A líder de um grupo mundial com cerca de 600 mil religiosas
católicas disse, na esteira do Sínodo dos Bispos deste mês, que as mulheres são
chamadas a levar a cabo o trabalho pastoral que a Igreja oficial às vezes não
tem condições de fazer.
A Irmã Carmen Sammut, natural de Malta e que participou no
Sínodo 2015 como uma das 32 mulheres participantes sem direito a voto junto dos
270 prelados, falou que as religiosas deveriam se envolver com aquelas pessoas
que as instituições eclesiais podem nem mesmo saber que precisam de ajuda.
Reportagem de Joshua J. McElwee, em National Catholic Reporter, 26-10-2015
“Acho que não devemos desistir do nosso papel nas fronteiras
da Igreja”, declarou Sammut, que preside a União Internacional de Superioras
Gerais – UISG.
“Com as pessoas (…) que estão necessitando de um
acompanhamento pastoral – e que recebem ele muitas vezes não da Igreja oficial,
mas de nós”, descreveu ela o trabalho das irmãs, propondo que as religiosas se
façam a pergunta: “Como estamos nos envolvendo com as pessoas que a Igreja
oficial não está vendo?”
Com a publicação do documento final do Sínodo, Sammut disse
que uma outra pergunta a se fazer é: “Como podemos ter certeza de que estas
palavras não serão esquecidas e como estamos realizando-as em nossas
realidades?”
“Creio que podemos pressionar nesse sentido”, disse.
Sammut, que também é a Superiora Geral das Irmãs
Missionárias de Nossa Senhora da África, falava na segunda-feira numa sessão
pública com membros da UISG para apresentar uma visão geral de sua experiência
de servir como auditora no encontro dos bispos. A sessão intitulava-se: “O
Sínodo sobre a Família visto do Banco de Trás”.
Os auditores e as auditoras podiam se fazer presentes e
participar nos debates sinodais, mas não possuíam direito a voto. No evento
deste ano estavam 17 indivíduos e 17 casais. Treze dos auditores individuais
eram mulheres, incluindo Sammut e duas outras irmãs representavam a UISG.
O grupo internacional das religiosas é uma organização com
cerca de 1800 líderes das congregações católicas femininas.
Na segunda-feira, Sammut falou sobre o processo pelo qual
ela e duas outras irmãs foram nomeadas como auditoras, explicando que ele não
ocorreu de forma fácil. A religiosa disse que o seu grupo não havia tido
nenhuma inclusão oficial no último Sínodo dos Bispos, ocorrido em 2014.
A líder da UISG disse que ela e um grupo de líderes
religiosas abordaram a questão primeiramente numa reunião com o secretário de
Estado do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin, há alguns meses. Elas então
levantaram a questão em um encontro com o Cardeal Lorenzo Baldisseri, chefe da
Secretaria Geral do Sínodo, antes de serem convidadas.
“Não acho que este convite foi automático”, contou Sammut às
religiosas no encontro sobre a sua participação no Sínodo. “Tivemos de ir em
busca dele”.
Um grupo parecido, que representava as ordens religiosas
masculinas, tinha 10 participantes presentes no Sínodo deste ano, todos eles
com pleno direito a voto. Pela primeira vez nos últimos 50 anos do Sínodo, um
desses representantes não era sacerdote: o Irmão Herve Janson, da Congregação
dos Pequenos Irmãos de Jesus.
Sammut mencionou o papel de Janson, dizendo: “Esta foi a
primeira vez que uma pessoa não ordenada [ao sacerdócio] tem direito ao voto no
Sínodo, então algumas coisas podem mudar com o tempo”.
A líder da UISG igualmente mencionou que ela teve uma
oportunidade, durante o Sínodo no dia 16 de outubro, para se encontrar em
privado por uns instantes com o Papa Francisco.
Disse que perguntou se ele havia recebido uma série de
cartas que o seu grupo havia lhe escrito e que se focavam especialmente em
manifestar a disponibilidade delas em fornecer subsídios caso ele quisesse
considerar mais profundamente o seu desejo expresso de papéis mais amplos às
mulheres na Igreja.
Francisco, disse Sammut, indicou que não recebeu as cartas.
A religiosa então falou que ela convidou o papa a participar na próxima
assembleia geral trienal, a acontecer em maio de 2016.
Sammut informou ter recebido uma nota escrita a mão de
Francisco no dia seguinte, na qual o pontífice prometia uma audiência geral com
cerca de 800 religiosas que vinham a Roma para o encontro. A carta fora escrita
em espanhol, com o envelope endereçado pelo próprio papa, que registrou o
seguinte endereço: “F., Casa Santa Marta, Città del Vaticano”.
No decorrer da apresentação de segunda-feira, a líder
religiosa recapitulou o processo de três semanas do Sínodo, mas também trouxe
alguns insights de como são os bastidores do encontro.
Sammut disse que uma coisa “um pouco difícil” de acompanhar
na sequência das intervenções dos bispos durante as sessões abertas do Sínodo
era quando cada um dos prelados tinha a oportunidade de falar por três minutos.
“As intervenções eram extremamente diferentes”, disse.
“Podíamos ouvir uma coisa e o seu oposto”.
“Isso se tornou uma experiência bastante frustrante e
confusa, e não havia jeito de compreender, eu que vivi todos os meus 30 anos de
experiência missionária fora do centro de Roma, em uma pequena e periférica
comunidade no norte da África”, contou.
Sammut também disse que o processo sinodal não permitiu que
houvesse tempo o suficiente para a reflexão ou oração de maneira que os
prelados pudessem considerar os diferentes pontos de vista que escutavam.
“Papa mim, o ponto fraco desse método foi que não havia
tempo suficiente para um processo de discernimento verdadeiro”, falou ela às
religiosas.
“Quando se têm diferenças muito grandes, como se pode juntar
todas elas?”, perguntou-se.
Os prelados precisavam de “mais tempo de oração para digerir
tudo aquilo e para distinguir os movimentos do Espírito, também para não falar
do que se deseja pessoalmente (...) mas o que o Espírito parece estar dizendo à
Igreja”, disse.
A líder da UISG também falou de sua experiência em
participar de um dos 13 pequenos grupos de discussão do Sínodo, divididos
segundo a preferência linguística. O tempo no grupo em que participou foi “uma
das melhores partilhas” no Sínodo, segundo a religiosa.
“Dentro de meu grupo, todos os tipos de famílias estavam
presentes, com as suas alegrias e problemas”, falou. “Não existe um ideal, uma
família perfeita”.
“A imagem que me veio depois desta partilha foi a do Cristo
Ressuscitado mostrando-nos as suas feridas”, completou. “Achei importante para
mim deixar os meus olhos da fé encontrar o Cristo ferido e ressuscitado em cada
uma das famílias sobre as quais estávamos falando”.
Os debates mais difíceis no Sínodo aconteceram quando os
prelados estavam considerando algumas questões tais como a forma como a Igreja
trata as pessoas divorciadas e recasadas, disse Sammut.
“Durante esta parte do encontro, percebi o quanto é difícil
ser um bispo. Fiquei sentida pelos bispos. É a primeira vez em minha vida que
sinto isso”.
“Eles precisam sustentar a doutrina da Igreja ao mesmo tempo
dando conta das necessidades pastorais de cada pessoa em suas dioceses”,
continuou ela, dizendo que eles querem “mostrar um rosto acolhedor de Deus
enquanto ainda mantêm a disciplina da Igreja”.
“Como se tornar livre o suficiente para ir além do medo?”,
disse ela sobre as considerações dos bispos.
Os católicos divorciados e recasados estão atualmente
proibidos de receber a Comunhão na Igreja, a menos que recebam a anulação do
casamento anterior.
Ainda que o documento final do Sínodo proponha que tais
pessoas devam discernir sobre as decisões a respeito de suas vidas espirituais
de forma individual, juntamente com a orientação de sacerdotes, Sammut disse
que as deliberações aqui foram difíceis.
“Uma coisa que me chocou bastante é que algumas pessoas
estavam falando em não abrir o Sacramento da Penitência aos divorciados e
recasados”, disse. “Um dos motivos que às vezes era apresentado (...) era que
outros católicos ficariam escandalizados se vissem estas pessoas indo para a
Comunhão, ou em vê-las readmitidas aos sacramentos”.
“Que tipo de cristãos, então, estamos fazendo dos bons
cristãos?”, perguntou-se Sammut. “Como pode um bom cristão querer privar os
demais daquilo que é importante e necessário para a vida alheia?”

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