Catequese V: Criando o futuro
QUINTA DE DEZ CATEQUESES PREPARATÓRIAS
DO VIII ENCONTRO MUNDIAL DAS FAMÍLIAS FILADÉLFIA, 22 a 27 de setembro de 2015
O casamento deve ser fecundo e aberto às novas vidas. As
crianças modelam o futuro, da mesma forma que elas mesmas são formadas em suas
famílias. Sem as crianças não pode haver o futuro. Crianças criadas com amor e
orientação são a base para um futuro de amor. Crianças feridas prenunciam um
futuro ferido. As famílias constituem o fundamento para todas as outras formas
de comunidade. As famílias são igrejas domésticas, lugares no quais os pais
auxiliam os filhos a descobrirem que Deus os ama e tem um plano para a vida de
cada um.
O casamento fornece o contexto espiritual para as
possibilidades criadas pela biologia
68. O casamento inclui amor, lealdade e compromisso. Mas
assim é o caso de muitas outras relações dignas. O casamento é algo distinto. O
casamento é a aliança construída no poder de procriação do homem e da mulher. A
nossa biologia coloca certas limitações e possibilidades, e o casamento é uma
resposta para viver esta situação em santidade.
69. Trataremos a outra resposta ao chamado de Deus – o
celibato – no próximo capítulo. No capítulo sete, refletiremos sobre os
desafios à ideia de fecundidade no casamento, desafios que surgem das questões
do casamento fechado à concepção e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nesta
secção, precisamos discutir como o amor conjugal integra a fecundidade de
homens e mulheres com o sacramento da aliança de Deus.
70. O casamento é uma resposta à possibilidade da procriação
entre homens e mulheres. Quando um homem e uma mulher se casam, dando o passo
adicional de livremente consentir em promessas de mútua fidelidade e
permanência, o casamento coloca a procriação no contexto da dignidade humana e
da liberdade. As promessas matrimoniais são análogas à aliança de Deus com
Israel e a Igreja. O casamento, como a Igreja ensina, é “o pacto matrimonial,
pelo qual o homem e a mulher constituem entre si o consórcio íntimo de toda a
vida, ordenado por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e
educação da prole, entre os batizados foi elevado por Cristo nosso Senhor à
dignidade de sacramento.” Em síntese, o casamento é uma comunidade de vida e de
amor.
71. O sacramento do Matrimónio torna fiel a força da aliança
de Deus, bem como a sua comunhão trina com o Pai, o Filho e o Espírito Santo,
disponível ao esposo e à esposa. Este fundamento espiritual dá uma nova e mais
profunda razão à fecundidade biológica, porque se abrir à geração de filhos é
uma extensão da generosidade divina. Desse modo, podemos ver como os clássicos
“três bens do casamento” (filhos, fidelidade e sacramento), segundo Santo
Agostinho, são enraizados no plano divino.
A vocação espiritual da paternidade
72. Como acontece com qualquer questão vocacional, a questão
de saber se e quando ter filhos não é algo a ser decidido simplesmente de
acordo com critérios humanos autorreferencias. Existem reais e legítimas
condições humanas “físicas, económicas, psicológicas e sociais”, que esposos e
esposas deveriam considerar no seu discernimento. Mas, ao final, a questão
sobre se tornar pais repousa sobre a mesma justificativa que o próprio
matrimónio sacramental: amor na forma de serviço, sacrifício, confiança e
abertura à generosidade de Deus. O casamento católico tem como perspetiva os
sacramentos e o apoio da comunidade cristã e, assim, quando cônjuges católicos
consideram a possibilidade de se tornarem pais continuam no mesmo contexto
espiritual e comunitário.
73. Quando cônjuges tornam-se pais, a dinâmica interna da
criação de Deus e o sacramento do Matrimónio aparecem de forma bonita e
particularmente clara. Quando o casal tem filhos de acordo com o padrão de amor
que Cristo tem para connosco, o mesmo amor também orienta os novos pais na
educação e na formação espiritual dos seus filhos. “Estas crianças são elos de
uma corrente”, disse o Papa Francisco quando recentemente batizou 32 bebés.
“Vocês, pais, apresentam hoje seus filhos para serem batizados. Amanhã, serão
eles a apresentarem seus filhos ou netos. Eis a corrente da fé!”
74. Esta corrente de filhos e pais estende-se por milénios
Duas vezes ao dia, e ainda hoje orações judaicas começam com a antiga Sh´ma
(Shema), uma oração encontrada em Deuteronómio: Ouve, Israel! O Senhor nosso
Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com
toda a tua alma e com todas as tuas forças. E trarás gravadas no teu coração
todas estas palavras que hoje te ordeno. Tu as repetirás com insistência a teus
filhos e delas falarás quando estiveres sentado em casa ou andando a caminho,
quando te deitares ou te levantares.
75. Repetimos: Tu as repetirás com insistência a teus
filhos. No coração deste mandamento, esta responsabilidade fundamental, está a
reafirmação quotidiana entre Deus e Israel. Os pais devem incentivar e guiar os
seus filhos na sua relação comunitária com Deus. Assim o Deuteronómio diz:
ensine e compartilhe as glórias de Deus com as suas crianças. Jesus diz o mesmo
aos seus discípulos: deixem-nos vir a mim (cf. Mt 19, 14). Tanto o Deuteronómio
quanto Jesus falam para nós. Ambos estão dizendo: Certifiquem-se de que as
crianças sob sua responsabilidade tenham uma relação com Deus e com o povo de
Deus. Ensinem às crianças a orar e contemplar o Senhor. Motivem isso
quotidianamente na sua casa, e não criem obstáculos para isso.
76. Esta vocação confere um propósito à paternidade dos pais
católicos. O mesmo amor que preenche homens e mulheres, ensinando-lhes o
caminho da aliança e trazendo-os ao sacramento do Matrimónio, faz com que um
casal se torne uma família. Um esposo e uma esposa tornam-se pai e mãe: “Desta
união origina-se a família, na qual nascem novos cidadãos da sociedade humana,
os quais, para perpetuar o Povo de Deus através dos tempos, se tornam filhos de
Deus pela graça do Espírito Santo, no Batismo”. Cristãos não só têm filhos para
continuar a espécie e construir a sociedade, mas para que toda a família possa
ser formada para a comunhão dos santos. De acordo com as palavras de Santo
Agostinho, o amor sexual entre homem e mulher “é a sementeira, por assim dizer,
de uma cidade”, e ele tem em mente não só a cidade terrena ou a sociedade
civil, mas também a cidade celestial, onde a Igreja chegará à plenitude.
A vida na Igreja doméstica
77. O Vaticano II chamou a família de “igreja doméstica,”
uma Ecclesia domestica: Na família, como numa igreja doméstica, devem os pais,
pela palavra e pelo exemplo, ser para os filhos os primeiros arautos da fé e
favorecer a vocação própria de cada um, especialmente a vocação sagrada. A
natureza vocacional da vida familiar requer viver com atenção. “Cada homem é
chamado a desenvolver-se, porque toda a vida é vocação.” Mas, construir um
matrimónio, discernir uma vocação não “vem do nada.” Os hábitos de
discernimento podem ser ensinados e cultivados. É responsabilidade de um pai e
de uma mãe estar com as crianças em casa e na Igreja e rezar regularmente. Não
vão aprender como fazê-lo, se não são ensinados. Os pais podem buscar ajuda de
padrinhos, avós, professores, clérigos e religiosos para cumprir com as suas
responsabilidades e para que os filhos também possam crescer e aprender sobre a
oração. O Papa Francisco, um jesuíta com anos de formação na arte do
discernimento, descreve como a oração e a vocação caminham juntas: “É
importante ter uma relação quotidiana com Ele [Deus], ouvi-lo em silêncio
diante do Tabernáculo e no íntimo de nós mesmos, falar-lhe, receber os
sacramentos. Manter esta relação familiar com o Senhor é como deixar aberta a janela
da nossa vida, a fim de que Ele nos faça ouvir a sua voz, o que Ele deseja de
nós”.
78. Praticar e ensinar o discernimento à família implica
paciência e oração, um desejo constante para purificar motivos, para confessar
e fazer penitência, para ser paciente no lento trabalho de crescer na virtude,
para abrir a sua imaginação para as Escrituras e o testemunho da Igreja, e para
entender a sua vida interior. Aprender a discernir para nós mesmos e
transmiti-lo às nossas crianças implica humildade, uma abertura a críticas
construtivas e diálogo sobre como Deus pode estar influenciando a nossa vida.
Uma abordagem vocacional para a vida implica uma disposição em ser honesto
sobre os nossos próprios desejos, mas, sobretudo, oferecer a nossa vida a Deus,
ser aberto para as aventuras e novos planos que possam se apresentar quando
dizemos “ não seja feito como eu quero, mas como tu queres.” (Mt 26, 39; cf.
26, 42) Santa Teresa de Lisieux rezou desta maneira quando era criança,
dizendo: “Meu Deus, eu escolho tudo. Eu não quero ser uma santa pela metade. Eu
não tenho medo de sofrer por Vós. Eu só temo uma coisa: fazer a minha vontade
própria. Então recebei-a, porque eu escolho tudo que Vós quiserdes.”
79. Especialmente quando uma família tem muitos filhos, os
pais enfrentam uma ampla gama de tensões. Paternidade é exigente. Não obstante,
se a meta da vida familiar cristã é abrir as janelas da casa à graça de Deus na
vida quotidiana, então mesmo em meio à fadiga e ao caos doméstico, os pais
podem manter-se abertos ao Espírito. Ninguém quer sobrecarregar os pais. Porém,
“amor de Deus [...] não se deve exercitar apenas nas coisas grandes, mas, antes
de mais, nas circunstâncias ordinárias da vida.” Na vulnerabilidade de tais
momentos, os pais podem entender o que São Paulo pretendia quando disse: “pois
quando sou fraco, então é que sou forte.” (2Cor 12, 10)
80. A paternidade tem um modo de esvaziar pretextos; de
fazermos ver que não somos autossuficientes, mas que precisamos da ajuda e
força de Deus, família, paróquia e amigos. A maneira como uma família responde
à adversidade e à doença, ou reúne para as refeições e devoções, ou toma
decisões financeiras estabelecendo prioridades, ou a forma como faz escolhas
sobre o lazer, o trabalho ou a carreira dos pais, a formação académica dos
filhos, e mesmo sobre os horários para dormir. Esses e muitos outros aspetos da
“economia doméstica” formam as imaginações e horizontes das crianças. Rotinas
internas podem ser espaços privilegiados onde a luz do Espírito penetra, onde
uma atitude de gentileza e hospitalidade cristã fermenta toda vida.
O nosso contexto cultural requer que as famílias tenham
discernimento
81. Papa Francisco expressa muitas destas ideias de uma
maneira prática: Penso que todos nós podemos melhorar um pouco neste aspeto,
tornando-nos todos mais ouvintes da Palavra de Deus, para sermos menos ricos
com as nossas palavras e mais ricos com as suas Palavras. [...] Penso no pai e
na mãe, que são os primeiros educadores: como podem educar, se a sua
consciência não for iluminada pela Palavra de Deus, se o seu modo de pensar e
de agir não se deixar orientar pela Palavra; que exemplo podem dar aos seus
filhos? Isto é importante, porque depois o pai e a mãe queixam-se: “Este
filho...”. Mas tu, que testemunho lhe ofereceste? Como lhe falaste? Da Palavra
de Deus, ou da palavra do noticiário televisivo? O pai e a mãe devem falar da
Palavra de Deus! E penso nos catequistas, em todos os educadores: se o seu
coração não for aquecido pela Palavra, como podem sensibilizar os corações dos
outros, das crianças, dos jovens e dos adultos? Não é suficiente ler as
Sagradas Escrituras, mas é preciso ouvir Jesus que fala através delas: é
precisamente Jesus quem fala nas Escrituras, é Jesus quem fala nelas. [...]
Interroguemo-nos [...] que lugar ocupa a Palavra de Deus na minha existência,
na vida de todos os dias? Estou sintonizado com Deus, ou com tantas palavras da
moda ou ainda comigo mesmo? Uma pergunta que cada um de nós deve formular.
82. O Papa se referiu aos noticiários da TV, aos quais não
deveríamos dar tanta atenção, ao levantar questões sobre as grandes médias,
incluindo as redes sociais da internet e outras formas de cultura popular.
Relacionar-se com estas formas de cultura não é algo que deveria acontecer de
modo automático; relacionar-se com estas formas de cultura de maneira
construtiva também requer discernimento. O Catecismo da Igreja Católica, ao
tratar da igreja doméstica, observa que o mundo de hoje “frequentemente é
estranho e até hostil à fé.” Numa cultura fragmentada, o ambiente social e das
médias podem comprometer a autoridade dos pais em geral, e a paternidade
católica em particular. Pais e filhos devem refletir sobre a maneira da sua
família estar no mundo, sem pertencer ao mundo.
83. Quando qualquer um de nós – mas especialmente as
crianças – encontra a cultura, nossas imaginações e ambições são moldadas. Em
grande medida, todos nós mas especialmente as crianças adquirimos as nossas
expectativas por uma boa vida, em parte por meio de imagens, filmes, músicas e
histórias da nossa vida. Portanto, cabe aos pais, à toda família, padrinhos e
mentores adultos e educadores, monitorar esta exposição, e garantir que as
imaginações das crianças sejam fortalecidas e nutridas com alimentos saudáveis,
com material que proteja a sua inocência, estimule o seu apetite pela aventura
da vida cristã e evoque um sentido vocacional da vida. Beleza e contemplação
devem ser parte do ambiente comum de uma criança, para que elas aprendam a
perceber a dimensão sacramental da realidade. Pais, idosos, padrinhos,
parentes, paroquianos, catequistas e professores precisam modelar estas
atitudes para as crianças. A formação de jovens necessariamente implica
“conhecimento do livro”. Alfabetização espiritual significa conhecimento sobre
os fatos da fé. Mas é ainda mais essencial ensinar às crianças como orar, e
sugerir-lhes modelos a seguir, exemplos de adultos para elas testemunharem e
aspirarem.
84. Crianças mais velhas podem tornar-se devidamente
auto-conscientes e reflexivas sobre a cultura do seu ambiente, e também começar
a formar uma perspetiva madura sobre a oração e o discernimento vocacional.
Estes temas importantes devem ser parte da preparação para se receber o
sacramento da Confirmação, o qual concede a graça para possibilitar o fiel
discipulado na vida.
A família e a paróquia dependem uma da outra
85. A Ecclesia domestica, evidentemente, não pode existir
sem a Ecclesia. A Igreja doméstica implica uma relação com a Igreja universal:
“A família, para ser uma ‘pequena igreja’ precisa ser bem integrada com a
‘grande igreja’, isto é, com a família de Deus da qual Cristo veio.” A
participação regular na missa de domingo com toda a Igreja é um sine qua non (o
meio através do qual) para a igreja doméstica realizar seu nome. A Igreja
universal é portadora e mestra da aliança de Deus com o seu povo, a mesma
aliança que possibilita e sustenta a vida conjugal e familiar.
86. O Papa Bento XVI falou sobre a paróquia como uma
“família de famílias”, que é “capaz de compartilhar umas com as outras, não só
os prazeres, mas também as inevitáveis dificuldades de iniciar a vida
familiar.” Com certeza, sacramentos, e frequentemente as obras corporais de misericórdia,
podem ser prestativamente facilitadas pela paróquia. As crianças precisam ver
os seus pais e outros adultos em suas vidas demonstrando solidariedade com os
pobres e fazendo coisas que os beneficiem. Paróquias e dioceses podem ajudar a
suscitar estas ocasiões. A igreja doméstica serve a paróquia e é servida pela
paróquia.
87. A paróquia, a diocese e outras instituições católicas
como escolas, movimentos e associações são especialmente essenciais para as
crianças que só têm o pai ou só a mãe. As crianças podem estar sem um ou ambos
os pais por uma série de razões, incluindo morte e doença, divórcio, migração,
guerra, álcool e dependência de drogas, violência doméstica, abuso, perseguição
política, desemprego ou itinerantes condições de trabalho devido à pobreza.
Infelizmente, às vezes, esposos e esposas, mães e pais separam-se, muitas vezes
por razões que exigem a nossa compaixão. “O abalo emocional sofrido por
crianças de pais separados, que de repente se encontram com um pai ou mãe
solteira ou em uma família ‘nova’, representa um desafio para Bispos,
catequistas, professores e todos que são responsáveis pelos jovens. [...] Não é
uma questão de substituir os seus pais, porém, de colaborar com eles”.
88. Para uma paróquia efetivamente ser “uma família de
famílias” é necessário que haja ações concretas de hospitalidade e
generosidade. São João Paulo II disse que “abrir as portas da própria casa e
ainda mais do próprio coração” é uma maneira de imitar a Cristo. Prestar e
receber ajuda são coisas íntimas. Ninguém, especialmente uma criança, pais que
lutam com crises inesperadas, idosos em situação vulnerável, ou toda pessoa que
estiver sofrendo, deveria ser solitário no seio da família da paróquia. Nada
comparado com a amizade e o servir uns aos outros entre simples paroquianos
durante a semana, prolongando a vida da Igreja para além das celebrações
dominicais. O modo como os leigos se tratam entre eles vai determinar se uma
paróquia está cumprindo a sua missão. Esta visão de vida paroquial deve ser
ensinada e modelada pelo clero, talvez especialmente em paróquias grandes onde
haja a tentação para o anonimato. Mas, ao final, vitalizar uma paróquia desta
forma não pode ser de modo clericalizado. Esta é uma versão da vida da Igreja
que requer leigos. São Paulo disse aos Gálatas que se “carregue os fardos
pesados uns dos outros e” assim ”cumpram a lei de Cristo” (Gl 6, 2). Assim, por
conseguinte, se não carregamos os fardos uns dos outros, se deixamos famílias
vulneráveis e pessoas solitárias por conta própria ao abandono, então não
realizamos o que somos capazes de realizar. Se os nossos estilos de vida não
estiverem baseados em comunhão e serviço, então não poderemos amadurecer. Fomos
feitos uns para os outros, e viver como se isto não fosse verdade é uma tristeza,
uma falta de realização da lei vivificante de Cristo.
89. A hospitalidade para com as crianças solitárias
naturalmente levantará a questão da adoção. João Paulo II, falando para uma
assembleia de famílias adotivas, disse: Adotar uma criança é uma grande obra de
amor. Quando ela se realiza, dá-se muito, mas também se recebe muito. É uma
verdadeira troca de bens. O nosso tempo conhece, infelizmente, também neste
âmbito, não poucas contradições. Perante muitas crianças que, pela morte ou a
inabilidade dos pais, ficam sem família, há muitos casais que decidem viver sem
filhos por motivos não raro egoístas. Outros se deixam desencorajar por
dificuldades económicas, sociais ou burocráticas. Outros ainda, desejosos de
ter um filho “próprio” custe o que custar, vão muito além da legítima ajuda que
a ciência médica pode assegurar à procriação, utilizando práticas moralmente
repreensíveis. Diante dessas tendências, é preciso reafirmar que as indicações
da lei moral não se resolvem com princípios abstratos, mas tutelam o verdadeiro
bem do homem, e neste caso o bem da criança, em relação dos interesses aos
próprios pais. João Paulo II esperava que “famílias cristãs fossem capazes de
mostrar maior disposição para adotar e criar crianças que têm perdidos os seus
pais ou sido abandonados por eles.” Ele tinha esta esperança porque o amor que
anima um casamento cristão é a aliança de Deus, um amor que é eternamente
hospitaleiro e pleno de vida.
90. A intimidade sexual entre homens e mulheres aumenta a
possibilidade de se ter filhos. Nenhum outro relacionamento leva a esta
possibilidade básica, orgânica e biológica. O casamento entre um homem e uma
mulher traz este potencial da fecundidade para um contexto espiritual. Ser pais
é uma vocação espiritual, porque em última instância significa preparar os
nossos filhos para serem santos. Esta ousada ambição implica humildes mas
importantes práticas no lar, como a oração e o cultivo de uma disposição
espiritual. Isso requer que pais tenham discernimento sobre como uma família se
insere na ampla cultura. Conduzir as crianças para o Senhor significa que a
igreja doméstica precisa de se integrar tanto com a paróquia como com o resto
da Igreja universal. Os desafios da vida familiar exigem apoio. Nenhuma família
consegue se desenvolver por sua própria conta. Para prosperar, as famílias
precisam das suas paróquias, e as suas paróquias precisam delas. Os leigos são
necessários para criar e servir nesses ministérios.
Questões para partilha
Como o casamento entre um homem e uma mulher se difere de
outras amizades íntimas?
Você nunca orou com uma criança? Que tal ler a Bíblia com
uma criança ou discutir outros aspetos da fé? Se você mesmo não é pai, há
crianças na sua vida que poderiam precisar de um amigo ou um mentor?
Quais são os hábitos de discernimento? Que vocação gostaria
de ter?
O que é uma igreja doméstica? Como a paróquia serve a
família e como a família serve a paróquia? Como a família e a paróquia podem
“cumprir a lei de Cristo” como descrito em Gálatas 6, 2?

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