Quem passar pela região da Frígia, atualmente Turquia, ainda
hoje ouvirá esta fantástica história contada de geração em geração. Trata-se de
um dos mais belos mitos da cultura grega - o do casal de velhinhos Báucis e Filémon -,
transmitido pelo poeta latino Ovídeo em suas Metamorfoses. Os mais velhos repetem sempre a lição: quem acolhe um
pobre faminto, hospeda anonimamente Deus:
Leonardo Boff | Jornal do Brasil
«Certa vez Júpiter, pai-criador do céu e da terra e seu
filho Hermes, princípio de toda comunicação (donde vem a palavra hermenêutica),
resolveram disfarçar-se de pobres e vir ao reino dos mortais para ver como ia a
criação que haviam posto em marcha. Ambos se desfizeram de sua glória Pareciam
realmente pobres e andarilhos dos caminhos.
Passaram por muitas terras. Pediam ajuda a uns e a outros e
ninguém lhes estendia a mão. Muitos outros sequer os olhavam. Era o que mais
lhes doía, por não serem sequer olhados, como se fossem cães lazarentos da
estrada. Assim passaram fome e toda sorte de privações. Depois de tanto
peregrinar e de sentir-se alijados por todos, o que mais queriam era encontrar
alguém que lhes desse uma mínima hospitalidade.
Até que um dia, chegaram à Frígia, província das mais longínquas
e inóspitas do império romano. Ai vivia um casal muito pobre. Ele se chamava
Filémon (em grego, “aquele capaz de amar”) e ela Báucis, (em grego, “delicada e
terna”).
Sobre uma pequena elevação construíram sua choupana,
rústica, porém, muito limpa. Foi lá que, ainda jovens, uniram seus corações.
Viviam em grande paz e harmonia pois ambos faziam tudo juntos, um auxiliando
sempre o outro. Quem mandava era também quem obedecia.
Eis que chegaram Júpiter e Hermes, disfarçados de pobres
mortais. Bateram à porta. Qual não foi a sua supressa quando o bom velhinho Filémon,
sorridente, apareceu à porta e, sem muito reparar, foi logo dizendo:
“Forasteiros, vocês devem estar muito cansados e com fome.
Venham, entrem na casa. É pobre, mas está aberta a hospedá-los”. Báucis, a
delicada e terna, logo se apressou em lhes oferecer dois tamboretes de madeira
para se sentarem.
Antes que manifestassem qualquer desejo, ambos, Filémon e
Báucis, começaram a reanimar o fogo, quase se apagando, para aquecer a água e
aliviar os pés dos dois hóspedes. Filémon foi à horta atrás da choupana e
colheu29 algumas folhas e legumes, enquanto Báucis tirava da vara, o último
pedaço de toucinho. Numa panela de barro, bem antiga, cozinharam os legumes com
o toucinho que enchia a casa de perfume. Báucis tomou do azeite turvo e grosso,
mas perfumado e o derramou por sobre a sopa. Depois tomou alguns ovos e os
meteu sob a cinza quente. Filémon se lembrou do vinho que jazia numa vasilha
escura no canto da casa. Tomaram alguns pedaços de pão do dia anterior,
aqueceram-nos na borda do fogão. E de repente tudo estava sobre a mesa em
pratos quentes.
“Queridos hóspedes, vamos comer pois vocês merecem se
alimentar depois de tantas canseiras. Perdoem simplicidade e a pobreza da
cozinha”. Os imortais comeram à saciedade. Muito comovidos ficaram quando os
dois velhinhos ofereceram a própria cama para dormir. Colocaram lençóis limpos,
embora visivelmente gastos. Estenderam por sobre o leito uma cobertura de
honra, um velho tapete, usado nas festas.
Quando Júpiter e Hermes estavam se levantando para ir
dormir, eis que sobreveio grande e inesperada tempestade. Raios e trovões
ribombavam pelo vale afora. Ocorreu uma inundação vitimando pessoas e animais.
Báucis e Filémon se desculparam junto aos Imortais e
apressados, se preparavam para ajudar os flagelados. Mas Júpiter freou a
devastadora tempestade.
Foi então que aconteceu a grande revelação. Báucis e Filémon
viram sua choupana se transformar num luzidio templo de mármore. Colunas em
estilo jônico enfeitavam a entrada. O teto de ouro reluzia como o sol recém saído
das nuvens. E Júpiter e Hermes mostraram toda sua glória.
Filémon e Báucis caíram em si. Puseram-se de joelhos,
inclinando a cabeça até o chão para venerar o Deus presente. Júpiter depois
bondosamente disse: “Bom e justo Filémon, digna e terna esposa Báucis: façam um
pedido que eu, em agradecimento, quero atender”. Báucis se inclinou para Filémon
e colocou sua cabeça encanecida sobre o peito dele. E, como se tivessem
previamente combinado, disseram unissonamente: “O nosso desejo é de servir a
Deus nesse templo por todo o tempo que nos resta de vida”.
E Hermes acrescentou: “Eu também quero que façam um pedido
para eu o realizar”. E eles, novamente, como se tivessem combinado, sussurraram
conjuntamente: “Depois de tão longo amor e de tanta concórdia, gostaríamos de
morrer juntos”.
Seus votos foram ouvidos e cumpridos. Filémon e Báucis, os
esposos hospitaleiros, serviram no templo enquanto durou sua respiração.
Certo dia, enquanto, sentados no átrio, recordavam de como
hospedaram, sem saber, Deus em sua choupana, Filémon viu que o corpo de Báucis
se revestia de folhagens floridas até a cabeça.
E Báucis viu também que o corpo de Filémon se cobria todo de
folhagens verdes. Mal puderam balbuciar juntos o derradeiro adeus. Aconteceu a
grande metamorfose. Filémon foi transformado num enorme carvalho e Báucis numa
frondosa tília. Em cima, as copas e os galhos se entrelaçaram. E assim abraçados
ficaram unidos para sempre.»

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