“O Sínodo sobre a Família ganharia se ouvisse a voz das mulheres”, Irmã Carmen Sammut


Para mim, o Sínodo foi uma oportunidade e uma prova. Uma oportunidade de estar em um espaço de universalidade tão grande. Uma prova também porque havia tão poucas mulheres, e, portanto, a universalidade estava limitada... Necessariamente, neste encontro, a voz de três religiosas não tinha muito peso. Como as nossas intervenções ocorreram apenas no final da segunda semana, algumas delas já estavam defasadas. Isso foi muito frustrante.

A Irmã Carmen Sammut (foto) fala sobre o lugar concedido às mulheres no Sínodo sobre a Família. Ela é a presidente da União Internacional das Superioras Gerais. Fonte: La Croix25-10-2015.

Eu penso que o Sínodo ganharia verdadeiramente se ouvisse a voz das mulheres, especialistas em diversas áreas, muito próximas da vida daqueles e daquelas que sofrem, marginalizados, e ouvi-las antes para levar em conta o seu ponto de vista nas discussões. Eu tive momentos de desolação, quando pensei que estava bloqueado e que nada de novo surgiria no resultado final.

Mas, no sábado à noite, eu tive a alegria de ver, mais uma vez, que o Espírito Santo teve a última palavra. Estou feliz pelo fato de que o texto final fala sobre a necessidade de defender e de promover a dignidade das mulheres, sobre a discriminação e as violências de que muitas vezes são objeto. E o documento reconhece que sua participação na Igreja – nos processos de decisão, no governo de algumas instituições e na formação do clero – pode contribuir para um melhor reconhecimento social das mulheres. Esperamos, agora, que essas declarações sejam colocadas em prática.”


Intervenção da Irmã Carmen Sammut na aula sinodal, 16.10-2015

«Quando o Instrumentum laboris fala da Igreja, às vezes refere-se ao Povo de Deus, que somos todos nós, e mais frequentemente, refere-se à hierarquia. Isso não é insignificante. Se a imagem da Igreja é o Povo de Deus, então de nós, os leigos, seria esperado que trouxéssemos o nosso conhecimento para os processos de discernimento da Igreja, tendo em vista a tomada de decisões, sempre em união com o Papa e os nossos Bispos.

Este viria a influenciar a maneira de trabalhar das dioceses e paróquias. O plano diocesano incluiria a formação de mulheres, homens e jovens a serem líderes na Igreja. Na maior parte das questões aqui levantadas no Sínodo, como a biotecnologia, seria útil ter equipes de clérigos e leigos (de todas as esferas da vida e na sua qualidade de teólogos, biblistas, cientistas, sociólogos, assistentes pastorais canonistas) trazendo o seu conhecimento, investigações e refletindo juntos à luz do Evangelho. Eu vejo isso como parte da missão da família na Igreja.

Uma área em que tais equipas interdisciplinares formadas por casais, bem como religiosos, traria mudanças é na formação de ministros ordenados.

Outra área em particular onde é necessário grande discernimento é à paternidade responsável. No nosso ministério pastoral, de saúde e de educação, somos chamados a ouvir e acompanhar as mulheres que têm filhos e sabem que não têm os recursos financeiros e outros para trazer outra criança. Métodos naturais de planeamento familiar nem sempre são úteis para o crescimento de um casal no amor mútuo e nem sempre são possíveis, especialmente se o marido não é cooperativo ou está regularmente ausente. Minha esperança é que a Igreja se emprenhe nesse discernimento com casais e com os cientistas, a fim de repensar como montar o seu ensinamento muito essencial de abertura à vida, a proibição do aborto e à situação destes casais.


Eu realmente sonho com uma Igreja onde cada um é chamado a dar a sua parte para a construção do todo.»

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