«A tradição, a lei e a forma de viver à luz da prática libertadora de Jesus» - lectio divina do XXII domingo comum
Jesus denuncia a prática dos fariseus, escribas e de todos
os que fizeram do cumprimento superficial da lei o centro do culto a Deus. No
centro da polémica está o coração: quando estamos longe do Senhor, tornamos a
sua palavra vã e tudo o resto impuro; se estamos com o Senhor, vivemos da sua
Palavra e dela nos alimentamos. O puro e o impuro, o lícito e o ilícito, o bem
e o mal, o que ajuda à comunhão ou separa da vida, o que traz felicidade ou
infelicidade, depende essencialmente, não de tradições ou de regras que
classificam coisas ou ações, mas precisamente do coração, das nossas intenções:
tudo pode ser bom na medida em que for vivido com um coração puro. O coração
puro vê a Deus (Mt 5,8) e dá bom fruto. O coração impuro, longe de Deus, produz
obras de morte, vazias, vãs, estéreis. A nossa prática cristã, não pode,
portanto, centrar-se no cumprimento formal das tradições, mas deve passar,
obrigatoriamente, por um processo de conversão que nos leve à comunhão com Deus
e em doação permanente com os irmãos.
EVANGELHO: Mc 7,1-8.14-15.21-23
Naquele tempo, reuniu-se à volta de Jesus um grupo de
fariseus e alguns escribas que tinham vindo de Jerusalém. Viram que alguns dos
discípulos de Jesus comiam com as mãos impuras, isto é, sem as lavar. – Na
verdade, os fariseus e os judeus em geral não comem sem terem lavado
cuidadosamente as mãos, conforme a tradição dos antigos. Ao voltarem da praça
pública, não comem sem antes se terem lavado. E seguem muitos outros costumes a
que se prenderam por tradição, como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de
cobre –. Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus: «Porque não seguem os
teus discípulos a tradição dos antigos, e comem sem lavar as mãos?». Jesus
respondeu-lhes: «Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está
escrito: ‘Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de
Mim. É vão o culto que Me prestam, e as doutrinas que ensinam não passam de
preceitos humanos’. Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos
prenderdes à tradição dos homens». Depois, Jesus chamou de novo a Si a multidão
e começou a dizer-lhe: «Ouvi-Me e procurai compreender. Não há nada fora do
homem que ao entrar nele o possa tornar impuro. O que sai do homem é que o
torna impuro; porque do interior dos homens é que saem os maus pensamentos:
imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes,
devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez. Todos estes vícios saem lá
de dentro e tornam o homem impuro».
Segunda-Feira
PALAVRA
Naquele tempo, reuniu-se à volta de Jesus um grupo de
fariseus e alguns escribas que tinham vindo de Jerusalém.
MEDITAÇÃO
A pessoa de Jesus, as suas palavras e gestos não passaram
desapercebidos às pessoas do seu tempo. É natural, por isso, que pessoas de
todas as classes quisessem estar com Ele: alguns por curiosidade, outros à
procura de um sentido para a vida, outros em busca de um motivo para acabar com
Jesus, que se tornava perigoso, outros à procura de Deus… e de razões para te
amar mais, a ti, como irmão! Hoje apareceram, também, os escribas e os
fariseus, à volta de Jesus, vindos de longe, de Jerusalém. Os fariseus são
aqueles que guardam as tradições, os escribas aqueles que as conhecem. Fariseus
e escribas não nos são muito simpáticos, mas a verdade é que muitos deles eram
bons crentes. Quase todos cometeram o mesmo erro: esqueceram-se que seguir as
tradições é um passo importante, mas por si só, se nos esquecermos do irmão,
não basta para chegar a Deus. Poderemos estar a cometer o mesmo erro…
ORAÇÃO
Tal como os fariseus e os escribas, também hoje, Senhor,
venho a Ti. Venho de longe. Venho de caminhos onde tantas vezes Tu não Te
encontras. Venho da minha “Jerusalém”, das minhas seguranças. E, como eles,
venho tantas vezes a Ti, exigindo que cumpras as minhas razões. Mas hoje aqui
estou, Senhor, de mãos vazias, sem o meu egoísmo, sem a pretensão de querer
manipular-Te. Venho de longe, para estar sempre perto de Ti. Venho sem
falsidade, sem preceitos e decretos vazios. Hoje, Senhor, venho a Ti como
filho, para sentir o Teu abraço de Pai e levá-lo aos meus irmãos. Senhor, venho
de longe, eis-me aqui, todo Teu.
AÇÃO
Longe de Deus, cada vez falaremos menos d’Ele e com Ele. Por
isso, hoje, como fizeram os fariseus e os escribas, vamos passar o dia com o
Senhor, com coração aberto.
Terça-Feira
PALAVRA
Viram que alguns dos discípulos de Jesus comiam com as mãos
impuras, isto é, sem as lavar. – Na verdade, os fariseus e os judeus em geral
não comem sem terem lavado cuidadosamente as mãos, conforme a tradição dos
antigos. Ao voltarem da praça pública, não comem sem antes se terem lavado. E
seguem muitos outros costumes a que se prenderam por tradição, como lavar os
copos, os jarros e as vasilhas de cobre –.
MEDITAÇÃO
Os fariseus procuravam viver num estado de pureza
permanente. E para consegui-lo submetiam-se a um sem fim de preceitos, sobre os
mais variados temas. A intenção era boa, sem dúvida: queriam consagrar toda a
sua vida, as suas atividades, a Deus, desde o nascer do dia até ao anoitecer,
guardando uma disciplina rigorosa. Lavar as mãos antes das refeições é para nós
hoje uma questão de boas práticas de higiene. Mas o problema dos fariseus pode
muito bem ser o nosso hoje: preocupavam-se por se sentar à mesa com as mãos
limpas, e assim comer descansados, “puros”, mas esqueciam-se que desprezaram,
lá fora, um irmão leproso, porque impuro, um irmão pecador, porque impuro, um
irmão estrangeiro, porque impuro… sem lhes tocar, sem lhes falar,
deliberadamente, com risco de ficarem também eles impuros! As suas boas
intenções, afinal, eram insuficientes para chegar a Deus! E as minhas? Se me
sentar à mesa, limpo, mas tiver desprezado lá fora o irmão… não tenhamos
dúvidas: não basta para chegar a Deus, porque impuro estará o meu coração!
ORAÇÃO
Alguns dos teus discípulos, Senhor, comiam com as mãos
impuras, mas podiam perfeitamente aproximar-se da Tua mesa, da mesa da
eucaristia, porque puros estavam os seus corações. Tantas tradições, tantos
preceitos, mas longe de Ti, Senhor, e dos irmãos! Tantos ritos, mas que não
passam pelo coração. Que o meu coração, Senhor, não despreze os irmãos que
encontro na praça pública; que os meus pés não se afastem deles, com medo de se
contaminarem; que as minhas mãos estejam sujas, porque empenhadas em purificar
as sujidades deste mundo. Que o meu culto a Ti, Senhor, não despreze os meus
irmãos.
AÇÃO
No dia de hoje, vou cruzar-me, certamente, com tantas
pessoas, algumas delas consideradas “impuras”. Que nenhuma se sinta desprezada
pelo meu olhar, pelas minhas mãos, pelas minhas tradições.
Quarta-Feira
PALAVRA
Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus: «Porque não
seguem os teus discípulos a tradição dos antigos, e comem sem lavar as mãos?».
MEDITAÇÃO
Na perspetiva dos fariseus e dos escribas a purificação das
mãos antes das refeições não era uma simples questão de higiene, mas sim
religiosa. Tinham uma obsessão pelos ritos de purificação. Por isso,
escandalizados, unem-se contra os discípulos de Jesus que comiam esquecendo-se
das suas prescrições. E repreendem o próprio Jesus: “porque não seguem os teus
discípulos a tradição dos antigos?”. De facto, os verdadeiros discípulos de
Jesus têm sempre as mãos “impuras”, porque continuamente estendidas para os
leprosos, os pecadores, os pagãos, os desprezados. Sim, os fariseus têm razão,
a culpa de tudo isto é do nosso mestre, Jesus, que nos ensinou a tocar o
“impuro”, a amá-lo e a transformá-lo em irmão. Este é o único caminho para
chegar a Deus.
ORAÇÃO
Meu Senhor e meu Deus, preocupo-me tantas vezes por aspetos
exteriores… e escandalizo-me, como os escribas e fariseus, confundindo as boas
práticas de higiene com o culto a Ti devido. Ajuda-me, Senhor, a centrar o meu
interesse na intimidade, no coração e não em aspetos exteriores e formalistas.
Que não viva obcecado se o mundo me mancha as mãos, desde que não se apodere do
meu coração e não me faça desprezar os irmãos rejeitados, “impuros”, que todos
evitam para não serem confundidos com eles.
AÇÃO
Jesus, o nosso mestre, é o grande responsável por nós,
cristãos, termos abandonado algumas tradições superficiais e nos termos
centrado no essencial: amar a Deus, empenhados com os irmãos. Hoje vou alargar
esta cadeia de amor.
Quinta-Feira
PALAVRA
Jesus respondeu-lhes: «Bem profetizou Isaías a respeito de
vós, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo honra-Me com os lábios, mas o
seu coração está longe de Mim.
MEDITAÇÃO
Agora já não é difícil perceber o que Jesus nos quer dizer
ao defender os seus discípulos de mãos impuras. Este povo honra a Deus com os
lábios, mas mantém bem afastado d’Ele o seu coração (Is 29,13). A religiosidade
dos fariseus é uma prática exterior, cheia de palavras, orações e ritos, tantas
vezes lindos e solenes, mas que esquece o irmão e não vive em concreto o amor
do Senhor. Não só amar com palavras, mas com factos e na verdade (1Jo 3,18).
Por isso, Jesus chama-lhes “hipócritas”, porque se servem de tudo, mesmo de
Deus, para proveito próprio; preocupam-se por “parecer” e fingem amar. E nós?
Que é feito do nosso coração?
ORAÇÃO
Senhor, tantas vezes, Te pergunto: ‘Fala-me; que queres de
mim?’. E hoje não podias ser mais claro, Senhor, no que pretendes para mim,
todos os dias. Que me adianta repetir mecanicamente palavras bonitas, dizer que
Te amo, que estou disposto a dar a vida por Ti… se depois, na vida concreta o
meu coração está bem longe de Ti e não é consequente com essas palavras? Perdoa
a minha hipocrisia, Senhor. Perdoa a minha hipocrisia, Senhor. Como sei que as
minhas decisões importantes estão longe de Ti, aqui estou de novo, venho de
novo a Ti, disposto a uma verdadeira conversão do coração, dolorosa, é certo,
mas que será libertadora, porque já não mais estará o meu coração longe de Ti,
Senhor.
AÇÃO
O coração é o centro das nossas decisões. Que as nossas ações
deste dia não sejam manchadas pela hipocrisia. E que o nosso coração seja
sincero no amor que os nossos lábios professam ao Senhor e aos irmãos.
Sexta-Feira
PALAVRA
É vão o culto que Me prestam, e as doutrinas que ensinam não
passam de preceitos humanos’. Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para
vos prenderdes à tradição dos homens».
MEDITAÇÃO
Pena que os fariseus e os escribas se tenham preocupado por
se manterem “puros”, apenas exteriormente. Decretaram infindáveis leis e
preceitos, desvirtuando o culto a Deus. Transformaram a sua religiosidade num
culto “vão”, numa religião vazia e estéril, que não se preocupa em procurar
continuamente a vontade de Deus e o amor gratuito aos irmãos. Por isso as suas
tradições estão em claro contraste com o mandamento de Deus. São apenas
preceitos humanos, que esquecem ‘o amor a Deus com todo o coração, com toda a
alma, com todas as forças… e o amor ao próximo como a si mesmo’ (Mc 12,28-31).
Tantos preceitos, tantas leis, tantas palavras… e com o coração tão longe de
Deus e dos irmãos. Que pena, quando nos comportamos deste modo, como os
escribas e fariseus. Jesus não podia ser mais claro: deste modo, “é vão o culto
que me prestam”.
ORAÇÃO
Tantas vezes o meu culto a Ti, Senhor, tem sido estéril,
vazio. Quantas vezes me escudei em um sem fim de preceitos, que me davam
segurança, que me faziam sentir “salvo”, “justificado”, “puro”, mas que me
levavam sempre para mais longe de Ti e dos irmãos. Quantas vezes ‘deixei de
lado’, desprezei o Teu mandamento de amor. Mas hoje, Senhor, quero ‘amar-Te com
todo o meu coração, com toda a minha alma, com todo o meu entendimento, com
todas as minhas forças… e quero amar o próximo como a mim mesmo’ (Cfr. Mc 12,28-31).
Este é o único caminho que torna o meu coração verdadeiramente puro e perto de
Ti.
AÇÃO
É muito grave que sejam acusados, pelo próprio Senhor, de
nos esquecermos do mandamento de Deus e preferirmos as tradições dos homens.
Não podemos esquecer, hoje e sempre, o mandamento de Deus: amar a Deus e amar o
próximo. A partir daqui, todos sabemos bem o que fazer.
Sábado
PALAVRA
Depois, Jesus chamou de novo a Si a multidão e começou a
dizer-lhe: «Ouvi-Me e procurai compreender. Não há nada fora do homem que ao
entrar nele o possa tornar impuro. O que sai do homem é que o torna impuro;
porque do interior dos homens é que saem os maus pensamentos: imoralidades,
roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes, devassidão,
inveja, difamação, orgulho, insensatez. Todos estes vícios saem lá de dentro e
tornam o homem impuro».
MEDITAÇÃO
Como naquele dia, Jesus também nos adverte hoje: Ele não
quis defender uns discípulos de mãos sujas, mas quis mostrar onde se decide a
verdadeira pureza do crente e, com isso, a capacidade de entrar em comunhão com
Deus. Ainda que com as mãos pouco limpas, os discípulos de Jesus podem comer,
sempre que mantenham limpo para Deus o seu coração, pois é deste que saem as
verdadeiras impurezas. Ocupados com o que realmente suja o mundo, não lhes
preocupa se o mundo sujou as suas mãos, desde que não lhes suje o seu interior,
desde que essa “sujidade” não lhes nasça no coração. Nos jornais, nas revistas,
na TV, tantas preocupações, legitimas, com as boas práticas de higiene, fazendo
sacrifícios enormes para cumprir as dietas mais rigorosas… mas muitos de nós
cristãos, não estamos dispostos a fazer “pequenas dietas” nas nossas ações do
dia-a-dia que nos levem a uma verdadeira conversão do coração, na doação, sem
hipocrisia, aos irmãos, único caminho para chegar a Deus.
ORAÇÃO
‘A boca fala da abundância do coração’ (Mt 12,34). Um
coração que tem dentro a palavra da vida, torna tudo puro, Senhor; um coração
que tem dentro palavras de morte, torna tudo impuro. Sei, meu Deus, que o bem e
o mal não está nas coisas, mas nas nossas ações, e antes disso, nas nossas
intenções. Que as minhas palavras sejam palavras de amor e não de egoísmo, que
tantas vezes se apodera de mim. Que seja, Senhor, a Tua palavra a comandar o
uso que faço das coisas. Que seja uma palavra de comunhão e não de separação,
de amor e não de domínio.
AÇÃO
O que sai do nosso interior, do nosso coração, é o que nos
pode tornar impuros. Jesus apresenta-nos uma lista de vícios que nos afastam de
Deus e nos tornam impuros, que devemos evitar. Que neste dia, e sempre, as
nossas ações sejam reflexo de um coração puro, próximo de Deus.
Sérgio Paulo Pinto

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