Uma parábola acerca dos dons do Espírito Santo: «As dicas do saquinho de rebuçados»



A mãe do Américo sempre o habituara a mil e uma recomendações antes de sair de casa de manhazinha. Não se importava nada que a chamassem de mãe-galinha por estar sempre a telefonar-lhe para saber se estava tudo bem. Apesar de já ser de maior idade, as palavras meigas mas firmes que diariamente dirigia ao filho eram como se de um ritual se tratasse. Envolvia-lhe as mãos com as suas, dava-lhe uns quantos conselhos e, fechando os olhos, ficava uns momentos em silêncio.

Por Paulo Costa* (15-07-2015)

Após um ano cansativo de estudos, o Américo decidira passar sozinho uma semana de férias e iria sem destino de bicicleta e de mochila às costas. Naquele domingo de madrugada, além das costumeiras dicas e dos tradicionais carinhos maternais, o Américo foi surpreendido com uma oferta especial. Tratava-se de um saquinho de rebuçados. A mãe colocou-o nas mãos do filho e, como sempre, ficou em silêncio e de olhos fechados. Depois disse-lhe:

- Filho, nem imaginas o quanto me vai custar ficar longe de ti durante os próximos sete dias. Mas sei que esta semana te fará bem para descansares, encontrares-te e descobrires novos horizontes. Não te vou telefonar mas liga-me se precisares. Apenas te peço que leves estes rebuçados que eu mesma fiz. São apenas sete e, se achares bem, come um por dia.

O Américo ficou sensibilizado e meio intrigado ao mesmo tempo e partiu. Sentia-se satisfeito por poder relaxar uns dias e por viajar por sua conta e risco. Os primeiros quilómetros foram de uma sensação de liberdade e serenidade incríveis mas, ao longo do dia, o calor, o vento e a irregularidade do caminho montanhoso começaram a fazer-se sentir. A vontade de desistir e voltar para casa acentuaram-se à medida que se aproximava a noite.

Vendo umas árvores frondosas junto de um riacho, decidiu sentar-se para descansar e, lembrando-se do saquinho que a mãe lhe oferecera, desembrulhou um rebuçado. Para sua surpresa, dentro do plástico que o envolvia, havia um papel com alguma coisa escrita e, enquanto saboreava a guloseima, leu: ‘Pela dom da Fortaleza, Deus dá-nos a coragem necessária para enfrentarmos as tentações, a vulnerabilidade diante das circunstâncias da vida e também a firmeza de caráter nas perseguições e tribulações’.

Diante daquilo, o Américo sorriu e sentiu que tinha de ser forte, que não podia ceder às dificuldades do primeiro dia e dar parte fraca e decidiu ficar por ali mesmo nessa noite e montar a sua tenda. Tinha que ter confiança, resistir, manter a serenidade e a determinação e continuar viagem.

Na manhã de segunda-feira, o Américo foi acordado com o chilreado da passarada aos primeiros raios de sol. Estremunhado, olhou a paisagem e tomou consciência de que jamais havia escutado as melodias da natureza sem as pressas do seu quotidiano. Seguiu caminho por entre os campos e vales e, sem que se desse conta, chegou ao litoral. Pousou a bicicleta e, arregaçando as calças, passeou pela praia junto à água. Havia crianças a brincar com os pais, jovens a tomar banho, velhinhos a ler e caminhar ao longo do areal e pescadores a puxar as redes do mar.

O Américo estava maravilhado com a harmonia saudável de tudo aquilo que contemplava e decidiu comer outro rebuçado. Lá estava outro papelinho com uma mensagem. Dizia: ‘A Sapiência é um dom que nos permite entender, experimentar e saborear as coisas divinas, para poder julgá-las retamente. O sentido da sabedoria humana reside no reconhecimento da sabedoria eterna de Deus, Criador de todas as coisas, que distribui os seus dons conforme seus desígnios’.

Coincidência ou não, era já o segundo papel nos rebuçados que pareciam responder ou complementar as experiências mais significativas daqueles dois dias de férias. Estava encantado e decidiu pernoitar por aquelas bandas.

Na terça-feira, o Américo optou por prosseguir viagem ao longo da costa e, chegando a uma vila piscatória, quis parar e visitar os seus monumentos. Foi visitar uma imponente fortaleza e uma bela igreja românica mas onde se deteve mais tempo foi numa biblioteca pois já sentia saudades de se sentar a ler e a estudar. Teve oportunidade de dialogar com uma rapariga universitária sobre a situação política e financeira e de esgrimir argumentos sobre as problemáticas sociais contemporâneas.

Ao sair da biblioteca, apeteceu-lhe comer um dos rebuçados da mãe e o habitual papel com uma mensagem dizia desta vez: ‘O dom da Ciência torna-nos capazes de aperfeiçoar a inteligência e as verdades reveladas e as ciências humanas perdem a sua inerente complexidade. Todo o saber vem de Deus. Se temos talentos, deles não nos devemos orgulhar, porque de Deus é que os recebemos’. O Américo voltou a sorrir, abanou a cabeça e decidiu ficar por ali mesmo até ao dia seguinte.

Às primeiras horas de quarta-feira, o Américo pôs-se em cima da sua bicicleta e continuou ao longo da jornada o seu itinerário junto ao oceano sem rumo certo. Ao fim da tarde e já com o sol a esconder-se, viu um rapaz sentado numa falésia a olhar o infinito. Aproximou-se dele e sentou-se ao seu lado, metendo conversa sobre a beleza daquela paisagem. Palavra puxa palavra, o rapaz confessou que queria acabar com a sua vida pois tinha tudo mas não encontrava sentido para a sua existência e nada nem ninguém o entusiasmava.

Pela primeira vez, aquele rapaz tinha sido capaz de expressar por palavras tudo quanto sentia e o inquietava sem ser interrompido e julgado e tinha sido ouvido sem sermões. O Américo limitara-se a olhar-lhe nos olhos, a dar-lhe as mãos e a fazer-lhe sentir que estava com ele naquele momento difícil e que podia contar consigo se e quando quisesse. A verdade é que se levantaram os dois e foram jantar a um bar das redondezas.

Como o rapaz convidou o Américo a hospedar-se naquela noite em sua casa, decidiu aceitar. Antes de adormecer, o Américo pegou no saquinho da mãe e retirou mais um rebuçado e até que parecia que já adivinhava o que ali vinha escrito. O papelito dizia: ‘O dom do Conselho permite à alma o reto discernimento e as santas atitudes em determinadas circunstâncias. Ajuda-nos a sermos bons conselheiros, auxiliando-nos na responsabilidade de guiar o irmão pelo caminho do bem’.

Na quinta-feira, o Américo, depois de se ter despedido do novo amigo a quem, na verdade, ajudara a salvar a vida, continuou a sua viagem, optando por deixar o litoral e entrar no interior. Apesar do cansaço daqueles dias e das saudades da mãe, sentia-se satisfeito com as suas aventuras. A meio do dia e com o sol a pino, o Américo sentou-se junto a uma fonte à sombra de umas videiras para petiscar alguma coisa.

Para seu espanto, passava por ali uma velhinha com o peso dos seus muitos anos em cima e as rugas da vida no seu rosto, levando um molho de erva à cabeça e uma enxada nas mãos calejadas por uma existência de trabalho no campo. A senhora logo o cumprimentou com um largo sorriso e, enquanto falava do tempo seco que estava, perguntou se precisava de alguma coisa.

A idosa era viúva e vivia ali perto e logo convidou o Américo a uma malga de sopa e um ovo estrelado. Era pouco mas era o que lhe podia oferecer. O Américo recusou simpaticamente mas logo se arrependeu pois a bondade e simplicidade da velhinha desarmavam qualquer um. Enquanto a velhinha lhe preparava a comida, o Américo tirou um rebuçado do saquinho e leu: ‘O dom do Entendimento torna a nossa inteligência capaz de entender intuitivamente as verdades reveladas e naturais, de acordo com o fim sobrenatural que possuem. A aparente correlação não significa que quem possui a sabedoria tenha consigo o entendimento por consequência ou vice-versa’.

Passaram longas horas a falar e a verdade é que o Américo sentia que a velhinha, apesar de analfabeta, era mais sábia do que a maior parte dos doutores que conhecia pois percebia o mundo, entendia o sentido da vida e compreendia o ser humano como ninguém. Aquela velhinha era uma autêntica enciclopédia da vida. E por ali passou a noite.

Na sexta-feira de madrugada, antes que viesse o calor, o Américo fez-se ao caminho pois aproximava-se o dia de regresso a casa, conforme a planificação de férias que elaborara. Uns quantos quilómetros à frente, a roda da bicicleta teve um furo e a sua sorte foi um grupo de escuteiros que por ali passavam. Não o podendo ajudar naquele sítio, levaram-lhe a bicicleta até ao acampamento que haviam montado ali perto, nas margens de um lago, no sopé de uma montanha. Convidaram-no a passar o dia com eles e a montar a sua tenda junto das suas para ali pernoitar, como se fosse um mais do grupo.

Além de lhe terem arranjado tão gentilmente a roda da bicicleta, o que mais chamou a atenção do Américo foi o facto de que aquele grupo era constituído por adolescentes e jovens cheios de dinamismo, criatividade e entusiasmo. À noite, juntaram-se à volta de uma fogueira, cantaram com as suas guitarras canções que falavam de amizade, solidariedade e fé e rezaram com um sorriso no rosto e com uma devoção cativante.  

Enquanto jogavam, tendo as estrelas cintilantes como companheiras de serão, o Américo cheio de curiosidade foi buscar à sua mochila mais um rebuçado, mais pela vontade de ler uma nova mensagem do que para saborear a doçaria. E dizia: ‘O dom da Piedade é uma graça de Deus na alma, que proporciona salutares frutos. Nos dias de hoje, há poucas pessoas que acham prazer em serem devotas e piedosas e as que o são, tornam-se geralmente alvo de desprezo ou escárnio’. O Américo voltou a sorrir e sentia que a sua vida estava a mudar.

No sábado, o Américo, já com a sua bicicleta arranjada, realizou a sétima e última etapa da sua viagem de férias. De regresso à sua terra, passou pelo sopé de um monte de onde se destacava uma pequena capela branca lá no cume. Viu várias pessoas de todas as idades a subir lá acima por um carreirinho estreito e sinuoso e decidiu ir também levando a sua bicicleta pela mão.

Testemunhou a fé simples mas sincera daquela gente humilde que fazia a sua peregrinação ao pequeno santuário do monte e chegado lá, sentou-se no chão. Vendo as lágrimas e as orações das pessoas, o Américo lembrou-se da mãe e foi à mochila e retirou do saquinho o último rebuçado, cujo papelinho dizia: ‘O dom do Temor de Deus consiste em procurar praticar os seus mandamentos com sinceridade de coração. Há que procurar em primeiro lugar o reino de Deus e o resto ser-nos-á dado por acréscimo’.

O Américo estava sem palavras e chorou. Dera-se conta que tinha andado bem longe de Deus e de si mesmo. A razão havia-se tornado inimiga da fé e a ciência adversária da religião. E não tinha que ser assim. E não podia ser assim. Os sítios por onde andara naqueles sete dias e as pessoas com quem se cruzara tinham-lhe ensinado mais do que nos seus anos de vida e, pela primeira vez em muitos anos, teve vontade de rezar.

Desceu o monte e completou o resto do caminho até casa. Começava a ter saudades daquelas férias únicas e irrepetíveis mas estava com um sorriso de orelha a orelha com todas e cada uma das descobertas que havia feito e, sobretudo, com a ideia do saquinho com os sete rebuçados e as suas respetivas sete mensagens.

Chegando a casa, abraçou a mãe e só conseguiu dizer-lhe duas palavras: ‘desculpa’ e ‘obrigado’. A mãe estava mais feliz do que nunca e percebeu que o filho tinha redescoberto a Deus na sua vida e disse-lhe:

- Eu sentia que estas férias iam ser especiais para ti. Coloquei as sete mensagens nos sete rebuçados e quis que simbolizassem os sete dons do Espírito Santo. Eles renovaram-te e transformaram-te num homem novo. Sê dócil aos seus impulsos e acolhe as suas inspirações. Percebes agora porque é que eu todos os dias antes de saíres de casa, te dava as mãos e ficava em silêncio? Rezava por ti… Amo-te!

*Paulo Costa é licenciado em Teologia e mestrado em Teologia Sistemática pela Faculdade de Teologia da UCP do Porto e tem uma Pós-graduação/Especialização em Educação Sexual pelo Instituto Piaget. É autor de alguns livros na área da Fé e Adolescência. É professor de EMRC no Colégio Liceal de Santa Maria de Lamas. É um bloguer.



Comentários