«O Senhor Jesus, que fez ouvir os surdos e falar os mudos, te dê graça de, em breve, poderes ouvir a Sua palavra e professar a fé, para louvor e glória de Deus Pai», meditação do Evangelho do XXIII domingo comum
Jesus acercou-se do surdo-mudo, como se acercou aos pobres, aos leprosos, ao paralítico. E, acercando-se, eleva-os,
cura-os, faz com que voltem a ser criaturas humanas, enriquece-os de esperança e de
fé.
Ao acercar-se, toca-os, não só com a sua palavra, mas também com os seus
gestos humanos, com a sua humanidade.
Jesus levantou os olhos ao céu como alguém que ora, respirou profundamente como
alguém que se apena diante da desgraça alheia ou como alguém que tem impulso
curativo, pronunciou a palavra mágica: “Éffeta…abre-te” e o surdo-mudo ouviu e
falou como pessoa.
Comentário de P.e Antonio Rivero, L.C. sobre a liturgia do XXIII
Domingo Comum
Jesus humana divinidade
Estas circunstancias destacam o papel da humanidade de
Cristo, instrumento do seu poder divino. Resulta impressionante saber que Deus
não se acerca a nós somente com a sua Palavra espiritual, senão que ademais
toca-nos. Deus chega a nós através das mãos de Cristo, da sua saliva. E assim
cura a nossa alma e o nosso corpo, como Ele fez com o surdo-mudo do evangelho.
Os dedos do Senhor, que tocaram nas orelhas do enfermo, não só abriram seus
ouvidos ao som humano, senão que também à Palavra de Deus. E a saliva divina,
colocada sobre a língua deste tartamudo, não só o liberou da sua trava natural,
senão que lhe comunicou a agilidade necessária para orar e para cantar a glória
de Deus.
O surdo-mudo é paradigma e protótipo de
uma humanidade fechada à voz de Deus e incapaz de louvar ao Senhor.
Assim
entendeu a Igreja ao escolher os gestos de Jesus para elaborar o seu ritual do
Batismo. Sem o batismo estávamos espiritualmente surdos, somente éramos capazes
de escutar a voz “da carne e do sangue”, mas não a voz de Deus. Sem o batismo
estávamos espiritualmente tartamudos, indignos e privados do direito de chamar
a Deus de “Pai-nosso”, incapazes de dizer nem mesmo “Senhor Jesus”, já que como
ensina são Paulo, ninguém pode dizer tal coisa “sem a ajuda do Espírito Santo”.
Muitos homens de hoje estão surdos como um muro quando Deus lhes fala desde a
Bíblia, desde os sacramentos, desde a voz da Igreja, desde o clamor dos pobres.
Não conseguem escutar ou não querem escutar o “Éffeta” de Jesus. Porque? Porque o mundo arrebentou-lhes os
tímpanos do espírito; e tanta gargalhada mundana terminou atrofiando-lhes a
boca da alma. Outros, graças a Deus, entram no templo e adoram, rezam, cantam,
escutam, falam…a Deus. Estes, numa sociedade descristianizada e neo-pagã, são
um sinal fluorescente de Deus, um milagre.
Cristo ressuscitado cura hoje à
humanidade através da Igreja.
Durante dois mil anos, a Igreja tem se dedicado,
não só a pregar a Palavra e perdoar os pecados, mas também curar aos enfermos,
atender aos pobres, anciãos e marginados, lutar contra todo tipo de opressão e
injustiça, trabalhar pela libertação integral da pessoa. Basta ver a lista dos
santos e santas fundadores, bispos e sacerdotes, que inclusive deram a sua vida
por esta causa do evangelho. Esta missão não é só dos ministros sagrados,
consagrados e religiosas. É de todo batizado, cada um no seu campo de ação:
família, trabalho, amigos, paroquia, periferias. Porém talvez, Jesus quer-nos
curar também a nós hoje, porque temos os ouvidos e os lábios fechados.
Para refletir
Sou capaz de ajudar aos cegos que não vem ou
não querem ver, para que saibam quais são os caminhos de Deus? E aos surdos,
para que saibam da mensagem da salvação de Deus? Ou aos mudos, para que soltem
a sua língua e recuperem a fala nos momentos oportunos?
Para rezar
Senhor, quero escutar hoje também na minha vida
o “Éffeta…abre-te”, para que meus ouvidos abram-se a tua Palavra e minha boca
leve-a por todo o mundo, começando pelos mais próximos. Reza sobre os teus
ouvidos e peça: “Éffeta”. Abre-te para a Palavra de Deus. Eu quero escutar a
tua voz, Senhor, quero escutar tuas moções. Abre meus ouvidos para as boas
palavras. Reza pedindo para que tenhas ouvido de discípulo. Coloca tuas mãos
sobre os teus olhos e peça: “Éffeta”. Senhor, quero ter um olhar de
misericórdia sobre as situações, sobre as pessoas, não quero ter olhos
maliciosos. Quero ver-te nas pessoas, Jesus. Quero ver-te nas situações. Com as
mãos na tua boca, grita: “Éffeta”. Quero ter boca de discípulo. Que saiam de
minha boca palavras que sanem, salvem, libertem e não palavras de desânimo.
Abre meus lábios para que eu seja um anunciador da tua Palavra. E com as mãos
sobre teu coração diga: “Éffeta”. Quero ter teu coração, Jesus. Abre meu
coração para amar, para perdoar. Abre meu coração para não guardar ódio de
ninguém. Eu quero, Senhor. Abre meu coração.


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