D. Pio Alves, bispo auxiliar do Porto, em
declarações ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, recolhidas antes
do regresso a Portugal, descreve o Papa Francisco como «um papa próximo,
afetivo e preocupado com o mundo», no âmbito da visita que a maioria do
episcopado nacional realizou ao Vaticano na última semana de setembro.
Entrevistou Rui Jorge Martins | SNPC | 13.09.2015
SNPC: Do
ponto de vista espiritual, qual o momento da visita "ad limina" que
mais o sensibilizou?
D. Pio: A título pessoal, e não como
representante da Conferência Episcopal Portuguesa, o mais significativo para
mim foi o encontro com o papa.
Tratou-se de um momento assumidamente informal
por parte do papa, em que ele, ao responder às nossas perguntas, falou das suas
preocupações, relacionadas não só com a vida interna da Igreja, mas
principalmente com o rumo que o mundo leva, muito concretamente devido à
desistência ou inoperacionalidade das grandes estruturas internacionais. E
notava-se que o papa sente o peso do mundo e a obrigação de ajudar com o seu
contributo, e o de todos, a que se encontrem respostas aos grandes problemas
que afligem camadas significativas das populações, tendo à vista, por exemplo,
o fenómeno das migrações.
O encontro com o papa foi importante para mim
pelo seu conteúdo e, principalmente, pelo afeto e proximidade, em que se
descobre que as notas a ele relativas que dominam na apreciação pública global
não são teoria, mas verdade: o papa é, de facto, uma pessoa próxima, afetiva e que
sabe olhar muito para além dos problemas mais imediatos da Igreja.
E do
ponto de vista da cultura, qual foi o momento mais alto desta visita?
No que diz respeito mais diretamente à cultura,
para mim teve particular significado o encontro com o Conselho Pontifício para
a Cultura, presidido pelo senhor cardeal Ravasi, em que também esteve presente
o senhor D. Carlos Azevedo.
O cardeal Ravasi escutou com muita atenção o
resumo do que têm sido as atividades ao longo dos últimos 10 anos dos dois
Secretariados que têm a ver com este Conselho Pontifício, o da Pastoral da
Cultura e o dos Bens Culturais.
O senhor cardeal apreciou o facto de que o
trabalho realizado tenha tido como preocupação predominante não de modo
imediato as pessoas, digamos assim, que estão dentro da Igreja, mas todo o
diálogo efetuado com pessoas com formação cristã que, pelas mais variadas
razões, têm seguido outros rumos.
Eu tive oportunidade de fazer referência aos
diferentes mundos das artes, da cultura e da comunicação social que, ao longo
destes anos, têm vindo a fazer uma aproximação à Igreja católica por via das
relações estabelecidas com as pessoas dos diversos setores destes dois
secretariados.
Sei que o senhor cardeal apreciou muito as boas
relações institucionais que têm vindo a consolidar-se com instituições
culturais e, de modo muito especial, no que diz respeito ao Secretariado para
os Bens Culturais, as relações com diversas instâncias de autoridades civis. É
um modo muito concreto de aplanar dificuldades.
O senhor cardeal sublinhou que este modo de
trabalhar tem grande proximidade com uma realidade muito cara ao Conselho
Pontifício, que é o Átrio dos Gentios [plataforma da Igreja católica para o
diálogo entre crentes e não crentes].
Na segunda parte do encontro, o senhor cardeal
referiu-se a seis aspetos muito concretos que, à primeira vista, parece que não
têm uma relação direta com a cultura, mas que estão nos projetos do Conselho.
No que diz respeito à arte, recomendou-nos que
estivéssemos muito atentos - e nós temos estado, na medida do possível - às
novas manifestações artísticas, e não simplesmente à área do restauro do
património herdado. A proximidade aos atuais artistas é uma preocupação do
Conselho, e continuará a ser uma preocupação nossa.
Fez também uma referência, em contexto
alargado, ao diálogo entre fé e razão, com particular atenção ao mundo das
ciências.
Outra nota que o senhor cardeal Ravasi
desenvolveu, e que eu percebi que já tem uma evolução notável, é a preocupação
com o mundo do desporto, nas suas manifestações culturais, concretamente
ajudando a superar tudo o que tem vindo a ser, em bastantes áreas, a
descaracterização do universo desportivo quando é visto como mera atividade
comercial e financeira, tornando-se, em muitos casos, uma porta para a corrupção.
Num quarto momento, salientou a pluralidade das
culturas, tendo referido a importância da atenção às culturas juvenis e à
cultura do feminino.
Realçou, ainda, a relação com a economia, e
todo o trabalho que quem, na Igreja, tem mais preocupações culturais, deve
desenvolver com aquele sector, não no trabalho específico na área económica,
mas tendo como pano de fundo a relação entre fé e ciência, contribuindo, neste
âmbito, para que a economia não enverede por caminhos que nada têm a ver com o
cristianismo.
Por fim, foi sublinhada a intenção do Conselho
Pontifício de manter vivo o Átrio dos Gentios, tendo em atenção a pluralidade
de modos de olhar para a cultura.
O
discurso do papa Francisco ao episcopado fez referência a uma "fuga"
dos jovens da Igreja após a celebração do Crisma. Que implicações tem esta
tendência no cristianismo em Portugal, hoje e no futuro?
A preocupação do papa é um eco daquilo que são
as nossas preocupações, que foram manifestadas nos relatórios enviados pelas
dioceses para a Santa Sé.
É um facto incontornável que, na Igreja em
Portugal, conseguimos uma razoável - mas não completa, nem pouco mais ou menos
- permanência dos adolescentes e jovens na catequese. Todos nós verificamos que
nas dioceses não há uma adesão massiva à catequese para a primeira Comunhão,
mas há níveis muito altos de frequência. Há uma quebra após a primeira
Comunhão, uma quebra depois da profissão de fé, e há uma quebra - por vezes
debandada, assim dito de um modo dramático - por ocasião do Crisma.
Entre nós há a consciência de que temos de
ajudar as pessoas a perceber, em primeiro lugar, que a catequese desenvolvida
ao longo dos 10 anos previstos na esquematização feita em Portugal não é,
simplesmente e prioritariamente, uma aula, uma teoria, uma transmissão de
conteúdos, mas deve estar ao serviço do encontro com Jesus Cristo.
Provavelmente reside aqui uma das explicações
para que, depois de "aprendida a lição", as pessoas se sintam
dispensadas de continuar, dado que já aprenderam o que havia para aprender.
Temos de conseguir que o encontro com Jesus
Cristo como centro da catequese seja uma realidade, e isso só se consegue,
fundamentalmente, pela valorização da decisiva importância do catequista como
testemunha, e não, simplesmente, como mero transmissor material e intelectual
da fé.
Além disso, como já vem acontecendo em muitas
paróquias, mas que é preciso incrementar, temos de encontrar maneiras de
garantir acompanhamento aos jovens após o Crisma, aproveitando situações como a
preparação para o sacramento do Batismo, e muito especialmente para o
sacramento do Matrimónio, e principalmente criando condições para que, em grupo
ou individualmente, essas pessoas possam continuar a ser acompanhadas,
respeitando, obviamente, a sua liberdade.
Está aqui uma tarefa enorme que temos de
continuar a desenvolver, para que o esforço enorme que é feito para garantir 10
anos de catequese, não se perca. É verdade que nunca se perde porque é semente
que fica e que desabrochará onde e quando Deus quiser. Mas do ponto de vista
estatístico, há, de facto, uma fuga, uma perda considerável das pessoas e dos
esforços feitos.
Essa
perda tem implicações a nível cultural?
É evidente que sim, na medida em que as pessoas
se possam ir descaracterizando como cristãs; se essa tendência ocorrer, isso
terá reflexo na vida profissional, na vida familiar, nas relações pessoais.
Somadas as descaracterizações uma a uma, resultará numa descaracterização da
presença do cristianismo na sociedade.
Que
intuições traz, do ponto de vista da Pastoral da Cultura, desta visita "ad
limina"?
Sinto-me muito fortalecido na ideia de que não
nos podemos fechar sobre quem, mais ou menos, circula no âmbito das nossas
atividades, mas que, respeitando as diferenças, temos de saber ir ao encontro
das pessoas, oferecendo possibilidades, aproveitando muito aquilo que já são as
portas abertas por quem, devido a razões pessoais ou de trabalho, tem já
relação com o mundo da cultura.
Temos de continuar a manter as portas abertas.
O Santo Padre fez referência às igrejas de portas abertas, mas isso tem um
sentido mais amplo, ou seja, não basta ter as portas abertas esperando que as
pessoas entrem, mas temos de ir à procura das pessoas e mostrar-lhes aquilo
que, não por mérito pessoal, temos para lhes dar, porque é a herança que
recebemos de Jesus Cristo e dos nossos antepassados.
Trata-se de continuar a potenciar a abertura a
todos os mundos, a abertura a todas as pessoas, uma abertura que não é
permissividade mas que implica a busca, a oferta, o ir ao encontro.

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