus confessores para interpretarem a sua encíclica com
“muita misericórdia e atenção com as situações concretas... A questão não é
mudar a doutrina, porém ir além disso, e certificar-se que o cuida do pastoral
leva em conta as situações e o que cada pessoa é capaz de fazer”. Portanto, a
Igreja chama os seus membros à plenitude da verdade e os encoraja a
beneficiar-se da piedade de Deus à medida que crescem em sua capacidade de
viver.
O ensinamento católico depende da comunidade católica
164. Muitos dos ensinamentos morais de Cristo e, portanto, a
ética católica, são exigentes. Mas presumem que os cristãos tenham um espírito
de discipulado, uma vida de oração, e o compromisso para o desenvolvimento
social e o testemunho cristão. Sobretudo, pressupõem uma vida numa comunidade
cristã - ou seja, uma família de outros homens e mulheres que encontram Jesus,
e juntos confessam que ele é o Senhor, desejando que a sua graça molde as suas
vidas e ajudando uns aos outros a responder o seu chamado.
165. A Doutrina católica sobre a homossexualidade deve ser
entendida sob essa ótica. Os mesmos ensinamentos que convidam as pessoas
atraídas pelo mesmo sexo a viverem vidas de castidade em forma de continência,
convidam a todos os católicos a abandonar os seus próprios medos, e a evitar a
discriminação injusta, a fim de receber os seus irmãos e irmãs homossexuais à
comunhão de amor e verdade dentro da Igreja. Todos os cristãos são chamados a
enfrentar as suas inclinações sexuais desordenadas e a crescer na castidade –
ninguém é isento deste chamado – e, consequentemente, na sua capacidade de doar
e receber amor de uma maneira consoante com o seu estado de vida. Porém, a
resposta para este apelo à conversão é inevitavelmente uma obra em progresso em
nós, pecadores recuperados, que constituímos a Igreja, como membros seus. A
chave é criar, dentro da família, da paróquia e da comunidade cristã, um
ambiente de apoio mútuo, onde crescimento moral e mudança possam ocorrer.
166. Parte da urgência em aprovar e outorgar o estatuto
legal de casamentos entre pessoas do mesmo sexo e a coabitação de pessoas do
sexo oposto provem de um medo compreensível da solidão. Mais e mais na cultura
dominante secular, ter um parceiro erótico é percebido como uma clara
necessidade, e assim se pensa que o posicionamento da Igreja é cruel, pois
estaria condenando homens e mulheres a uma vida de solidão.
167. Mas se paroquianos comuns entenderem a razão por trás
do celibato como uma prática de comunidade, e se mais igrejas domésticas
levassem o apostolado da hospitalidade mais a sério, então a antiga doutrina
católica sobre a castidade vivida em continência fora do matrimónio talvez
parecesse mais plausível aos olhos modernos. Em outras palavras, se as nossas
paróquias realmente fossem lugares onde “solteiro” não significasse
“solitário,” onde redes estendidas de amigos e famílias realmente
compartilhassem a alegria e a tristeza de cada um, então, talvez, algumas das
objeções do mundo aos ensinamentos católicos poderiam ser desarmados. Os
católicos podem abraçar os apostolados da hospitalidade, não importa o quão
hostil ou indiferente a cultura ao entorno possa ser. Ninguém está limitando
leigos ou ordenados católicos na amizade que se pode oferecer aos que passam
provações.
168. No seu cuidado pastoral dos divorciados ou novamente
casados, a Igreja tem buscado combinar fidelidade ao ensinamento de Jesus sobre
a indissolubilidade do matrimónio que consternou os seus discípulos com a
misericórdia no centro do seu ministério. Considerem, por exemplo, os
ensinamentos de Bento XVI sobre a situação pastoral de homens e mulheres
divorciados: Considero grande tarefa duma paróquia, duma comunidade católica,
fazer todo o possível para que elas sintam que são amadas, acolhidas, que não
estão “fora” [...]. Devem ver que mesmo assim vivem plenamente na Igreja. [...]
Este sofrimento não é só um tormento físico e psíquico, mas também um sofrer na
comunidade da Igreja pelos grandes valores da nossa fé. Penso que o seu
sofrimento, se realmente aceite interiormente, seja um dom para a Igreja. Devem
saber que precisamente assim servem a Igreja, estão no coração da Igreja.
169. Em outras palavras, Bento XVI pressupôs a verdade do
ensino de Cristo, mas não simplesmente descartou os divorciados que voltaram a
se casar, dizendo-lhes para ranger os dentes ou sofrer em solidão. Esse não é o
caminho da Igreja, e qualquer católico que age como se fosse assim deveria
lembrar que um dos crimes dos fariseus era sobrecarregar os outros com as leis,
mesmo sem “levantar um dedo” para ajudar as pessoas com os seus fardos (cf. Mt
23, 4). Em vez disso, Bento XVI recorda o Catecismo da Igreja Católica, que diz
que “padres e toda a comunidade devem manifestar uma solicitude atenta” para
com os católicos divorciados, para que eles não se sintam excluídos.
170. Os laços da amizade fazem suportáveis as exigências do
discipulado. “Carregando os fardos uns dos outros”, dentro da comunidade cristã,
possibilita-se que os seus membros caminhem um trajeto de cura e conversão. A
caridade fraterna faz a fidelidade possível. Também oferece um testemunho e
incentivo para toda a Igreja. O Catecismo da Igreja Católica tem algo parecido
em mente quando diz que cônjuges, que perseveram em casamentos difíceis,
“merecem a gratidão e o amparo da comunidade eclesial.” O mesmo pode ser dito
para todos que se encontram em situações familiares desafiantes.
171. Em uma cultura que vacila entre anonimato por um lado e
curiosidade voyeurística “sobre os detalhes das vidas de outras pessoas”, por
outro, o Papa Francisco nos chama para acompanhar uns aos outros na obra de
crescimento espiritual. Ele diz: “um válido acompanhante não transige com os
fatalismos nem com a pusilanimidade. Convida sempre a querer curar-se, a pegar
no catre (cf. Mt 9, 6), a abraça a cruz, a deixar tudo e partir sem anunciar o
Evangelho.” Os que são curados são capazes de estender o convite de cura a
outros.
172. A fé cristã e a salvação não são individualistas; são
profundamente comunhão: “A fé tem uma forma necessariamente eclesial, é
professada partindo do corpo de Cristo, como comunhão concreta dos crentes. A
partir deste lugar eclesial, ela abre o indivíduo cristão a todos os homens.
Uma vez escutada, a palavra de Cristo, quando ouvida, pelo seu próprio
dinamismo, transforma-se em resposta no cristão, tornando-se ela mesma palavra
pronunciada, confissão de fé.”
173. Jesus ensinou muitas coisas sobre sexo e casamento que
eram difíceis de se viver, tanto nos tempos antigos como hoje em dia. Mas não
estamos sozinhos quando enfrentamos estas dificuldades. A vida no Corpo de
Cristo é destinada para ser vivida como membros interdependentes, que constroem
uns aos outros no amor. O ensinamento, os sacramentos e a comunidade da Igreja
existem para ajudar no caminho. Com paciência, perdão e confiança, no Corpo de
Cristo, juntos podemos curar e viver de tal forma que poderia parecer
impossível.
Questões para partilha
A Igreja é um hospital de campanha. Como a Igreja ajuda as
pessoas que estão feridas? Como podemos melhorar?
Por que os católicos não são individualistas morais? Por que
enfatizamos o apoio da comunidade? Como você tem percebido a graça de Deus
trabalhando por meio de uma comunidade?
Quais são os obstáculos para se criar amizades espirituais
na sua cultura? O que a sua paróquia ou diocese pode fazer para encorajar
amizades católicas?
Qual apoio existe na sua paróquia ou diocese para se fazer
progresso na castidade? Existem grupos de apoio ou oportunidades para a
educação? Com qual frequência é oferecido o sacramento da Penitência? Há
oportunidades para uma direção espiritual?

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