Como ter um verão em cheio? Um verão daqueles que encham as medidas? Proponho dez palavras, dez verbos, que, devidamente conjugados e articulados, ajudarão cada um a chegar onde realmente quer.
Fonte: Blogue Ver para além do olhar, de João Delicado
1. PARAR
O que significa parar? David Kundtz, no seu livro "Parar - Como parar quando devemos continuar", oferece-nos uma definição: "Parar é não fazer nada, na medida do possível, durante um determinado período de tempo (de um segundo a um mês) para conseguir uma maior consciencialização e recordar quem somos". A ideia não é propriamente não fazer nada. A ideia é que, não fazendo nada, ou seja, cortando com tarefas, hábitos e ritmos diários, calando a ferocidade das urgências, possam as nossas capacidades naturais cumprir os seus processos de limpeza e 'higienização' mental, espiritual, corporal. Então, naturalmente, entraremos num estado diferente em que as emoções, a criatividade e, sobretudo, a identidade encontram espaço para emergir à superfície da consciência.
Aparentemente é fácil desligarmos das nossas responsabilidades mas, na realidade, não é assim tão fácil.Porquê?
Primeiro, talvez porque chegamos ao ponto de nos identificar só com o que fazemos - como se eu fosse o que faço - e, nesse caso, o tempo de descanso é sempre inoportuno e, pior, uma ameaça que me projecta para o vazio, porque me coloca diante do que eu não sei ser - ou não sei que sou.
Depois, outra possível razão é o facto de não sermos máquinas. Mas ainda que o fôssemos, como dizia um mestre irlandês que tive, seríamos como ventoínhas: como a ventoinha não pára de repente, também nós precisamos de conjugar o verbo 'parar' num sentido de temporalidade mais 'alentejana': nós não paramos, nós vamos parando. Como qualquer desmame, isto exige uma boa dose de estômago e abnegação. Mas tudo isso é um pequeno preço a pagar se comparado com a perspectiva de um verão em cheio e com a garantia de que resgataremos o essencial - depois de removido dos escombros deixados pela pressa e pela eficiência.
Na prática, isto pode significar conceder-nos tempo para olhar para o teto, dar passeios sem rumo definido, cuidar de um jardim, estar à conversa sem outro objectivo que não o de estar; pode também significar auto-infoexcluir-me durante um tempo [como vi agora fazer uma amiga, que se despediu do Facebook até Setembro. Pena, que já não vai apanhar estas dicas espectaculares… ;)].
2. DESCANSAR
Não precisamos das estatísticas para confirmar que andamos a dormir menos do que deveríamos. Então, naturalmente, o melhor é começar por pôr o sono em dia: hibernar como um urso polar, se necessário; ou recorrer à pratica da sesta, à espanhola ou à mexicana, com chapéu e tudo - conforme os gostos. Em tempos, tive um período tão intenso de trabalho que, logo a seguir, tendo ido com os meus pais para o campo, por três noites seguidas estive na cama [ou 'de' cama?] das 10 da noite às 10 da manhã, ou seja, doze horas seguidas! Claramente era o corpo a comunicar que andava a abusar. Mas o descanso depende de cada um.
Na prática, para quem tenha uma vida sedentária, talvez o descanso do corpo exija movimento: caminhada, corrida, dança, desportos aquáticos. Para quem passe o ano constrangido a um ambiente artificial de escritórios, garagens, ares condicionados e ruas alcatroadas, talvez o descanso seja voltar a estar em contacto com as próprias origens: pôr os pés na terra, sentir-se parte integrante da natureza, mergulhado nos elementos naturais da serra, do mar, da floresta. Para quem pratique uma alimentação acrítica e desregrada, talvez o descanso seja dar mais atenção à quantidade e à qualidade do que come. Para quem viva constantemente online, talvez o descanso signifique desligar tudo, ficar 'offline' para estar onde está. O que interessa é encontrar modos concretos de dar ao corpo o equilíbrio necessário.
3. INTENCIONAR
'Intencionar' é um verbo que aprendi com o Pedro Vieira, meu mestre no Coaching e na PNL. O significado é tão óbvio quanto a pertinência da palavra: ou 'intencionamos' ou a vida trata de nos 'intencionar' a nós! O melhor é, enquanto paramos e descansamos, pegar numa folha e intencionarmos o nosso verão: o que quero viver? onde quero chegar? com o tempo e os recursos que tenho, que objectivos gostaria de atingir? Isso é intencionar.
Para mim isso significou escrever algumas palavras-chave num papel que pendurei no meu quarto: oração, descanso, expansão de horizontes.
4. PLANEAR
O passo seguinte não tem muito que saber, não é? É planear: concretizar, calendarizar essas intenções que escolhi para mim, encaixá-las no tempo que tenho. Isso deverá passar também por planos mais particulares, como, por exemplo:
- com quem quero estar?
- onde quero ir?
- que atividades não posso perder?
- que oportunidades me farão crescer?
- que livros quero ler?
- que filmes quero ver?
Há uns anos descobri que no meu típico dia de praia, para evitar o calor e a 'hora do cancro' [como lhe chamamos lá em casa], e mesmo dormindo a sesta, ainda sobrava tempo para ver um filme! É claro que, ao regressar à praia, já me encontro com famílias que vêm em sentido contrário, a ir para casa. Mas percebi que comigo funcionava e assumi isso como estratégia para pôr o cinema em dia. Além disso, habitualmente acabo o dia com um mergulho enquanto assisto a um dos filmes mais espectaculares da história da humanidade: o pôr do sol e toda aquela paleta de laranjas, amarelos, lilases a espalharem-se pelo céu e pela água.
5. ASSURPRESAR-ME
Como a vida vai muito para lá do que planeamos, o melhor é introduzir mais um 'neologismo': devo 'assurpresar-me', ou seja, devo ajudar a vida a que encontre espaço para me surpreender. Ora, como eu não sei o que não sei que me vai acontecer, o melhor é abrir-me à certeza de que vão acontecer coisas que eu não sei que me vão acontecer e, portanto, a surpresa está garantida. Na prática, de mim depende sair de casa, largar o sofá, experimentar coisas novas, estrear-me em novos campos, hábitos, gostos; algo que me desperte o olhar inaugural, aquele que vê a vida como pela primeira vez.
6. ARRUMAR
Antes ou depois de um tempo fora de casa, esta é também a oportunidade de ouro para arrumar o ano que passou começando nomeadamente por deitar um olhar diferente para o 'habitat' natural, a casa, o espaço físico onde habito. É a oportunidade de me confrontar com caixas, gavetas, dossiês, papelada acumulada aos montes, cantinhos de coisinhas avulsas e difíceis de classificar. É uma ilusão pensar que as coisas que possuímos são neutras, mesmo se não utilizadas. Tudo o que guardamos, tudo o que temos, ocupa algum espaço vital no nosso 'disco rígido': ou as coisas nos continuam a dar vida ou então roubam-nos vida - ou seja, energia e agilidade que poderíamos estar a aplicar naquilo que realmente queremos.
Portanto, é o momento de pôr tudo em ordem - roupa, livros, tralha - e, com o que já não preciso ou não uso, fazer uma de quatro coisas: 1) recuperar; 2) oferecer; 3) vender; 4) deitar fora. Aqui poderá ser útil seguir o critério do 'se não uso isto há mais de um ano, é porque não preciso'. E não se trata apenas do espaço ou de bens físicos. Estas arrumações devem incluir, por exemplo, organizar a 'mailing box', cancelar subscrições que já não leio, apagar contactos de desconhecidos no telemóvel. Pode ser também um momento muito rico e muito libertador para nos despedirmos de coisas, relações, actividades, interesses que já não fazem parte da nossa vida. A grande virtude de uma boa arrumação é que nos abrirá espaço para o que desejamos potenciar em nós.
7. SABOREAR
Haverá melhor tempo do que este para um balanço do ano passado? Como fazer para saborear o caminho percorrido? Talvez o mais prático seja pegar na agenda e percorrer todos os meses: varrer com o olhar as notas, as actividades, os compromissos. Posso até pegar numa folha e fazer um resumo do ano, anotando o principal desse tempo por tópicos ou em modo de 'mapa mental', ou com um gráfico: 1) acontecimentos relevantes; 2) dons recebidos; 3) conquistas; 4) relações significativas; 5) pontos de encontro e desencontro (comigo, com os outros, com Deus).
Outro modo de avaliar pode ser re-visitar o álbum de fotografias deste ano: embora já se saiba que normalmente nos limitamos a registar as ocasiões especiais, festivas, deixando o quotidiano na penumbra da memória, isso pode trazer elementos importantes à tona da água - principalmente no que toca às nossas relações. Trata-se aqui de reconhecer a onda de vida que trazemos atrás de nós e que nos permitirá enfrentar o novo ano com desejo e optimismo: as conquistas passadas são a sementeira das conquistas futuras.
8. RECUPERAR
Com o balanço do ano, naturalmente saltam à vista coisas que gostaríamos de ter feito e que, por preguiça, por limitação de tempo, espaço ou energia, não conseguimos atingir. Esta é a altura certa para recuperar intenções, ideias, sonhos, projectos que ficaram na gaveta. Podem ser leituras, actividades, propósitos, aprendizagens que ficaram por fazer. Pode ser também contactar ou visitar aquele amigo ou familiar que é significativo mas de quem temos estado significativamente distantes.
Seja o que for para recuperar, esta é a melhor altura do ano para o fazer, por duas razões: 1) porque temos a nosso favor toda a disponibilidade que as férias nos oferecem - e deixamos de ter desculpas para adiar; 2) e podemos ainda reassumi-los como prioridade para o próximo ano. E então o melhor é anotar na agenda, ou onde me lembre, para quando estiver prestes a atravessar o portal do novo ano.
9. PREPARAR
O verão é uma espécie de passagem de ano mas muito melhor: dá direito a férias e tudo, com tempo para a introspeção, para a meditação, para todo o tipo de ruminação e mergulho interior. Seria um desperdício continuarmos no próximo ano a cair nos mesmos erros, a manter os mesmos maus hábitos, a lidar com as pessoas com a mesma falta de jeito. Então, é espectacular a ideia de que posso realmente mudar de ano, ou seja: fazer do novo ano, um ano novo, 'from scratch'.
A melhor maneira de começar a preparar o ano que chega é dedicar um tempo a sonhar o que eu quero vir a ser. Daqui a uns meses, ao olhar para este tempo, vou recordá-lo como um tempo de crescimento: que passos terei dado, que decisões terei tomado para que isso pudesse acontecer? Daqui a um ano, daqui a cinco ou dez anos, ao recordar este período que vivo agora, vou sentir-me orgulhoso pelas conquistas que fiz: que recursos terei explorado? que aprendizagens terei feito? com quem terei falado? a quem terei pedido ajuda para que isso se tornasse realidade?
É bom lembrar: a vida responde como a semente responde ao semeador.
10. APAGAR
A última palavra, o último verbo, é o mais importante: 'apagar', porque neste momento deverás apagar esta lista e começar a fazer a tua! Manda tudo para o 'recycle bin' e guarda apenas a ideias que te forem úteis. Faz isto à tua maneira, mas faz! Boa?
Que este seja um grande verão! Ou seja, com todos os ingredientes que tu sabes que te fazem florescer e mais algumas surpresas que a vida se lembre de oferecer!

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