Nos dias 24 e 25 de setembro participei em Fátima na «Domus Carmelli» nas Jornadas de Comunicação Social que tiveram como tema: «Comunicação e Família: Partilha de afetos». Ouso apresentar aqui algumas ideias que considerei principais neste encontro.
José Luís Rodrigues | padre na diocese do Funchal | in Diário de Notícias da Madeira
A comunicação social no geral fala da família normalmente pelas piores razões, não são os bons exemplos da família que são notícia, mas os piores acontecimentos da família dão sempre que falar. A jornalista Rita Carvalho, Jornalista do Sol, deu prova desta constatação com a seguinte reflexão que me parece ser bem ilustrativa desta ideia de que a família normalmente é notícia pelas piores razões.
A família em crise ou a crise da família é o que faz mais notícias, a saber neste domínio: a violência doméstica, a crise financeira; o endividamento, o desemprego, o suicídio, a pobreza e ou miséria, os temas fracturantes (a contracepção, o aborto, a gravidez na adolescência, os idosos abandonados, a pobreza das crianças e os maus tratos…).
Embora sejam importantes todos estes temas, nota-se quanto são tratados com pouca profundidade e a ligeireza com que tantas vezes são expostas as vítimas de cada uma das situações relatadas. Importa a notícia por si mesma, sem causas e sem os contornos devidos a serem tidos em conta. Não se faz a reflexão quanto às causas que conduzem a tais situações, por exemplo, à violência doméstica, às crianças em risco e em relação a todos os malefícios que afectam a família, que naquele preciso momento são notícia. Há sempre uma abordagem pela rama.
Vejamos um exemplo, idosos abandonados no hospital. Não se procura saber porque foi abandonado, a situação da família e as suas circunstâncias que levaram à demissão da família em relação ao seu idoso. Outro exemplo, notícias sobre a escola. As notícias sobre os males que lá se passam não são aprofundadas, ninguém se preocupa como estão e que condições têm para estudar, se há condições condignas para que o saber possa ser transmitido como deve ser e se tais condições permitem a devida aprendizagem. Nenhum órgão de comunicação aprofunda a questão das crianças nas redes sociais, os preços exorbitantes dos manuais escolares, as razões que conduzem à violência doméstica, as crianças em risco no seio familiar, a desordem social em que conduz à prostituição e à exploração sexual no âmbito familiar… Obviamente, que muitas vezes tal superficialidade não deriva só dos meios e dos agentes da comunicação social, mas da falta de interlocutores abalizados para se pronunciarem sobre estes assuntos.
Tudo começa na família mesmo que comece mal. Apesar de tudo, a família é o alicerce para qualquer pessoa. Neste sentido, faço chegar aqui à liça de exemplo o tema abordado por um casal a viver a experiência de um segundo casamento, que tratou do tema a «Comunicação num segundo casamento – Vitor Neto e Marília Monteiro Neto. Aliás, refira-se que noutros tempos tal seria impensável numas jornadas nacionais no âmbito da Igreja Católica. O ambiente está mais saudavelmente respirável. Aqueles que antes preenchiam o rol dos excluídos estão a ser convocados para fazerem a partilha das suas experiências mesmo que não estejam dentro das sacrossantas normas eclesiásticas.
Gostei de ouvir este casal dizer perante alguns bispos, padres e os vários agentes da comunicação católica ali presentes, que sendo eles católicos de prática regular, algumas vezes se sentiam tristes, porque ao irem ao «restaurante» pediam o jantar, mas logo a seguir alguém lhes diz que não podem comer. - Sim, mas… E a conta, quem vai pagar? – Nisto os zeladores da pureza do templo rematam sem hesitar - tenham paciência, a conta têm que pagar. Melhor não é possível para ser feita a denúncia de quanto é absurda a recusa da comunhão da missa a alguém que à volta da mesa a deseje receber.
Deste casal ficou assente que o primeiro elemento para a comunicação em família, consiste no ser genuíno. Não ter pedras no sapato. Perceber a diferença entre o homem e uma mulher (esta é uma aprendizagem, um processo). As novas tecnologias podem ser um meio excelente para a comunicação, para a reconciliação e para a resolução dos muitos problemas que são colocados à vida do casal e da família. Perante os filhos o diálogo, a transparência e a genuinidade são sempre os melhores meios para o sucesso. Dar tempo aos filhos. A educação pelo exemplo, que pode estar bem presente em «gestos mínimos» como referiu o Papa Francisco no encontro mundial das famílias em Filadélfia ao dizer o seguinte: «São gestos mínimos, que uma pessoa aprende em casa; gestos de família que se perdem no anonimato da vida diária, mas que fazem cada dia diferente do outro». Quanto se perdeu disto... Precisamos de reaver urgentemente.

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