Retiro online - 3.º Dia: "Vendo-o, encheu-se de compaixão e aproximou-se..." Lc 10, 33-34a


Bom dia Senhor! Obrigada por mais este dia de retiro, de encontro contigo e de oração  nesta comunidade virtual, que somos todos os que fazemos este retiro "online"! Pedimos-te por todos nós, por tudo o que estamos a viver, pelas nossas dificuldades, pelas nossas conquistas e também pelos projectos que tens para cada um! Ajuda-nos a abrir o nosso coração à Tua presença, a deixarmo-nos amar por ti, a fazermos essa experiência do Teu imenso amor por cada um, a deixarmo-nos transformar por esse amor! Que possamos fazer como Tu, Jesus, amar como Tu amaste, ser misericordiosos como Tu foste, aproximando-nos daqueles que mais precisam de nós! Maria reza connosco, ensina-nos a rezar e a abrir-nos ao Espírito Santo!
A Palavra de Deus:
Levantou-se, então, um doutor da Lei e perguntou-lhe, para o experimentar: «Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?»
Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?»
O outro respondeu: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.»
Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.»
Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?»
Tomando a palavra, Jesus respondeu:
«Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto.
Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo.
Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante.
Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão.
Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele.
No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.’
Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?»
Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.» Lc 10, 25-37
Pistas de Oração:

Vai e faz tu também o mesmo”
Só quando nos sabemos e sentimos amados por Deus, podemos amar como Ele nos ama. Saber quem sou! Poder experimentar o amor do Senhor! Poder reconhecer não apenas de mente, mas fazer a experiência, desde as minhas entranhas, que sou um/a filho/a muito amado/a de Deus! É o que temos vindo a meditar e a rezar nestes dias de retiro. Provavelmente reconhecemos que é um processo de vida que todos desejamos fazer, mas que não é fácil. Na cabeça posso ter tudo bem ordenado, mas na prática, o que me acontece é que reajo desde os meus instintos de medo daquilo que os outros possam pensar de mim ou actuo movida, não por aquilo que sou, mas por reacções ao que alguém foi para mim, “pagando na mesma moeda” quando me ignoram ou me tratam mal. Constato que não consigo amar como sou amada, provavelmente porque não vivo constantemente com essa consciência de que sou tão amada por Deus, não vivo tão em sintonia com Ele como seria desejável!

Jesus conta esta parábola do “Bom Samaritano” e nela percebemos a sua própria vida de aproximação a todos os homens, de atenção especial aos mais necessitados, de cura das feridas exteriores e interiores, de entrega e serviço a todos sem excepção e até onde cada um precise. Podemos dizer, com João Paulo II, que Jesus encarna e personifica a misericórdia de Deus. Porque é que Jesus pôde viver assim? Porque dependia totalmente do Pai, vivia com a consciência de ser um Filho muito amado, sempre disposto e atento para fazer a vontade do Pai.
No diálogo de Jesus com um doutor da lei em que este menciona mandamentos do amor tirados da própria lei (“Amar a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças e com todo o entendimento e amar o próximo como a si mesmo”), Jesus diz-lhe para os pôr em prática pois assim terá Vida: “Faz isso e viverás!” Jesus preocupa-se mais com a prática do amor do que com as teorias que possa haver sobre o mesmo. O doutor da lei para se justificar vai mais longe e pergunta: “Quem é o meu próximo?” Era uma questão controversa na época e discutida pelos doutores da lei: uns consideravam ‘próximo’ todos os outros judeus, outros incluíam nesse conceito os estrangeiros que viviam em Israel e outros ainda admitiam como ‘próximo’ qualquer pessoa. Para Jesus não lhe interessam estas discussões teóricas. Jesus é tão prático que para mostrar bem o que é importante conta histórias simples, acessíveis a todos, onde se visualiza aquilo que quer transmitir. Não há lugar a enganos!
Sinto que muitas vezes é isto que nos acontece: ficamos presos em discussões teóricas, perdemos muito tempo aí, ou então agimos apenas de acordo com a etiqueta, com o que é “politicamente correcto”, com a preocupação de ficar bem vistos. Somos capazes de fazer uma coisa em que perdemos bastante tempo por alguém que “pode ser importante” ou a quem “devemos favores” e deixamos de fazer a quem precisa mesmo!
Outras vezes vamos tão seguros de nós mesmos, andamos tão auto-suficientes, que nem nos damos conta dos projectos que Deus tem para cada um, apenas conhecemos os nossos projectos e não os confrontamos com a vontade de Deus. Foi o que aconteceu nesta história com o sacerdote e o levita. Até podemos agir em nome de Deus, mas tão cheios de nós e tão pouco abertos a Ele e à Sua vontade! E caminhamos na vida convencidos que somos muito bons! Ainda há pouco tempo, o Papa Francisco, numa homilia em Sta. Marta disse o seguinte: “Só compreendemos a misericórdia de Deus quando ela se derramou sobre nós, sobre os nossos pecados, sobre as nossas misérias. Por isso precisamos pedir: Infunde em nós Senhor, a Tua misericórdia!” Parece-me que esta verdade é basilar e já foi aqui bastante referida: enquanto eu não me encher do amor de Deus, não posso amar! Enquanto eu não deixar que a Sua misericórdia me inunde, reconhecendo as minhas falhas, não poderei ser misericordiosa!

O grande desafio de Jesus com este texto e obviamente com a Sua vida, que o corrobora, é a transformarmo-nos em sujeitos de proximidade. Por isso Jesus muda a pergunta de “quem é o meu próximo” para “qual destes três foi o próximo do homem caído no caminho”. É muito subtil, mas é essencial a mudança de paradigma! Gostamos apenas de ser sujeitos de honras, de elogios, de escolhas, de 1ºs lugares, e por aí fora. Mas Jesus pede-nos que sejamos sujeitos de proximidade do outro que precisa. De darmos o primeiro passo, de não voltarmos a cara, de agirmos com compaixão, de curarmos as feridas daqueles que estão a sofrer e que se cruzam no nosso caminho. Quando o meu próximo é o objecto, posso ficar muito tempo à espera para agir. Mas se sou sujeito de proximidade, sou eu que me aproximo, que dou o passo em frente, que avanço para a periferia, como pede o Papa Francisco, que acudo a toda e qualquer pessoa que precisa de mim e não apenas às que me são convenientes. A misericórdia consiste em ser próximo daqueles que precisam de mim. Não por obrigação, não por normas ou etiquetas, mas por compaixão, porque o coração me impele, porque responde a um impulso de amor, a uma engrenagem alimentada por um combustível que não falha e que é gratuito, que é o Amor de Deus derramado no meu coração e que me permite amar à Sua semelhança!

“Vai e faz tu também o mesmo!” Não façamos por fazer ou apenas aquilo que nos apetece! Façamos o mesmo que o samaritano, façamo-nos próximos dos necessitados! Façamos o que Jesus nos disser em cada momento, vivamos em sintonia com Ele, deixando-nos amar para que o impulso do nosso coração não possa ser outro, senão amar a cada pessoa, sem excepção.
Gostaria de deixar uma música para o dia de hoje em homenagem à nossa amiga Helena que partiu há uma semana para a Casa do Pai. Foi uma das músicas que cantámos na sua despedida. Querida Helena, pedimos-te que desde o Céu peças ao Pai por cada um de nós, que Ele e Jesus nos ajudem a viver assim: que nada nos perturbe, nada nos espante, que acreditemos que tudo passa, que a paciência tudo alcança; que quem a Deus tem, nada lhe falta pois só «Deus basta» (Santa Teresa de Jesus). 

Propostas para viver o dia em oração:

- Buscar um local apropriado e arranjar tempo de qualidade para estar a sós com Jesus em oração. Deixar que Ele me fale, rezando o texto da Palavra de Deus que me é proposto.
- "Vai e faz tu também o mesmo!" O que significa esta frase hoje para mim?  Que sou chamado/a a fazer? Qual é a vontade de Jesus para mim?
- De que maneira tenho que a pôr em prática? Quero? O que me impede?
- Tenho sido próximo daqueles que me necessitam? Quem são eles neste momento?

- Como anda a minha relação com Jesus e com o Pai? Tornar-me próximo também deles!

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