Padres Casados: Há ainda muitas coisas que podemos fazer


P.e Bernardo Eyre, autor do artigo,  numa das suas atividades pastorais/sociais em Recife, Brasil.

Talvez chegue o dia em que o celibato será opcional e padres casados e padres celibatários serão vistos a trabalhar lado a lado pelo bem de uma comunidade. Mas antes de chegar tal dia, há muita coisa que o padre casado pode fazer. Ele não precisa de um decreto do Papa para o chamar de volta ao ministério do serviço.

O artigo foi publicado em 20 de Fevereiro 2015 no site “The Association of Catholic Priests of Ireland(The ACP of Ireland)  “ Married Priests” : There is still so much we can do.

Há alguns padres casados que lamentam que estão excluídos de trabalhos pastorais públicos. De uma certa maneira, essa situação é verdadeira, porque se se segue o que a Lei Canónica diz sobre os padres casados, então é verdade que eles estão impedidos de fazer trabalhos pastorais em público.

Mas se escutamos a voz do povo que chama o padre casado de volta ao ministério então o mundo está aberto a que faça trabalhos pastorais como agente pastoral.

Alguns padres casados pensam que o Papa Francisco vai mudar a lei do celibato obrigatório, que ele o pode fazer, porque ela é uma disciplina e não uma dogma. Eles esperam esse dia chegar, pois, como dizem, então «poderemos voltar a ser padres de novo”.

Mas é bom lembrar que quando o padre casa ele não deixa de ser padre porque o Sacramento da Ordem é permanente. Além disso ele ainda é chamado a por em prática o que Jesus ordenou: “Ide pregai o evangelho a todas as criaturas.”

Mas quando um padre casa ele perde a sua posição e papel na sociedade. Ele era membro do grupo que se chama Clero. Muitas vezes ele era um vigário responsável por uma paróquia e uma figura importante na sociedade e ele fez muita coisa boa. Mas com o casamento ele perde tudo isso.

O casamento situa o ao nível comum de cada mulher e homem. Alguns padres casados acham essa perda de status muito difícil, eles tem muita dificuldade em ser um cidadão comum e também têm dificuldade de não ter a última palavra que eles tinham quando eram membros do Clero.

Talvez chegue o dia em que o celibato será opcional e padres casados e padres celibatários serão vistos a trabalhar lado a lado pelo bem de uma comunidade. Mas antes de chegar tal dia, há muita coisa que o padre casado pode fazer. Ele não precisa de um decreto do Papa para o chamar de volta ao ministério do serviço.

Quando alguém bate à minha porta e me chama para ir ao cemitério e rezar por um falecido ou para ungir algum doente com os Santos Óleos, eu não penso duas vezes e não me pergunto: «Eu tenho licença para fazer isso, eu posso fazer isso?» Eu simplesmente me levanto e acedo ao pedido. Além disso em virtude da Lei Canónica número 1335, «os padres casados tem o dever e a obrigação de oferecer os sacramentos aos fiéis quando eles os pedem». Também a Lei Canónica número 290 diz: «Os sacramentos que os padres casados celebram são válidos.»

Mas certos passos podem ser tomados e certas atitudes podem ser mudadas para que o padre casado seja bem vindo nas comunidades e quando o Bispo os chama para uma reunião, para discutir com eles como eles poderiam assumir atividades pastorais na diocese isso seria um bom começo. Mas no final das contas é na paróquia ou comunidade onde o padre casado reside que pode haver mudanças.

Um vigário que recebe um padre casado que mora na sua paróquia pode quebrar barreiras e mudar atitudes. O papel e autoridade do vigário não seria desafiado ou enfraquecido se um padre casado é visto fazendo trabalhos pastorais em colaboração com ele.

Se o padre casado tem o espírito missionário ele é capaz de dividir o seu tempo entre o emprego secular, que ele precisa para poder viver, e o trabalho pastoral. É possível fazer essas duas coisas, e quando ele tem o apoio e compreensão da sua esposa e quando ela também é empenhada em trabalhos pastorais, não haverá conflito entre ser padre e casado também: eu estou nesta situação.

Gostaria de partilhar alguns dos trabalhos pastorais que eu faço. Conheço também pessoalmente outros padres casados com empenhos pastorais.

- Visito os doentes nas suas casas ou nos hospitais e celebro com eles o  Sacramento dos Enfermos.  

- Celebro os Ritos Fúnebres nos cemitérios para os falecidos.

- Dou cursos bíblicos.

- Visito os líderes nas suas casas para lhes dar apoio nos seus trabalhos pastorais.

- Preparo pessoas para fazer missões populares nas comunidades.

- Ensino a Lectio Divina para grupos.

- Sou membro do movimento que combate o Tráfico de Pessoas.

- Sou membro do Conselho Paroquial e nesta paróquia sou responsável pela Pastoral dos Edifícios. Há onze edifícios nesta paróquia que participam desta pastoral. Os edifícios celebram os momentos fortes do ano como:  a Quaresma, o Mês de Maio, Mês da Bíblia (setembro), Mês das Missões, Natal em Família...

Muitas vezes as pessoas me perguntam se eu celebro missa pública. A resposta é não. Respeito o Código de Direito Canónico neste assunto, mas não concordo. Porém eu celebro de vez em quando a missa na minha casa para os momentos importantes da nossa vida como família.

Também concelebro  todas as vezes que eu vou à missa numa igreja. Faço isso do banco da igreja onde eu estiver, porque eu não preciso estar ao lado do altar para concelebrar. Faço isso porque amo a missa e sei no meu coração que sou padre.

Aqui no Brasil há comunidades que não tem missa frequentemente, eles tem missa talvez de 2 a 3 meses porque o padre da paróquia não consegue visitá-los regularmente pois a paróquia dele é muita grande. Eu poderia celebrar com muito amor com essas comunidades.

Mas porquê isso não é possível? A situação é a seguinte: Eu poderia ser um padre casado católico responsável por uma paróquia se eu tivesse começado como um padre casado anglicano. Mas não posso ser um padre casado católico responsável por uma paróquia porque comecei como um padre católico celibatário.

Se Deus quiser vai chegar o dia quando esta situação não vai existir mais.

*Bernardo Eyre (Brian Eyre) vive em Recife, Pernambuco. É irlandês. Casado com Marta, têm dois filhos. É professor. Mandou o texto do seu correio eletrónico: eyre-br_eyre@hotmail.com

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