Sínodo dos Bispos. Um olhar retrospetivo e prospetivo


O Sínodo dos Bispos terminou com um discurso proferido pelo Papa Francisco que pareceu ser um carimbo de borracha, separado das conclusões do Sínodo. Em sua alocução, ele ressaltou que “no caminho deste Sínodo, as diferentes opiniões que se expressaram livremente – e às vezes, infelizmente, com métodos não inteiramente benévolos – enriqueceram e animaram certamente o diálogo, proporcionando a imagem viva duma Igreja que não usa ‘impressos prontos’, mas que, da fonte inexaurível da sua fé, tira água viva para saciar os corações ressequidos”.
O papa em seguida acrescentou que o Sínodo deixou que “os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o homem; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perdão”.
Portanto, é como se o papa quisesse traçar uma linha entre os que tentaram permanecer fiéis à doutrina e os que quiseram adaptá-la. Esta sua fala tem muitas influências “jesuíticas”, como, por exemplo, o tópico da enculturação da fé e a forma como os evangelhos são interpretados.

Comentário de Andrea Gagliarducci, publicado em MondayVatican, 26-10-2015

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A “operação Sínodo” fracassou em dois sentidos. A grande maioria mostrou compreender os ensinamentos de São João Paulo II e Bento XVI. O caminho sinodal deles, um caminho muito longo, estabeleceu fundamentos sólidos para este Sínodo sobre a família. É válido notar que São João Paulo II convocou um sínodo sobre a penitência e reconciliação logo após o Sínodo sobre a família, de 1980, enquanto que em 1990 ele quis um Sínodo sobre a formação sacerdotal. Esta sua escolha foi profética. A questão da formatação sacerdotal foi um dos tópicos mais desenvolvidos e debatidos durante o Sínodo 2015, junto com a questão da formação dos fiéis leigos.

Muitos bispos não querem alterar a doutrina da Igreja. Entendem que a verdadeira questão é formar sacerdotes que tenham condições de ensinar os ensinamentos católicos, pessoas que sejam capazes de ler os sinais dos tempos sem diluir a doutrina. No fim, eles identificam uma necessidade de sacerdotes que tenham condições de formar uma nova geração de católicos. O tema da consciência – um tema que foi central durante a última parte do Sínodo – está estritamente ligado com a formação das consciências.

Uma outra questão em jogo é a educação para amar. Todos os bispos a defenderam. O Cardeal Napier, numa de suas intervenções livres, propôs uma formação permanente para os namorados e cônjuges. O maior resultado do Sínodo é um impulso em direção a um maior compromisso com a catequese. Eis a verdadeira surpresa do Sínodo.

A educação é uma espécie de “linha vermelha” em todos os relatórios dos pequenos círculos. Os relatórios emitem mais de 1.300 modi (alterações) na tentativa de consertar o texto do Documento de Trabalho. Fundamentado sociologicamente, o Documento de Trabalho foi desenvolvido em três capítulos que espelhavam o esquema “ver-julgar-agir”. Mas, no final – os bispos notaram –, o primeiro capítulo sobre o “ver” também incluía partes do julgar e agir, e o terceiro capítulo estava demasiado vago. Os bispos pediram à equipe de redação que abreviasse os tópicos e desenvolvesse um texto mais suave. Este foi o desejo geral dos bispos para com o texto.

Algumas conclusões temporárias

No fim, o Sínodo dos Bispos deixa a Igreja em um estado confuso. Para os fiéis, nada muda. As Igrejas locais irão determinar se publicam documentos para explicar precisamente como os fiéis deveriam interpretar o Relatório Final do Sínodo, numa tentativa de reestabelecer a doutrina com clareza. A esperança geral é que o papa emita um documento magisterial no intuito de fechar o debate.

O Papa Francisco terá de tomar a decisão final. Ele pode escolher deixar a discussão em aberto, assim deixando também a Igreja em um estado de “Sínodo permanente”. Ele pode escolher dar uma direção precisa à Igreja. Esta decisão não é simples. Francisco tomou a palavra muitas vezes durante a assembleia, e sempre reiterava que ele é “Pedro”, como uma espécie de garante. Isso, porém, não vai ajudar a acalmar a disputa.

O Sínodo produziu uma outra certeza: o de que os inimigos do papa estão provavelmente atrás dos seus amigos. A Carta dos 13 Cardeais que manifestava as preocupações dos signatários sobre os procedimentos sinodais era, na verdade, uma carta privada enviada ao papa. O fato de que ela tenha vazado mostra que as pessoas que circundam o pontífice estavam buscando por uma frente externa para a sua guerra. Já que não podiam vencer no Sínodo, tentaram vencer a opinião pública, descrevendo quaisquer críticas como um ataque pessoal contra o papa.

Na verdade, uma ampla maioria dos bispos no Sínodo compartilhavam as preocupações dos treze cardeais.

Agora, inúmeras dúvidas permanecem em aberto: Será que os apoiantes da agenda da misericórdia são realmente os amigos do papa? Será que o Sínodo realmente abriu uma nova temporada para a Igreja? Somente o tempo irá dizer. Enquanto isso, o Papa Francisco tomou ainda mais o comando do Vaticano, conforme prova a criação de uma comissão concernente ao recém-anunciado dicastério da família: pela primeira vez com o Papa Francisco, o estabelecimento de uma nova estrutura vaticana será precedida pela elaboração de seus estatutos.

Eis a verdadeira novidade. A Secretaria para a Economia e o Conselho para a Economia esperaram um longo tempo por seus estatutos, e eles ainda não estão incluídos na Pastor Bonus, constituição apostólica que regula as funções e os dicastérios da Cúria Romana. O mesmo aconteceu com a Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores com a Secretaria para as Comunicações – embora este seja um organismo crucial na nova Cúria, que visa melhor comunicar o Evangelho ao mundo.

Será que agora o Papa Francisco vai compreender que o Vaticano e a Igreja devem ser governados por meio de orientações claras vindas de cima, e não apenas por uma reorganização?

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