É padre e poeta. Aos 49 anos, já editou quase 20 livros, entre poesia, ensaio e teatro. Nascido na Madeira, com um ano foi para Angola, onde passou o início da infância. Filho de pescador, a natureza moldou-lhe o olhar, a par da Bíblia e da poesia. Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, a arte e a fé guiam-lhe os passos num caminho comum. Precisa da noite para se interrogar e vê o mundo com esperança, fazendo o elogio da imperfeição.
O seu primeiro poema junta a Bíblia e
Helberto Helder. É uma relação improvável?
As melhores relações são as improváveis,
que existem sempre dentro de mim. A Bíblia é uma espécie de pátria. Mas a ela
junto aquilo a que Borges chamava os novos textos sagrados, que são escritos
hoje e transportam a ressonância mais íntima e transparente, a onda mais alta. São
o ressoar dos nossos passos.
Quais são para si esses textos?
Gosto de Tertuliano a Blanchot, de santo
Agostinho a Michel Foucault ou a Michel de Certeau, da Bíblia a Herberto
Helder, a Simone Weil, a Ruy Belo. De Gonçalo M. Tavares e Ana Teresa Pereira a
Pavese, Natalia Ginzburg. A literatura e a escrita do mundo são uma espécie de
alforges, andam sempre comigo.
Nas ditas relações improváveis...
Acredito que o que é pedido a cada um de
nós é que sejamos originais. Acho que Deus nos vai perdoar tudo, as asneiras
que fizemos, as incertezas, uma cretinice ou outra. Acho que Deus nos vai
perdoar tudo. Só não nos vai perdoar não termos sido nos próprios. É tão
importante. O cristianismo precisa de pessoas originais, que vivam a sua vida,
a sua singularidade. O meu sonho é que o mundo se encha de mulheres e de homens
improváveis. Essa é a minha utopia.
Não é uma espécie de carta-branca?
Gosto muito de um dos lemas de santo
Agostinho: ‘Ama e faz o que quiseres.’ A liberdade é sempre o habitat da nossa
própria identidade. Só livres nós somos.
O amor pode-nos sempre salvar-nos?
Tudo o que fazemos é marcado pela
fragilidade da nossa condição. Somos esta coisa humana, provisória, incerta,
inacabada, imperfeita. Mas somos também poeira enamorada. Há em nós alguma coisa
de maior. Mesmo no erro. Beckett dizia: errar, errar mais, errar melhor. No
erro podemos encontrar um caminho.
Falou dos seus novos textos sagrados que
são, ao mesmo tempo, profanos. Como é essa coabitação?
Gosto dessa coabitação, tudo o que é hoje
sagrado já foi profano um dia, porque foi humano. A Bíblia não começou por ser
um livro religioso, começou por ser um livro humano. Às vezes choca-me como se
diz a palavra religião, remetendo-a para uma banda estreita, para um espaço
privado, sem lhe dar direitos de cidadania. Falar de religião é falar de
humanidade. Não me choca nada a aproximação entre o sagrado e o profano. Pelo
contrário. Acho revitalizante.
No seu primeiro poema, a infância de
Herberto Helder, refere a Bíblia e um escritor maior. Como olha hoje o jovem
que tocou em duas coisas ‘sagradas’?
«A Infância de Herberto Helder
No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra»
A poesia tem sempre a representação mas
tem uma literalidade ardente. É assim que vivo. Ao pé da Bíblia está o Rilke, Hölderlin,
Armando Silva Carvalho, a Adília Lopes. Talvez não tivesse consciência. Sophia
de Mello Breyner dizia que o poema sabe mais que o poeta.
Se tudo já foi profano pode-se tocar.
Claro. Para mim a Bíblia é também um livro
de estudo, de trabalho. Há um contacto com a Bíblia que não deixa de ser o de
um crente mas leio a Bíblia rodeado de dicionários, concordâncias, textos
clássicos. É um círculo profano à minha volta. É a melhor homenagem.
Defende que a Bíblia deve ser ensinada na
escola. Porquê?
Não entendemos a cultura portuguesa, não
nos tornamos herdeiros dos nossos grandes museus, não percebemos o mundo
literário sem essa chave. Se na universidade se ensina a Odisseia e os
Lusíadas, por que não se ensina a Bíblia a quem não lhe tem outro acesso?
Ou a quem tem preconceito?
A quem ergue uma barreira e não a entende
como uma grande biblioteca literária, uma biblioteca universal. A Bíblia é uma
espécie de grande teatro do mundo, um grande armário de personagens, uma mina
de temas, um laboratório verbal verdadeiramente único. A humanidade toda está
ali.
A infância que aparece nesse livro não é a
do Herberto Helder, é a sua. Como a recorda?
Vivia no Machico, num mundo ainda rural,
muito próximo do mar, com grandes espaços em que dava para me deitar na terra e
olhar as estrelas. Tinha um caderno em que apontava os barcos que passavam,
observava as árvores. O meu pai, que era pescador, quando ia às ilhas selvagens
trazia-me de presente uma cagarra. É um mundo próximo da natureza, tutelado
pelas profissões artesanais, atravessado pela poesia, pelos elementos.
E os anos em Angola?
O tempo em angola foi anterior à ilha. Era
mais novo, embora tenha memórias familiares e da imensidão do espaço.
São opostos, o espaço fechado da ilha e a
vastidão de África.
Aos olhos de uma criança não são tão
opostos. Não me lembro de pensar a ilha como um lugar circunscrito. A ilha é um
mundo para os que lá vivem. E antes destas autoestradas e vias rápidas só uma
vez por ano se fazia uma viagem à sua volta. A ilha tem uma natureza tão
poderosa que é um mundo.
Que histórias lhe contava a sua avó?
Uma adaptação do cancioneiro, que mistura
a bela infanta com o D. Sebastião e o seu exército. A minha avó acreditava,
como uma visionária, na ilha de Arguim, e que ela própria tinha visto a espada
do D. Sebastião numas escarpas de uma encosta da madeira. É uma geração que
está a desaparecer e que representa um determinado imaginário insular, em que a
ilha era a esquina do mundo. A verbalização mágica do mundo acabava por tornar
o lugar e a vida muito maiores.
Quando entrou para o seminário?
Tinha onze anos. A questão vocacional
colocou-se muito cedo. Era uma questão relevante para mim desde miúdo.
Como descobriu a fé?
A minha família era crente. E algumas
pessoas acabaram por ser muito importantes. Aos 15 anos, altura em que colocava
perguntas e tinha uma busca intelectual que se esboçava, o João Henrique Silva,
que agora é o diretor da cultura na madeira, era professor no seminário. Era um
homem que gostava muito de cinema. Mostrou-me que era possível viver a fé e
escolher uma vocação religiosa em relação com o mundo da cultura.
Nos seus poemas refere artistas como Patti
Smith, Leonard Cohen. Como se estabelece essa relação?
Hoje li uma frase de Samuel Beckett a
dizer que todos os grandes poemas são orações. E isso é verdade também para
Patti Smith e Leonard Cohen.
Que podem ser considerados hereges.
Até os salmos bíblicos se discutiu se não
seriam heresias. O salmo 23 diz: «O senhor é meu pastor, nada me falta. Leva-me
a descansar em verdes prados […] ainda que eu desça por vales tenebrosos,
nenhum mal temerei porque tu estás comigo.» Os rabinos discutiam se isto não
seria uma heresia e se o salmo não deveria ser retirado. Deus, o todo-poderoso,
está nos vales tenebrosos, no inferno, no lugar da penúria?
Não se diz que Deus está em todo o lado?
Ah, lá está. Então também estará nesses
lugares íngremes de que fala a voz de Leonard Cohen.
A peça o estado do bosque insere-se no
ciclo em nome de Deus, onde há também textos de Pasolini. Mais uma relação
improvável.
Pasolini parece um autor apenas profano
mas a sua profanidade tem uma estatura e uma exigência ética que se aproxima do
sagrado. Isso é claro no seu evangelho segundo Mateus. Quando Pasolini o estava
a fazer filmou primeiro a cena do batismo, à maneira de uma pintura sacra. E
depois esteve quase três meses sem filmar. Não encontrava o tom. Até que adotou
o tom profano. Como se estivesse a fazer um noticiário, retirando a aura
sagrada. A nudez, o olhar despido de artifícios e montagem, olhar jesus como um
homem do presente, acabou por ter uma força muito maior. E filma os marginais
como se fossem santos. Filma a história profana como se fosse sagrada e a
história sagrada como se fosse profana. Aprendo alguma coisa com isso.
O quê?
Talvez a importância do humano. Precisamos
de uma nova gramática para dizer a vida. Uma gramática que não viva a separar
coisas, razão e fé, compaixão e gestão, dinheiro, criatividade e arte.
Não caminhamos na direção oposta?
Não sei. É necessário dizer que precisamos
de um novo contrato social a este nível. Que seja também uma nova gramática
antropológica. Não podemos desistir de sonhar o mundo futuro. Pelo contrário. Este
é o momento para viver com realismo mas sem baixar as reivindicações profundas
do nosso coração. Há um desânimo muito grande mas sinto que é preciso reagir.
Mas compaixão e gestão parecem não existir
na mesma frase. Não é essa a mensagem transmitida?
Essa é a mensagem. Mas a pergunta é: é
isso que queremos? É isso que dá ao ser humano a sua dignidade, a possibilidade
de uma vida autêntica? São questões que nos temos que colocar. Gosto da Etty Hillsum,
uma rapariga judia que se ofereceu como voluntária para um campo de
concentração, onde cuidava de dois gerânios. O poeta brasileiro Manoel de Barros
diz que mesmo as latas vazias podem servir para milagrar flores. Precisamos de
valorizar de novo o inútil.
Como?
Este tempo é também de grande vigilância,
de grande participação. Não é um tempo de desmobilização. É um tempo para as
pessoas se sentarem a conversar. É um tempo para se encherem os teatros, para
se encherem as assembleias. Para aprofundarmos o nosso destino comum.
Não toma posições políticas. Porquê?
Todas as nossas escolhas têm uma dimensão
política. Nesse sentido as minhas decisões são também políticas. Se são
partidárias? Não. E isso por uma vontade explícita, que tem a ver com a escolha
da minha condição de vida. Como padre escolhi viver de uma forma que me coloque
disponível para acolher a todos e dialogar com todos.
Há homens do clero que estão a exprimir um
sentimento de revolta por os mais pobres não estarem a ser protegidos.
Mas isso é outra coisa. O discurso que a
igreja faz é um discurso em defesa da pessoa humana, em favor dos mais pobres,
a lembrar esses valores. É um discurso que tem a ver com a sua missão, não é um
discurso partidário. É o discurso da igreja, que se tem que se colocar ao lado
da pessoa humana.
Como vê este nosso tempo?
Com enorme esperança. Este tempo em que
parece que o nosso coração se torna mais pequenino é um tempo para voltar a
olhar os lírios do campo.

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