Peregrinos na santidade e na misericórdia

  
A santidade da Palavra ilumina os passos da Igreja peregrina em Bragança-Miranda e S. Paulo recorda-nos: «Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação» (1Ts 4,3). Então, uma pessoa que faz a vontade de Deus é santa. A admonição de S. Paulo na carta aos Tessalonicenses, o primeiro escrito do Novo Testamento, servirá de mote neste ano dedicado à santidade, para situar a santidade, que se funda na vontade de Deus em Jesus Cristo, na vida de todos os dias na alegria, no trabalho, na oração, na gratidão e na ação de graças (cf. 1 Ts 5, 16-18). Para ser santo não é preciso fazer coisas estranhas. A vontade de Deus é expressa em toda a Bíblia, desde o Génesis ao Apocalipse, bem saliente na afirmação «criou-os à Sua imagem e semelhança» (Gn 1, 26).

D. José Cordeiro, bispo de Bragança-Miranda, no Semanário Ecclesia N.º 136 | 29.10.2015

1. PROGREDIR SEMPRE MAIS
A Igreja é comunhão dos santos, não obstante o nosso egocentrismo, orgulho, individualismo e resistências. «Hoje como nunca, urge que todos os cristãos retomem o caminho da renovação evangélica, acolhendo com generosidade o convite apostólico de “ser santos em todas as ações”» (J. Paulo II).
S. Paulo exorta os fiéis da comunidade grega de Tessalonica a crescer no amor e na santidade, propondo a atitude de «progredir sempre mais, a ter como ponto de honra viver em paz, a ocupar-vos das próprias atividades, a trabalhar com as vossas mãos». Quando Paulo escreveu a primeira carta aos Tessalonicenses, os evangelhos ainda não tinham sido escritos, sendo uma palavra oral. Por isso, Jesus Cristo é Ele mesmo o Evangelho de Deus.
Em S. Paulo, o Evangelho é sempre entendido como a ação de anunciar no Espírito Santo. «O acolhimento do Evangelho transforma os Tessalonicenses: passam dos deuses ao Deus de Israel, vivem na fé, no amor e na esperança (1Ts 1,3.10; 3,12; 4,9-10; 2Ts 1, 3-4); eles próprios tornam-se anunciadores do Evangelho (1Ts 1, 7-8). A ação do Espírito manifesta-se na alegria no meio das adversidades (1,6), na santificação (4,3-8), nas profecias (5,19-20)» (F. Manini).
A vocação à santidade é o testemunho maior da dignidade cristã e conduz à perfeição da caridade ou da misericórdia. Igualmente a vocação à santidade anda de mãos dadas com a Palavra de Deus e com a missão.

2. CAMINHAR E AGRADAR A DEUS
A finalidade é a de agradar a Deus, que significa fazer a sua vontade, praticando os ensinamentos de Jesus. Deus tem o seu agrado e a sua alegria na santificação e no amor que lhe dá o homem e que o homem acolhe no seu coração.
Uma nota da Bíblia de Jerusalém diz assim: «a vontade de Deus (cf. Mt 6,10) é realizadora da santidade (vv. 3.7; 2Ts 2,13; Ef 1,4). É Deus que santifica (5,23; 1Cor 6,11; cf. Jo 17,17; At 20,32); Cristo se fez nossa santificação (1Cor 1,30), para a qual também o Espírito colabora (v. 8; 2Ts 2,13; 1 Cor 6,11). Os cristãos devem pô-la em prática (Rm 6,19+). Eles, habitualmente, são chamados “santos” (At 9,13+)».

3. SANTIFICAR – CONSAGRADOS A DEUS
A santidade é o máximo desenvolvimento da graça do Batismo. S. João Paulo II, na carta apostólica Novo Millennio Ineunte escreveu: «Em primeiro lugar, não hesito em dizer que o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade. (…) Assim, é preciso redescobrir, em todo o seu valor programático, o capítulo V da Constituição dogmática Lumen Gentium, intitulado “vocação universal à santidade”. (…) Pode-se porventura “programar” a santidade? Que pode significar esta realidade na lógica dum plano pastoral? Na verdade, colocar a programação pastoral sob o signo da santidade é uma opção carregada de consequências. Significa exprimir a convicção de que, se o Batismo é uma verdadeira entrada na santidade de Deus através da inserção em Cristo e da habitação do seu Espírito, seria um contrassenso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial. Perguntar a um catecúmeno: “Queres receber o Batismo?” Significa ao mesmo tempo pedir-lhe: “Queres fazer-te santo?” Significa colocar na sua estrada o radicalismo do Sermão da Montanha: “Sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste” (Mt 5,48)» (nn. 30-31).

A santidade é um caminho e não um estado. A confiança no caminho nasce da fonte da santidade, isto é, a misericórdia de Deus.

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