Catequese III: O significado da sexualidade humana
TERCEIRA DE DEZ CATEQUESES PREPARATÓRIAS
DO VIII ENCONTRO MUNDIAL DAS FAMÍLIAS FILADÉLFIA, 22 a 27 de setembro de 2015
O mundo tangível, terreno, corpóreo é mais do que matéria
inerte ou maleável ao arbítrio humano. A criação é sagrada. Tem um significado
sacramental. Reflete a glória de Deus. Inclui nosso corpo. Nossa sexualidade
tem a capacidade de procriar e partilhar da dignidade de ser criada à imagem de
Deus. Precisamos viver de acordo com isso.
O mundo físico da natureza está cheio de bondade espiritual
37. A fé católica sempre foi uma religião vigorosamente
“física”. A Bíblia começa com um jardim e termina com um banquete. Deus criou o
mundo e disse que era bom e ingressou na história. Jesus Cristo, Filho de Deus,
encarnou-se e tornou-se um de nós. Nos sacramentos, coisas materiais são
consagradas e transformadas em sinais visíveis da graça. Os costumeiros pão e
vinho, água, óleo e o toque das mãos humanas são modos tangíveis pelos quais a
presença de Deus se torna efetiva e real.
38. Acreditamos nas obras materiais da caridade. Quando
alimentamos os famintos, damos de beber a quem tem sede, vestimos o que está
nu, abrigamos os estrangeiros, assistimos aos doentes, visitamos os
encarcerados ou enterramos os mortos, verdadeiramente, servimos a Jesus (cf. Mt
25, 3540). Confiamos na bondade da criação de Deus (cf. Gn 1, 431). Essa
confiança permeia a imaginação católica. Torna-se visível em nossa arte e
arquitetura, na cadência das festas e jejuns do calendário litúrgico, na
piedade popular e nos sacramentais.
A sexualidade masculina e feminina participa do propósito
espiritual
39. A criação material tem um significado espiritual com
consequências para o modo como vivemos como homem e mulher. Nossa sexualidade
tem um propósito. Nossos corpos não são meros invólucros para a alma ou
máquinas sensórias para o cérebro. Não são matéria-prima que possamos maltratar
ou reprogramar à vontade. Para os cristãos, corpo e espírito estão
profundamente integrados. Cada ser humano é uma unidade de corpo e alma. Santa
Hildegarda de Bingen escreveu que “O corpo é, na verdade, o templo da alma,
cooperando com a alma por meio dos sentidos como a roda de moinho é movida pela
água.” O corpo tem uma dignidade inerente como parte da criação de Deus. É
parte íntima de nossa identidade e destino eterno. Os dois sexos, literalmente,
encarnam o desígnio divino de interdependência humana, de comunidade e de
abertura à nova vida. Não podemos degradar ou maltratar o corpo sem infligir um
custo ao espírito.
40. Por certo, nem sempre amamos como deveríamos. O sexo é
um fator extremamente poderoso nos assuntos humanos – tanto para o bem quanto
para o mal. Assim, a sexualidade usada de maneira incorreta ou desordenada
sempre foi uma grande fonte de confusão e pecado. Desejo sexual e
auto-compreensão podem ser complexos, mas não são auto-interpretáveis. Nossa
identidade é revelada em Jesus e no plano de Deus para nossas vidas, não em
autoafirmações decaídas.
41. O casamento existe porque a procriação e a comunhão, a
biologia e a promessa divina, o natural e o sobrenatural, juntos, fundamentam o
que é ser “humano”. O matrimónio existe porque descobrimos e aceitamos, e não
porque inventamos ou renegociamos a vocação para a oferta de si mesmo que é
algo intrínseco a ser criado, na aliança, homem e mulher. O matrimónio é uma
criação de Deus, porque somos criaturas de Deus, e porque Deus criou homem e
mulher para comungar com ele de sua aliança.
42. Nossa origem, com dois sexos diferentes e
complementares, e a vocação ao amor, à comunhão e à vida são um único e mesmo
momento. Nas palavras do papa Francisco: “Esta é a história do amor, a história
da obra-prima da criação.”
43. Essa vocação ao amor, à comunhão e à vida, envolve todo
o ser do homem e da mulher, corpo e alma. A pessoa humana é, simultaneamente,
um ser físico e espiritual. O corpo, de certo modo, revela a pessoa.
Consequentemente, a sexualidade humana nunca é simplesmente funcional. A diferença
sexual, visível no corpo, favorece diretamente o caráter esponsal do corpo e a
capacidade de amar da pessoa. No centro desse chamado a amar, está o chamado de
Deus: “Sede fecundos e multiplicai-vos” (Gn 1, 28). A união esponsal dos
cônjuges por intermédio do corpo também é, portanto, pela própria natureza, um
chamado para viver como pai e mãe.
44. Por justo motivo percebemos júbilo nas palavras de Adão
à primeira visão de Eva: “Desta vez sim, é osso dos meus ossos e carne da minha
carne!” (Gn 2, 23). O Catecismo da Igreja Católica observa que desde o início:
“O homem descobre a mulher como um outro ‘eu’, da mesma humanidade”. Homem e
mulher partilham de idêntica dignidade que provém de Deus, o Criador. No plano
de Deus, semelhança e alteridade de homem e mulher coincidem na
complementaridade sexual como masculino e feminino. Criados juntos (cf. Gn 1,
2627), homem e mulher são destinados um para o outro. A diferença sexual é uma
advertência primordial de que somos feitos para doarmo-nos aos outros guiados
pela virtude e pelo amor de Deus.
45. São João Paulo II muitas vezes falou sobre “o
significado nupcial ou esponsal do corpo”. Fez ressoar o ensinamento do
Concílio Vaticano II que a “união [entre homem e mulher] constitui a primeira
forma de comunhão entre pessoas”. A diferença sexual, todavia, marca todos os
relacionamentos, mesmo para os que ainda não são casados, já que ingressamos na
vida como filho ou filha. Somos chamados a ser irmão ou irmã, não só para a
nossa família, mas também para com os mais necessitados, para as comunidades e
para a Igreja. Nossa identidade como homens e mulheres está na base de nossa
vocação à paternidade ou à maternidade, natural ou espiritual. Dessa maneira, a
diferença sexual tem importância universal.
46. Por ser um componente central de nossa identidade, a
sexualidade não pode ser isolada do significado da pessoa humana. O sexo nunca
é, simplesmente, um impulso físico ou emocional. Sempre encerra algo mais. O
desejo sexual mostra que nunca somos autossuficientes. Almejamos uma amizade
íntima com outrem. A relação sexual, não importa quão fortuita, nunca é apenas
um ato biológico. De fato, a intimidade sexual é sempre, em certo sentido,
conjugal, porque cria um laço humano, pouco importando o quanto seja intencional.
Um ato conjugal propriamente ordenado nunca é simplesmente um ato erótico
autónomo, voltado para si mesmo. Nossa sexualidade é pessoal e íntima, mas
sempre tem uma dimensão e consequência sociais. Um matrimónio sacramental nunca
é um bem privado, mas algo descoberto na relação com a aliança maior com Deus.
Temos uma ética sexual porque o sexo tem um significado
espiritual
47. Duas vocações diferentes fazem justiça à convocação de
ser homem e de ser mulher no plano de Deus: matrimónio e celibato. Ambas as
disciplinas convergem na premissa comum de que a intimidade sexual entre homem
e mulher é parte e desabrocha no contexto de uma aliança. O celibato é o
caminho pelo qual as pessoas não casadas confirmam a verdade e a beleza do
matrimónio. Ambos, celibato e matrimónio, se abstêm de ter relações sexuais que
usem outras pessoas de modo condicional ou temporário. A autêntica abstinência
do celibato, certamente, não é o desdém pelo sexo, mas, ao contrário, significa
honrar o sexo por insistir que a intimidade sexual serve à promessa divina e é
servida por esta. Ao viver à luz dessa aliança, os casais unidos em matrimónio
e os celibatários oferecem, igualmente, a sexualidade à comunidade, para a
criação de uma sociedade que não tem por base a concupiscência e a exploração.
48. Os três capítulos a seguir abordarão, em detalhes, o
matrimónio (capítulos 4 e 5) e o celibato (capítulo 6). Ambas as modalidades,
no entanto, estão baseadas no mandamento divino para viver a masculinidade e a
feminilidade de modo generoso, fazendo dom de si. Esses dois estados de vida
voltam o olhar para a promessa divina e experimentam, no fato da criação como
homem e mulher, uma ocasião de alegria. A disciplina que se impõe ao amor – a
disciplina dos que observam a aliança – às vezes é sentida como um fardo;
todavia, essa disciplina honra e revela, precisamente, o verdadeiro significado
do amor criado à imagem de Deus.
49. Nossa criação como homem e mulher à imagem de Deus é o
motivo pelo qual todos somos chamados à virtude da castidade. A castidade é
expressa de maneiras diferentes, caso sejamos casados ou não. Entretanto, para
todos, a castidade encerra a recusa a utilizar o próprio corpo ou o corpo de
outrem como objetos de consumo. A castidade é o hábito, sejamos casados ou não,
de viver nossa sexualidade com dignidade e graças à luz dos mandamentos de
Deus. Concupiscência é o oposto de castidade. A concupiscência inclui olhar
para o próximo de modo utilitário, como se o corpo do outro existisse
simplesmente para satisfazer um apetite. A verdadeira castidade “não despreza o
corpo”, mas o vê nas dimensões plenas da pessoa. A castidade é um grande “sim”
à verdade da humanidade criada à imagem de Deus e chamada para viver na
aliança.
50. Compreendida dessa maneira, a castidade é o que todos
são chamados a praticar: “Todo o batizado é chamado à castidade. [...] As
pessoas casadas são chamadas a viver a castidade conjugal; as outras praticam a
castidade na continência.” O amor matrimonial casto situa o eros no contexto do
amor, do cuidado, da fidelidade e da abertura aos filhos. O celibato casto,
pela continência, afirma que a intimidade sexual pertence ao contexto do amor,
do cuidado e da fidelidade.
51. As raízes desse ensinamento cristão são antigas. Como
escreveu Santo Ambrósio, no Século IV: “Existem três formas da virtude da
castidade: uma, das esposas: outra, das viúvas; a terceira, da virgindade. Não
louvamos uma com exclusão das outras. [...] É nisso que a disciplina da Igreja
é rica.”
52. Saber como viver esse ensinamento concretamente, seja no
matrimónio ou no celibato e nas circunstâncias difíceis dos dias de hoje, é a
tarefa que nos servirá de guia na continuidade desta catequese.
53. Deus criou todo o mundo material por amor a nós. Tudo o
que podemos ver e tocar, até mesmo nossos corpos femininos e masculinos, foi
criado para a aliança com Deus. Nem sempre amamos como deveríamos, mas o amor
exemplar de Deus nos protege e nos faz retornar às nossas devidas naturezas.
Matrimónio e celibato são dois modos de estar juntos como homem e mulher à luz
das promessas de Deus e, por isso, tanto o matrimónio quanto o celibato são
considerados modos de vida castos.
Questões para partilha
Por que os católicos apreciam e valorizam tanto o mundo
físico, tangível? Pense em alguma coisa bela, como a natureza, os corpos, a
comida ou a arte – por que essas coisas são tão importantes na tradição
católica?
Qual é o propósito da criação? O mundo físico é um livro em
branco que somos livres para reger e explorar conforme nossos próprios desejos?
Descanso, comida, prazer e beleza são atraentes. Mas, às
vezes, temos desejos e apetites profundos além daquilo que é bom para nós. Como
sabermos quando um desejo é legítimo e bom? Como podemos cuidar e desfrutar da
criação e de nosso corpo na vida diária?

Comentários
Enviar um comentário