Bartimeu e as nossas cegueiras


A cegueira é um assunto que me faz sofrer. Não é com facilidade que abordo uma questão destas. Ceguei de um olho aos 21 anos e tenho que vigiar de perto o outro. Tem o mesmo mal. Por esta razão, percebo o grito deste homem que ouve Jesus passar. Grita do fundo da sua doença e da "solidão" que vive.


Paulo Victória | iMissio | 27-10-2015

Sabemos que este episódio, além de alertar os cristãos para o cuidado particular a ter com os que sofrem no corpo, tal como Jesus teve, pretende alertar-nos para outras "cegueiras". "Cegueiras" essas que muitas das vezes tentam "tapar-nos" a realidade e esconder-nos da verdade. Muitas, são provocadas por nós próprios.

Este fim de semana terminou o Sínodo sobre a família e encontrei três episódios que nos tentaram "cegar" do que realmente interessava. 1º A renúncia ao celibato e à modéstia de um padre homossexual; 2º Toda a especulação à volta de uma carta enviada por alguns cardeais ao Papa em jeito de "queixinhas", como se a comunicação ao Papa sobre o que pensam destes assuntos não fosse um dever antes de ser um direito; Finalmente o 3º, o cancro inventado a Francisco.

A nossa vida está cheia de tentativas de desculpabilização para a falta de coragem em assumir os nossos deveres. Fingimo-nos cegos a tantos que sofrem ao nosso redor. Inventamos desculpas como a «falta de tempo» ou a «falta de visão» - "Não vi"; "Não sabia"; "Não dei por isso"; "Ando ocupado"; "Demasiado trabalho"...

As cegueiras de hoje têm muitos outros nomes. As nossas atitudes estão cheias de individualismo, egoísmo e egocentrismo. Tantas vezes, vivemos para a autorrealização que deixa o outro de fora. Quantas vezes, em busca do sucesso da carreira profissional, esquecemos a família e os amigos? "Vendemo-nos" facilmente, por momentos de fama tão momentâneos e fugazes... Exploramos outros para a nossa "sobrevivência" pública... "Compramos" sucesso que não nos faz mais humanos, mas ídolos vorazes de celebridade e de moda... São as "cegueiras" do dinheiro, do poder e do domínio.

«Mestre, que eu veja.» Tal como Bartimeu, precisamos de pedir a Deus, para ver. Ver o que sofre por falta de amor e carinho; ver o sofrimento daqueles a quem o matrimónio falhou; ver o que sofre por ser explorado; ver as amizades que sacrificamos para atingir certos objetivos; ver os valores que sacrificamos por poder e domínio...

Só assim, tal como o cego de Jericó, poderemos seguir o Senhor.

Comentários